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Breve Painel etno-histórico de Mato Grosso do Sul busca contribuir, através da promoção do conhecimento, para a difusão da tolerância e respeito ao pluralismo étnico, tendo como tema principal um breve panorama da história das etnias que ocuparam, ocupam ou transitaram, pelo que hoje se conhece como o Estado de Mato Grosso do Sul.

O autor é Gilson Rodolfo Martins, bacharel em História pela Universidade de São Paulo (1976) e doutor em Arqueologia pela Universidade de São Paulo (1996). Atualmente é diretor do Museu de Arqueologia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (MUARQ-LPA/UFMS) e professor titular de Arqueologia Pré-histórica da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.

Os estudos que fazem interface entre a Arqueologia e a Antropologia nos cursos de Ciências Sociais ainda são raros. Com exceção da PUC-GO (Pontifícia Universidade Católica de Goiás); assim como o PPGAN- UFMG (Programa de Pós Graduação em Antropologia e Arqueologia da UFMG), que embora com linhas de pesquisa distintas, procura o diálogo constante entre as duas áreas; e, por fim, o tradicional Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

No que diz respeito ao diálogo teórico entre as duas disciplinas, podemos afirmar que o difusionismo e sua preocupação com a difusão dos traços culturais entre os grupos para o entendimento da cultura, contribuiu, outrora, para uma maior proximidade entre as disciplinas. Assim como a Ecologia Cultural, posteriormente, hoje ocupando uma posição um tanto quanto incomoda na Etnologia. Influenciou , sobretudo, a partir das teses sobre a relação do meio-ambiente e a cultura, para as terras baixas da Amazônia,  já que anteriormente, os estudos desta perspectiva eram concentrados na Meso-América . Destaca-se o trabalho de Betty Meggers: Amazônia: A Ilusão de um Paraíso de 1976 e A Reconstrução da Pré-História Amazônica de 1974.  Particularmente, no campo da Antropologia vale mencionar o Handbook of South American Indian de Julien Steward, e que na Antropologia Brasileira terá ecos nos trabalhos do antropólogo Darcy Ribeiro. Pela interface proposta pelo livro o destaque sobre a relação entre o ecossistema do pantanal  e o “desenvolvimento” de culturas humanas é um dos horizontes perscrutados pelo autor.

Os grupos que ocupavam o território de Mato Grosso do Sul à época da chegada dos europeus na região, datada do século XVI, logo foram inseridos na dinâmica colonial, a partir do modelo de mão-de-obra compulsória, conforme apresentado pelo autor. Este contato, tematizado pelo autor como “intercivilizatório”, quase levou ao extermínio definitivo dos povos indígenas da região.

A ocupação territorial na atualidade das comunidades indígenas sul-matogrossense: “é bem reduzida, menciona-se reservas do extinto SPI, no sul do Estado, além centenas de famílias de Guarani-Kaiowá, assentadas nas margens das rodovias, aguardando o retorno as suas terras tradicionais e cerca de 5 mil pessoas da etnia terena que vivem marginalizadas nas cidades do Estado, tais como Dourados, Campo Grande, Aquidauana e Miranda.” (Martins, 2002, p.12)

O autor faz uma breve descrição dos aspectos geográficos do Estado, como seu rico mapa hidrográfico dividido em duas bacias: a do Rio Paraná e a do Rio Paraguai, sua vegetação – composta sobretudo por savanas e florestas tropicais – bem como aspectos do solo e geomoforlógicos.

Sobre a ocupação pré-histórica há registro de grupos humanos no Estado há mais de 11 mil anos. Os registros contemplam populações já extintas anteriormente  em relação ao grupos indigenas do período pré-colonial, bem como destes também. Destaca algumas pinturas rupestres no Alto Sucuriú, Costa Rica; Painel de Pinturas em Chapadão do Sul, Maracaju, Três Lagoas, e outros municípios; petróglifos em Corumbá, dando destaque para o séc. XVII considerando as reduções das Missões Jesuíticas de Itatim; e além de objetos da cultura material como raspadores em pedra lascada, ponta de projétil, lâminas de machado, mão-de-pilão, cerâmicas, adornos labiais, entre outros. Testemunham desta forma um rico patrimônio arqueológico a ser explorado, constatada as incipientes pesquisas ainda na área.

O segundo tema abordado no livro é sobre os povos indigenas do Mato Grosso do Sul e o contato com a civilização européia. Nas palavras do autor, o primeiro europeu a pisar em terras sul-matogrossenses foi Aleixo Garcia, ainda no início do século XVI. O motivo  tal incursão deu-se pelo fato dos espanhóis procurarem uma rota que ligasse o Pacífico ao Atlântico. A penetração no território foi posterior, sob influencia da busca pela prata na Bacia Platina. Primeiramente deu-se o contato com os indios charrua, e depois com guarani-carijó, que possuiam alguns adornos de prata e que atiçaram a cobiça dos espanhois a partir do mito  da Serra de Prata a que estes indios faziam ao Império Inca, mais ao norte.

Um importante aspecto que justifica a relação, do ponto de vista da cosmologia indigena dos guarani, e que justificou a aproximação da expedição de Aleixo Garcia, é narrada pelo autor da seguinte forma:  “ Aproveitando-se maliciosamente de um componente da cultura religiosa dos indios Guarani, que é acreditar na existencia física de uma especie de paraíso terrestre – Terra Sem Males – em busca do qual, periodicamente, os índios Guarani organizavam migrações com caráter messiânico, foi fácil capturar indigenas necessários ao seu plano expedicionário e ambicioso de buscar as imensas riquezas da “Serra de Prata”, associando dois objetivos culturais – o dos indigenas e do conquistador.” ( Martins, p.36, 2002)

A terceira parte do livro versará propriamente sobre os indios do Estado de Mato Grosso do Sul, desde a ocasião do “descobrimento”. Contabilizando alguns que ainda não foram identificados pela arqueologia e etno-história. Entre eles o autor destaca as etnias, Guarani, Guató, Ofayé, Kaiapó meridional, Payaguá. As mencionadas pelo autor merecem revisão por não considerar critérios de auto-denominação por parte dos indigenas.

Sobre os índios guaranis o autor destaca que ocupam a porção sul, sudoeste e centro-sudoeste do Estado, oriundos da planície Amazônica, ocupando a bacia platina; território que se tornou referencia para eles. Ainda com o território subordinado à Coroa Espanhola, passaram por processo de escravização, via instituições como as encomiendas, depois sob ficaram sob a tutela de Missões Jesuíticas. Atualmente sofrem com a expansão do agr negócio, trabalhando muitas vezes em lavouras, contudo, estimulados por lideranças próprias e indigenistas a retomar sua identidade na garantia de direitos, a partir de um processo de resistência via afirmação étnica. No estado de Mato Grosso do Sul há três grupos guarani, o mais numeroso  Kaiowá, Nhandeva e Mbya.

Os Kadiwéu, do tronco Arauak, e da familia Guaicuru, ocuparam a partir da segunda metade do século XVII, o vácuo demografico ocasionado pelo genocido bandeirante na região sul do Pantanal. O autor destaca a relação belicosa destes com outros grupos indigenas, sobretudo, os Guaná, e são conhecidos pela domesticação de cavalos,  devido a multiplicação de manadas por volta de 1650. Guerreiros transformaram-se em uma grande barreira para a colonização luso-espanhola, sendo assinado um tratado de paz, o único durante a Monarquia Portuguesa. Participaram na Guerra do Paraguai, e hoje, são em torno de mil individuos após um alto refluxo durante o seculo XIX, ocasionado pela expansao da fronteira agricola. Ocupam uma região proxima ao municipio de Porto Murtinho. Destaca-se também a produção estética dos mesmos. ( Ver Arte Kadiwéu do Darcy Ribeiro, 1951)

A etnia a seguir descrita pelo autor é a dos Terena. Estes são integrantes da família linguistica Guaná, filiadas ao tronco Aruak e que entraram, a partir do Sec. XVIII, em território sul-matogrossense, entre elas se destaca os Terena e os Kinikinao. Embora guerreiros comos os Guaikuru, estabeleceram mais contato com a sociedade envolvente por meio de trocas em que se destaca a produção de horti-frutiferos e a pecuária. Possuem excelente cerâmica  encontram-se, sobretudo, na região de Miranda. A etnia foi profundamente marcada pela Guerra do Paraguai, pois seu territorio foi substancialmente loteado entre os combatentes remanescentes e ainda, a partir, do século XIX também por pressão da expansão da fronteira agrícola. Outro fato que contribuiu para a perda de seus territórios foi a construção da Ferrovia Noroeste do Brasil, ligando a bacia do Rio Paraguai ao Brasil Atlântico.Merece destaque também a primeira aldeia urbana do Brasil sendo desta etnia, situada em Campo Grande, além da presença da educação escolar indigena a partir da alfabetização bilingue.

Sobre os Guapó, grupo inserido no tronco linguistico Macro-Jê, o autor destaca  que estes não se constituíam em aldeias fixas e passavam boa parte do tempo em canoas, nas áreas alagadas do Pantanal, vivendo basicamente da pesca e da caça. Os registros destes indigenas datam de 1825, devido ao seu temperamento não arredio em oposição aos Payaguá. Sofrem com o avanço do turismo da região e expansão agropastoril.

Com relação aos Ofayé  (Ofayé-Xavante), que se situam na planície do Rio Paraná, o autor menciona, que sofreram ataques constantes. O que explicaria seu nomadismo,  ataques desde os Kayapó meridional e os Guarani. Segundo o autor: “ No século seguinte, o trafego fluvial em direção as minas de Cuiabá, no Ciclo das Monções, abriu a perspectiva de ocupação das terras Ofayé com a implantação de estâncias de gado subsidiárias ao complexo garimpeiro mato-grossense.” (MARTINS, p. 73, 2002) Ocupam a região do atual municipio de Brasilândia.

Os Kayapó meridional, fazem constraste com o resto da etnias sul matogrossenssens por terem habitado em campos abertos. Possuiam uma organização social baseada na uxorilocalidade, não dormiam em redes e sim em esteiras, possuindo sofisticação na manipulacao da arte plumária e tecnicas de pintura corporal. Devido aos prejuizos que causaram às monçoes e à manutenção do ciclo minerador cuiabano, foram exterminados em meados do Século XIX no Estado. Importante destacar que este eram os que ocupavam a região do Bolsão, Paranaíba.

A última etnia mencionada pelo autor, das oito presentes no Estado, são os Payaguá também quase extintos, pertencentes a etnia Guaikuru. Canoeiros, destacavam-se na navegação fluvial no Rio Paraguai, tendo sido bastante atingidos com a perda do controle do rio em decorrência da expansão das monções a partir do sec. XVIII.

O tópico posterior trata da Questão Indigena na atualidade no Estado. O autor considera a dificuldade particular da política indigenista dado o contexto local ser marcado por bastante pluralidade assim, segundo o autor: “ A intromissão de fatores políticos, internos e externos às sociedades indigenas, tais como: tradicionais conflitos interétnicos, rivalidades entre lideranças indigenas, disputas por espaços entre as entidades indigenistas” (governamentais ou não) e , sobretudo, a complexidade das realidades pluri-étnicas (…) Não existindo homogeneidade nem internamente (MARTINS, p. 45, 2002), manisfestando-se caracteristicas singulares inclusive em uma mesma aldeia, impede qualquer tentativa de generalização dos problemas. A despeito das ofensivas históricas recorrentes aos pvos indigenas no Estado, e que tiveram como caso emblemático a extinção da etnia kayapó-meridional, a partir da Constituição de 1988, abriu-se espaço para a garantia dos direitos indigenas, marcando até projetos de etnogênese, como o caso dos Atikum. O grupos indigenas na região sempre foram vistos sob a ideologia dos “bugres”, que entende que os mesmos devem ser incorporados às camadas mais inferiores da sociedade.

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