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RÉMOND, René. As Eleições in: RÉMOND, René. Por uma história política: Rio de Janeiro: Ed. UFRJ/Ed. FGV, 1996.

Qual a importância do estudo das Eleições no campo da História Política? Quais foram os primeiros estudos? Quais as principais problemáticas tratadas? Quais as novas possibilidades de abordagem na historiografia política?

A relação da História com as Eleições, o papel dos historiadores no estudo sobre o fato eleitoral, como se estabeleceu este campo na França a partir da instituição da República, as principais obras, os principais temas, são algumas questões que René Remónd se pretende a refletir neste texto. Em suas palavras: ‘(…) avaliar a contribuição da dimensão histórica ao estudo das eleições e à compreensão dos comportamentos eleitorais.’ (Rémond, 1996, p.37)

Para tanto, a primeira discussão apresentada pelo autor é relativa a seus pressupostos quanto ao que diz respeito ao que seria o historiador. Segundo o autor historiador seria aquele que pertence manifestamente à corporação dos historiadores, fazendo jus as suas instituições, pelo diplomas que obtiveram, mas que mesmo a demasiada importância das distinções corporativas, na revisão apresentada sobre a relação entre os estudos sobre eleições e a História, o autor seria injusto se restringisse a apresentação de obras apenas a especialistas comprovados.

A partir desta consideração, o autor mostra que o primeiro tema que chamou atenção de trabalhos históricos sobre eleições na França, foi a análise dos resultados dos sufrágios universais para avaliar a composição de forças no poder. Neste caso o livro citado é de François Goguel sobre partidos políticos na Terceira República cujas relações de força foram analisadas entre dois grandes blocos, o da Ordem e o do Movimento.

O autor procede, então, uma análise da antiguidade e continuidade do fenômeno eleitoral para avaliar o que foi que causou o interesse dos historiadores para o fenômeno. O primeiro ponto chamado atenção pelo autor foi o papel decisivo que as eleições tinham no regime a partir do reconhecimento da opinião pública como a responsável pela legitimação do poder. Além disto, o fenômeno seria responsável por uma periodização da vida política na medida em que analisado de acordo com a existência ou não dos pleitos.

Deste interesse geral, doravante veio análises mais especializadas, onde o principal tema fora: ‘acompanhar de perto a cronologia das consultas eleitorais, por sufrágio restrito e universal, discriminando seus resultados na distribuição das cadeiras na Câmara dos Deputados ou no corpo legislativo, e calculando as conseqüências sobre a relação de forças e a estabilidade das instituições.’ (Rémond, 1996, p.39)

Nesse sentido, os estudos ainda estavam voltados às eleições e sua relação com o poder instituído; como estas se relacionavam com o funcionamento do poder? Assim os estudos se centravam, sobretudo, nas conseqüências, o que elas modificavam depois no equilíbrio de forças no poder, são exemplos de problemas: ‘A relação entre maioria e oposição, a composição dos governos e até mesmo, ocasionalmente, o funcionamento das instituições ou a duração dos regimes. (Rémond, 1996, p.40)

Segundo o autor, esta perspectiva foi alterada na medida em que entraram em cena as eleições como um objeto revelador do ‘espírito’ da opinião publica. Um interesse pelo o que ela representava em termos de correntes e tendências tanto quanto o que resultava das eleições. Cita então o trabalho de André Siegried, sobre a divisão geográfica das opiniões na França a partir da análise das eleições, o que se chamou então de ‘temperamento político regional’. Nesta esteira segue-se o trabalho de Seignobos a partir de uma análise detalhada da distribuição da direita e da esquerda por região. Ao que o autor caracterizou que a historia das consultas eleitorais que daí em diante passou a confundir-se com o que se caracterizou como a geografia eleitoral. Assim a análise das eleições tinha como centro a estabilidade, esta na perspectiva de mudanças com o objetivo de investigar as causas profundas destas permanências que constituíram um grande desafio para aqueles historiadores.

Caracterizado este primeiro momento o autor passa a falar de uma nova geração de Historiadores: A geração dos anos 50 na França, que foi caracterizada por Rémond pelo estudo do Estado focado a partir da análise de Departamentos; além de não se restringir apenas a dimensão política, buscando encontrar nas estruturas sociais e econômicas a chave da evolução política. Entretanto, mesmo deixando o fenômeno político com centro da explicação, este grupo teve como mérito a ampliação dos estudos a partir da produção de dados setorizados. Descendo a análise, às vezes, aos níveis municipais que seriam então uma novidade na época. Afirma Rémond que buscavam uma relação entre comportamentos eleitorais e outro tipos de atores. Percebe-se, pois, já uma intenção de identificar as circunstâncias do voto.

O autor prossegue sua apresentação mostrando, um deslocamento desta perspectiva que coloca de novo no centro da discussão a amplitude do fenômeno eleitoral que não estaria reduzido a explicação por meio de uma causa única. Concluindo que: ‘As mesmas causas geram, segundo as regiões analisadas, efeitos contrários, enquanto, uma mesma orientação política pode muito bem aparecer, em duas regiões distintas, como conseqüência de atores opostos. De todas as correlações consideradas e observadas, a mais estável continua sendo entre as opiniões políticas e crenças religiosas: se ela não é explicativa, ao menos tem uma virtude vaticinadora (Rémond, 1996, p.43) Uma consideração importante de Rémond sobre a explicação dos comportamentos políticos, verificada a partir da análise das eleições por esta perspectiva de estudo dos Departamentos, é que a explicação deve ser procurada no passado, no passado mais remoto. A pergunta que se então é: ‘A maioria desses trabalhos – será porque se inscrevem no quadro geográfico de departamentos onde o peso do eleitorado rural é superior ao das cidades? – se dedica à permanência dos comportamentos políticos e à estabilidade dos votos. (Rémond, 1996, p.43)

Assim o autor começa a mapear as mudanças a partir dos anos 60, argumentando que esta perspectiva departamental perde o fôlego à medida que cresce em número de pesquisas, devido ao ceticismo quanto à possibilidade de explicação dos comportamentos políticos e que coincide neste momento o eclipse da História política como um todo e o nome de Seignobos desaparece de cena, segundo o autor, um índice indicativo do declínio da História Política.

Depois deste declínio, o retorno da história política vem acompanhado do peso do método quantitativo a partir da depuração e análise de grandes amostras, considerando o papel do político como decisivo em muitos outros domínios. A justificativa do método quatitativo pelo autor estaria quando pergunta-se sobre que fenômeno se presta melhor a uma abordagem estatística e envolve mais indivíduos que a prática eleitoral? (Rémond,1996, p.45)

Deste modo, além destes avanços no que diz respeito ao método amparado em análises estatísticas, o estudo das Eleições pela História, passou ainda a contar com a discussão de outras disciplinas, o interesse pela longa duração, sem perder de seu ponto de vista os procedimentos, a perspectiva e a problemática orientada historicamente. Segundo o autor esta ultima fase ainda não se encerrou restando o entendimento de algumas outras possibilidades de análise. O programa de pesquisa assim descrito por Rémond estaria em refazer a História das Eleições aplicando às eleições do passado os métodos, conceitos e critérios elaborados pela ciência política em suas consultas contemporâneas.

O autor finaliza seu texto, desenvolvendo algumas sugestões diretamente ligadas à história política tentando trazer ao eixo de reflexão dos historiadores, as conseqüências da eleição, o fenômeno eleitoral em si, sugerindo o estudo das eleições para senadores, justificado por ser índice de um lócus de grande intriga da classe política. Ressalta que outro aspecto a ser incluído ao estudo da História das Eleições também seria as campanhas eleitorais. Segundo Rémond: ‘A campanha eleitoral é parte integrante da eleição, é seu primeiro ato. Não apenas a manifestação das preocupações dos eleitores ou a explicação dos programas dos candidatos e dos temas dos partidos é a entrada em operação de estratégias, a interação entre os cálculos dos políticos e os movimentos de opinião. Sobretudo, ela modifica cada dia as intenções e talvez as relações de forças. (Rémond, p.49)

Conceitos políticos: eleições, comportamentos eleitorais, opinião pública, sufrágio universal, legitimação do poder, maioria, oposição, composição dos governos, campanha eleitoral.

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