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Carnaval

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Vendo a Estação Primeira de Mangueira escolher como Enredo de 2009, “A Mangueira traz os Brasis do Brasil mostrando a formação do povo Brasileiro”, foi difícil não refletir sobre as críticas que a obra de Darcy Ribeiro e sua tradição política vinham recebendo recentemente. Ex post facto, vemos por destino da história, e não por acaso, que realmente devemos repensar a crítica que deriva do conceito de populismo.

O samba-enredo da Mangueira seguiu a apresentação do livro de Darcy Ribeiro: “O povo brasileiro – sentido e formação do Brasil”. Falou de miscigenação, do branco que aqui chegou e com o paraíso que se encantou, da exploração da riqueza, do índio que resistiu ao trabalho, o trabalho do negro entregue à própria sorte, misturas de raça em um só coração, crioulos, caboclos, sertanejos e caipiras marcando a perspectiva interpretativa do autor. Para ele a miscigenação foi o processo constituinte da identidade brasileira encarado de maneira sofrida, resgatando o caráter de espoliação sofrido desde os primórdios da colonização, cujo resultado refere-se à desumanidade presente na expressão moinhos de “gastar gente”, que resultou no empenho de construir uma nação a partir do processo de “caldeamento étnico” até culminar na transfiguração étnica resultante da produção do novo, da diversidade de culturas que compõe o Brasil: a sertaneja, a sulista, os caboclos, os crioulos, os caipiras que configuram os muitos brasis.

As fantasias levavam os nomes de Ritual Antropofágico em alusão aos índios dos seiscentos; Ourivesaria Asshanti, Escribas Haussás e Escultores Ngolas para marcar a riqueza cultural africana; Açorianos, Crendices da terra, conformando o processo do rico folclore brasileiro, Os Bandeirantes; Ouro e Pedras preciosas, retomando a época da mineração, Nobre Roceiro, retratando o homem do campo em visão apologética de quem criou as condições para a produção da riqueza que seria exportada; Missões Guaranis e Rodeados de Gado. O 7º setor foi chamado de Educação Brasileira, valorizando a questão da Educação como feito pelo autor. Carros que tinham na composição os nomes de Tupinambás, Essência da paixão, Aromas do paraíso, Indias Peixes, Pecuaristas, Candeias, Ashanti, Sacros Anjos, Pajé, Indios Ribeirinhos, Aves Amazônicas, Farturas do Campo, Nobres Mineiros e Nobres Roceiros, Caipira, Bóia Fria, Trigais, Canhoneiros, Polvoeiras, Parreiras, Fé no divino, Sertanejos, todas fantasias dando sentido à uma visão do processo traumático de colonização que o Brasil passou tratado por Darcy Ribeiro, mas sem nunca deixar de romantizar um passado glorioso e sofridode maneira otimista, tal como a característica prima facie do povo brasileiro imputada pelo autor, no intuito de sub-repticiamente abordar a questão do imperialismo e do subdesenvolvimento em termos de denuncia e causa deste sofrimento, trazendo a necessidade de um projeto político que levasse o Brasil ao progresso.

È assim que problematizo a questão de uma escola de samba conhecida tradicionalmente por seu apelo popular, por guardar uma tradição romântica quando é conhecida por preconizar um desfile de paixão pelo samba em detrimento aos apelos técnicos, autentica representação do povo, escolher um intelectual que é tido como “demagogo” conforme criticas do populismo para dar base ao seu enredo. O problema está, primeiramente, em negar a opção de escolha desse povo, e assim da possibilidade de intelectuais de embasarem sua obra nele e para ele, chegando-se a questionar a própria existência deste “grupo”, quando tratado como conceito de “massa acéfala” pronta a ser manipulada. E quem então são os torcedores de amor extremo à Escola, a velha guarda da mangueira, o carnavalesco que escolheu um intelectual “manipulador” para subsidiar seu enredo? Será quem que agora falará do caráter artificial imputado a perspectiva política de Darcy Ribeiro incluindo-o no rol das dos políticos populistas? O que faria justamente uma escola de samba – e reparem, a mais “popular” de todas – após quase 12 anos da morte de Darcy Ribeiro, ou 13 do lançamento de seu livro tomar sua obra como base de seu enredo? Talvez a resposta esteja em que esta opção faz jus à representatividade, negada, da obra de Darcy Ribeiro do povo. Mesmo que expressa por interesses próprios, como apontados pela oposição política, até mesmo como escusos, sua obra atingiu um lugar que esta oposição nunca conseguiu, comunicar grupos, que reunidos, são representados com o termo ”povo”, ou conceitualmente, “massa”, e que estes se sintam identificados com seu próprio discurso.

Pergunto, depois de 10 anos, se isto ainda seria “manipulação”? Por que a obra dos críticos, não foi usada? Elas não contêm justamente a característica presente na obra de Darcy Ribeiro e que vem do “povo”: o conteúdo esperançoso. Na escrita de Darcy Ribeiro, a vontade de fazer do Brasil uma nova Roma, a despeito das mazelas sofridas. É uma peça pregada pela história o fato de que estão hoje cantando e dançando a partir de seu nome. Em suma, falo de identificação, pois não à toa, se se trata de populismo, é sobre o cimento do projeto que Darcy Ribeiro participou da criação, que desde 1984, a Marquês de Sapucaí foi feita para esse “povo desfilar, apresentando um dos maiores festivais de cultura do Planeta Terra, algo bem exagerado como a fala de Darcy Ribeiro.

Algo que não deixa, contudo, de ser bastante sintomático. Mesmo crítico, alguns preferem as palavras da esperança, o reconhecimento da própria beleza e palavras de força no lugar de simples adaptação a projetos que representam um discurso com o qual não se identificam – identidade negada: a de povo! Eu ainda me pergunto: será que ele não existe? Uma coisa não se pode esquecer, Darcy Ribeiro, se hoje ele é falado, é porque se propôs a escutar e traduziu, falou um discurso com o qual alguém se identifica. Sobre o povo: Burro, deseducado, manipulado? É só observarem os 4500 passistas cantando em outro “demônio manipulador”- o carnaval carioca – com paixão e interesse como se fossem eles mesmos. Seria muito sonho se não fosse tão real! Alguém continua o projeto de inventar o Brasil.

A Mangueira é uma escola de samba popular ou o populismo chegou ao samba?

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