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Posts Tagged ‘etnografia experimental’

Marcus, George. E. & Fischer, Michael. J. 1986. “Ethnography and interpretative anthropology”. In: Anthropology as cultural critique. Chicago & London: The University of Chicago Press, pp. 17-44.

George Marcus Chancellor’s Professor of Anthropology (PhD: Harvard, 1976)

office: Social and Behavioral Sciences Gateway (SBSG) 3566. University Of California

&

MICHAEL M.J. FISCHER

Professor of Anthropology and Science and Technology Studies

Massachussets Institute Of Technology (MIT)

9780226504506

O texto começa fazendo um histórico da antropologia no começo do Séc. XIX citando Edward Tylor, James Frazer e o norte-americano Lewis Henry Morgan.  A ‘armchair’ Ethnology que tinha sua pesquisa embasada via documentos e dados fornecidos por missionários e informantes ‘ qualificados’. Isto do ponto de vista metodológico.  No que diz respeito à teoria fundaram o evolucionismo cultural com uma agenda, estilo e escopo de pesquisa próprio. O principal eixo de investigação seria comparar costumes, hábitos e pensamentos em uma escala evolutiva que partia da selvageria passaria pelos bárbaros até chegar aos civilizados.

A transição critica ocorrida em tal paradigma se deu apenas a partir dos anos 20 do Sec. XX. Os autores associam as mudanças teóricas aos contextos de profissionalização acadêmica que vinha ocorrendo, especialmente, nos Estados Unidos. Assim, neste contexto, a antropologia seguiu um desenvolvimento marginal em relação às outras ciências, pois tornara-se a disciplina responsável pela descrição do exótico e de costumes primitivos. Essa separação da antropologia social e cultural da biologia e dos estudos arqueológicos reveberou-se em alguns problemas como a associação direta desta aos pressupostos teóricos dos primeiros antropólogos ainda no Sec. XIX.

Contudo, ocorreu um fato pelo qual os autores se referem como uma revolução em termos de método com a inauguração da própria etnografia. Segundo os autores: ‘ Ethnography is a research process in which the anthropologist closely observes, records and engages in the daily life of another culture – an experience labeled as the fieldwork method – and then writes accounts of this culture, emphasizing descriptive details‘ [1]. Esse procedimento sendo o primeiro na pesquisa de campo.

Marcus and Fischer afirmam que o legado da antropologia antiga no novo mundo acadêmico e profissional foi a diversidade dos assuntos que a etnografia colocou em questão. Teoricamente os antropólogos apareciam parasitários, pois pesquisavam generalidades  sobre o homem nas bases  especificas de outras culturas a partir do método etnográfico. Essa transição como mostra os autores teve uma longa história. Mas uma coisa é fato: Bronislaw Malinowski e seus Argonautas do Pacífico Ocidental, principalmente, o primeiro capitulo de seu livro onde descreve o método é reconhecidamente o fundador desta nova perspectiva.

O novo campo se configurou a partir dos Estados Unidos nos pressuposto do relativismo cultural e na Inglaterra com o funcionalismo. Menciona-se o avanço descritivo da perspectiva funcionalista e a produção de dados de campo e o relativismo cultural originariamente norte americano como oriundo de perspectivas metodológicas  que facilitaram  a predominância da antropologia no registro da diversidade cultural.

O relativismo cultural teve bastante repercussão no debate publico norte-americano intimamente ligado aos ideais do liberalismo. Este proveu dados empíricos para as questões de cunho ideológico. No entanto, estas idéias que se estabeleceram na década de 50, já nos anos 60 passavam por mudanças. (Penso aqui em comparar este humanismo, ou política teórica com a proposta da antropologia enquanto uma antropologia filosófica como a proposta de C. Lévi-Strauss e seus trabalhos desenvolvidos para a ONU, pensar diretamente o clima do pós-guerra e da Guerra Fria).

São duas as conseqüências desse momento apontadas pelos autores: (a) A primeira a coleta de dados fora dos pressupostos evolucionistas. (b) A outra seria a critica cultural de nós mesmos, não como no passado a artir de um evolucionismo, mas tendo um renovado potencial de desenvolvimento.  Isso teve um significado para a atual crise de representação que coloca a pesquisa etnográfica no centro da reflexão e a etnografia como um produto textual(escrito) do trabalho de campo, ainda que o campo seja uma experiência ele mesmo, afirmam os autores.

Com isto, apresentam dois caminhos para a centralidade da etnografia na discussão da antropologia. (a) Um, a etnografia em termos de um gênero literário e (b) o outro como uma regra de demarcação da prática antropológica.

Do ponto de vista institucional são três as esferas que contemplam a importância da etnografia na carreira dos antropólogos. (a) A primeira o papel da leitura das etnografias clássicas na formação dos antropólogos, trazendo um arsenal de questões que são formuladas em um novo aparato conceitual e de problemas teóricos. Esta perspectiva se ahistoricista, se sobrepõe como trabalhos imutáveis; ainda sim contribuem com um arsenal indispensável para a formação dos antropólogos. Os autores apontam para outra perspectiva a de que deve-se considerar o contexto histórico da produção desencorajando a cristalização destas descrições como uma forma social e cultural eterna.

(b) O segundo ponto salientado pelos autores, ainda no que diz respeito ao caráter institucional, é  a etnografia como um veiculo pessoal e imaginativo e que os antropólogos tem como meio de fazer suas contribuições as discussões teóricas e intelectuais, tanto através de sua própria disciplina como para outros campos. Ressaltam o papel anônimo do etnógrafo e solitário na produção de seus dados, o que não é muito comum nas outras disciplinas. O etnógrafo escreve a partir de uma experiência únicaa afirmam.

(c) O terceiro ponto e o mais importante segundo os autores é a atividade principal de iniciação da carreira do antropólogo e de estabelecimento de sua reputação. Tal atitude leva a uma certa romantização do fato. Não há consenso sobre a natureza da etnografia e os impactos que as criticas da década passada ofereceram. Os autores se perguntam por que essa desatenção com o que tem sido a pratica central da pesquisa em antropologia? Partindo do pressuposto de que há uma relação da questão do método ser peculiar  com a disputa com o positivismo de outras ciências que, no entanto, não exime a própria etnografia dos anos 50 de certo positivismo, mas esta questão teria que ser considerada.

Estabelecendo-se o critério da observação participante como um método qualitativo em oposição ao positivismo metodológico de outras partes da ciência social decorreu uma nova orientação metodológica e o silencio sobre a escrita etnográfica foi quebrado com a crise da representação que mudou o legado da ciência social em geral e isso tem sido bastante precioso para os antropólogos de acordo com os autores.  (Parece haver uma associação da etnografia ao positivismo, a despeito dela ser um método qualitativo)

Nesse sentido, entre a antropologia do Sec. XIX e a do XX, baseada na etnografia, a ambição generalista parece ter seguido dois caminhos segundo os autores: (a) Primeiro, a diferença seria que a etnografia se pautaria em um holismo diferente não para estabelecer generalizações, mas sim para demonstrar outras formas de vida possível a partir da diversidade cultural. Essas idéias têm sido atualmente seriamente criticadas, como eles prometem mostrar.  Então a diferença residiria que a essência desse holismo não estaria em uma representação enciclopédica dos costumes, mas sim na contextualização dos elementos de cada cultura dentro de um sistema coerentemente sistematizado.

(b) Segundo, a dimensão comparativa não estaria orientada por esquemas evolucionistas, e sim por um valor relativo de progresso. (Pensar o caso do Neo-Evolucionismo e de Darcy Ribeiro). Então este parâmetro de comparação estaria subsumido a um campo fechado de acesso do pesquisador e de seus leitores. O debate contemporâneo acerca da relação nós – eles traz a tona como se colocaria esse lado comparativo das etnografias. Os autores fazem então uma associação do estilo literário realista e esta postura de relacionar a parte com o todo. Esta relação estaria denunciada pelo fato de: “In fact, what gives the ethnographer authority and the text a pervasive sense of concrete reality is the writer’s claim to represent a world as only one who has known it firsthand can, which. thus forges an intimate link between ethnographic writing and fieldwork. “[2] A tese dos autores estaria que deste ponto de vista a etnografia produziu um novo tipo de realismo. Uma narrativa que tem similaridades com o texto dos viajantes e exploradores e que o principal motivo é o descobrimento romântico do escritor de pessoas e lugares desconhecidos comunicada para leitores. Só que a etnografia desenvolveu mecanismos para se distanciar das narrativas dos viajantes e dos amadores que foi a salvaguarda da diversidade cultural, de uma antiocidentalização durante o colonialismo.

Os autores fecham o argumento dizendo que: “  The cultures of Word peoples need to be constantly rediscovered as these peoples reinvent them in changing historical circumstances, especially at a time when confident  metanarratives or paradigms are lacking: as we noted, ours in an era of ‘post conditions’ – postmodern, postcolonial, postradicional.”[3] E que isto necessita de novos motivos narrativos. Isto se dá a partir de uma reflexão dos motivos passados que já foram analisadas em obras de Marcus e Clifford em que os autores discutem formas de etnografia experimental.

Afora o realismo do funcionalismo, os autores irão se debruçar na mudança da uma explicação da cultura para os significados e o ‘ponto de vista nativo’, tal qual como nasceu a antropologia interpretativa, assunto que analisarão no tópico subseqüente.

THE EMERGENCE OF INTERPRETATIVE ANTHROPOLOGY

Os autores anunciam as influencias da antropologia interpretativista de meados dos anos 60 e 70 e seu intuito central de captar o ‘ponto de vista nativo’ e elucidar como diferentes construções culturais da realidade afetam a ação social. E instrumentalizou os antropólogos a perguntarem-se sobre a relação entre diferentes sistemas culturais representados nos textos etnográficos e sua relação com o autor. Assim ela atuou em dois níveis nos pressupostos epistemológicos e provendo dados de outros mundos. E a assertiva da vida social como uma negociação de significados. A cultura como um texto frase de Geertz serve para demarcar a fronteira entre uma ciência do comportamento e uma interpretação cultural.

Os autores mencionam os paradigmas funcionalista, estruturalista e intepretativista e o papel que a linguagem assumia na discussão antropológica. Para a antropologia intepretativista haveria um movimento duplo se tratando da tradução de outras culturas. A do dialogo e o da passagem para o texto. Todavia esse debate foi influenciado por autores como Lacan e Gadamer com a questão histórica oferecendo certo tipo de hermenêutica cultural formulada por Geertz. Os autores mencionam alguns conceitos como justaposição e experiência próxima e experiência distante. E apontam que a antropologia interpretativa aparece como uma espécie de relativismo sofisticado a partir dos anos 60. Esse relativismo esta inscrito na problemática da comunicação entre as culturas. E esse discurso de igualdade legitimaria as diferenças de poder que colocariam a revelia um processo global de homogeneização pela qual o ocidente estaria à frente. Contudo, seria um campo complexo e pleno de discussões.

THE REVISION OF INTERPRETATIVE ANTHROPOLOGY

A emergência da antropologia interpretativa é apresentada pelos autores ainda nos anos 60 e foi significativa por mudar o escopo dos estudos das estruturas sociais e ações para o campo simbólico, dos significados e da mentalidade. As outras duas criticas foram ao método etnográfico e ao caráter ahistórico e apolítico do mesmo.

A partir de trabalhos como o de Paul Rabinow a relação com a pesquisa de campo começa a ser questionada. Uma das criticas mostradas pelos autores diz respeito que o contexto que diz respeito a historia e a economia política não estão restrito aos assuntos pesquisados, mas também ao próprio processo de pesquisa. O que se tinha na época era um profundo debate sobre o colonialismo que colocou a critica de Talal Asad bastante proeminente. Esse debate também foi marcado pelo contexto da guerra do Vietnam. Destaca, pois, dois projeto o Project Camelot destinado à América Latina e o Asian Studies Meeting para o sul da Ásia que tinham haver tanto com o processo de insurgência nos golpes de estados ocorridos no contexto de um mundo divido pela guerra fria. Há a menção da influencia dos estudos em economia política nos trabalhos de Eric Wolf, Sidney Mintz e June Nash. Os autores dizem que discutem um possível debate entre esta corrente da economia política e a interpretativa a partir de novas etnografias experimentais.

A principal questão colocada então é a distancia entre o que se coleta na pesquisa de campo e o processo de escrita da etnografia mediado por convenções e artifícios literários. Outro ponto é o papel da etnografia como critica cultural quando retorna e passa a ser lida em casa. Há então uma discussão sobre influencia do liberalismo na questão sobre diferença cultural a partir de pressuposto como a critica ao etnocentrismo e ao racismo, mas ao mesmo tempo reduz as questões dos conflitos como parte inerente de todas as sociedades. Desta perspectiva cultura é uma categoria de resistência e não um conceito que subjaz uma unidade universal.

A autoconsciência do próprio processo de escrita etnográfica e de que a etnografia atinge algo mais além do que um público de especialistas é precisamente isto que caracteriza o modo experimental de etnografias.

THE SPIRIT AND SCOPE OF EXPERIMENTAL ETHNOGRAPHIC WRITTING

Pensar no caso da Lila Abu-Lughod, a relação antropologia e prática militante.  Os autores mencionam a ficcionalidade da obra de Carlos Castaneda como um tipo de experimento etnográfico e sua inovação na escrito e que é este o quadro de se repensar a escrita etnográfica. A definição de uma etnografia experimental estaria na escrita etnográfica que ativa um efeito de inovação. Trata-se de uma reflexão sobre estratégias textuais. Dá o exemplo de Naven do Bateson com uma etnografia experimental. Estas mudanças liberam situações de experimentação. O senso a autoconsciência do caráter experimental da etnografia não significa um experimento em si, no entanto, pode ser uma importante ferramenta para desenvolvimentos da própria teoria.

O perigo do período experimental é certo tipo de etnografia cristalizar-se e torna-se um modelo. Os autores mencionam que é importante a presença do escritor no texto não apenas em nota de rodapé ou em prefácios, mas que seja discutida sua própria experiência em campo. Os períodos experimentais surgem com as crises e segundo os autores este seria um momento de crise.

O atual escopo dos experimentos em etnografia são derivados de revisões da antropologia interpretativista. Então a tarefa dessas experimentações é expandir as fronteiras da escrita etnográfica como gênero narrativo. Outra coisa é o destaque das diferenças culturais e outra a consciência histórica de inserir a etnografia no contexto da economia política. A articulação desses dois espectros leva a critica cultural. Finalizam com: “While sophisticated in representing meaning and symbol system, interpretative approaches can only remain relevant to wider readerships and can only be a convincing response to the perception of compelling global homogenization of cultural diversity IF they can come to terms with the penetration of large-scale political and economic systems that have affected, and even shaped, the cultures of ethnographic subjects almost anywhere in the world.” [4]

Marcar as posições do micro a partir da marcação da diferença cultural oferecida pela antropologia interpretativista, considerar as estratégias textuais como um meio de experimentação e por fim conseguir articular a economia política para dar cabo ao debate. Em suma são essas idéias que os autores defendem.


[1] Marcus and Fischer, 1986, p. 18

[2] Marcus and Fischer, 1986, p.23

[3]Marcus and Fischer, 1986, p.24

[4] Marcus and Fischer, 1986, p.44

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Rabinow, Paul. 1986. “Representations are social facts: modernity and post- modernity in anthropology”. In: James Clifford & George Marcus (Ed.). Writing culture- the poetics and politics of ethnography. Los Angeles: University of California Press, pp. 234-261.

Paul Rabinow. University Of California, Berkeley

Special interests: Cultural anthropology, social thought, modernity, biotechnology, global genomics; France.

Anthropology at UC Berkeley

(fonte: http://anthropology.berkeley.edu/)

Paul rabinow

Rabinow começa seu texto citando a crítica de Rorty a empresa da epistemologia. Chamando atenção para o lugar social e histórico de produção de conhecimento dos epistemologos situados na Alemanha do Séc. XIX. Nesse sentido, a critica de Rorty fundamenta o que estaria como projeto na moderna filosofia: a certeza da busca de fundamentos para a razão. Isto faria com que a epistemologia, como a disciplina responsável pela busca das possibilidades e fundamentos da produção do conhecimento, assumisse o papel protagonista do que Rabinow se refere como um melodrama.

À frente do relativismo proposto por Rorty que, não obstante têm suas implicações, Rabinow propõe no texto uma crítica ancorando-se em pressuposto foucaultianos, além de analisar as conseqüências disto para a escrita e representação sobre o outro, trabalho mais especificamente, antropológico. Segundo Rabinow analisando esta virada no conhecimento de Descartes com relação a Aristóteles: A filosofia moderna surgiu com um sujeito conhecedor, dotado de consciência e de seus conteúdos representacionais, tornou-se o problema central para o pensamento, paradigma de todo saber.[1]

Todo um quadro é pintado em que o cerne do argumento é a produção de saber estaria no estudo sobre as possibilidades do conhecimento e sobre a relação das representações e a realidade, bem como do sujeito conhecedor. Tratar-se-ia da própria noção de ciência. Isto levou a filosofia, e aí o argumento de Rorty, somente no iluminismo como juíza da razão e de todo conhecimento possível como colocada pela obra de Kant. Todavia, essa relação da filosofia como uma teoria do conhecimento foi cimentada ao longo do sec. XX. Contudo, Rabinow chama atenção que ela não conseguia, a despeito de suas pretensões arbitrarem diretamente sobre as produções culturais, tal intento. Diz que, provavelmente, nem Einstein, nem Picasso estiveram muito preocupados com o que Husserl vinha desenvolvendo.  O autor nos diz que embora a filosofia ainda tenha departamentos de epistemologia, uma parte dela seguiu em outra direção, o autor cita os trabalhos de Wittgenstein, Heidegger e Dewey.

A inversão ocasionada segundo Rorty por esses autores era de que não se tratava de melhorar as teorias sobre a mente, sobre o conhecimento e sim jogar de outras formas, já que para esses autores o conhecimento não residiria diretamente nas representações. Conclui sua introdução com um problema que se colocou pelo que Rorty chamou de virada hermenêutica, pelo qual se não caberia mais a filosofia o papel de analisar as produções do conhecimento e sim de estabelecer conversações, para que então a filosofia? Observa-se que a critica parte para a historia da filosofia ocidental e sua lógica no sentido de desacreditá-la do ponto de vista de Rorty.

VERDADE VERSUS VERDADE E FALSIDADE

Colocada a questão da desconstrução da epistemologia por parte de Rorty, Rabinow recorre a Ian Hacking que argumenta que esse movimento a pesar de ter seu valor de separar certeza de verdade não rejeito a hipótese de rejeitar a verdade, a razão ou padrões de julgamentos. O argumento é central é dá subsídio ao modelo arqueológico de Foucault para a questão do saber e genealógico para a questão da moral em um argumento que Rabinow apresenta como simples: “O que é em geral tido como ‘verdade’ depende de um evento histórico anterior – ou seja, a emergência de uma maneira de pensar sobre a verdade e falsidade estabeleceu as condições para se considerar, a priori, se uma proposição é capaz de ser verdadeira ou falsa” [2]

Vou fazer um breve aposto para o caso da minha pesquisa situando a questão. Esses autores estavam preocupados com a desconstrução de um conceito de verdade a partir do conhecimento estabelecido pela filosofia moderna. No meu caso, já trato as proposições da sociologia do ‘contato’ como demolidas. Isso significa que a reprodução das condições, ou seja, das formas discursivas que originaram aquele saber no sentido de relativizá-las torna-se uma empresa desnecessária porque já tomo como dadas. Minha pergunta se orienta de outra forma então.

Afora esse breve aposto o autor chama atenção para um fato sutil que ao criticar a lógica o autor não esta tirando-a o caráter de construtora de verdades, o que na filosofia de Rorty seria exatamente do que se trataria. No entanto, trata-se de ressaltar que essa mesma lógica não esgota as possibilidades. Sendo ela funcionando em um domínio próprio. Isso significa dizer que nem todo o relativismo.

A questão da objetividade, por conseguinte, esta intimamente ligada às condições de possibilidades dessas verdades. Assim uma verdade é dependente de um fato histórico e não se reduz a subjetivismo, por ser social e igualmente histórica.  (Pergunta-se no caso do pensamento mitológico como se daria. Talvez a questão nem seja colocada) O que Foucault chama de regimes de verdades como componentes históricos. A critica se dirige, portanto, ao um regime de verdade universalmente válido popperiano. O autor exemplifica com o caso do desconhecimento da estatística pelos gregos o que não inviabilizaria a produção de verdades, apontado que não se trataria de relativismo, mas também não de imperialismo. (Uma pergunta o que é verdade no sentido que Paul Rabinow está colocando. (Traçar o paralelo com Lévi-Strauss.)

É assim que para a discussão Rabinow chama Foucault, pois segundo o autor para Rorty e Hacking faltam categorias com o ‘poder’ e ‘sociedade’ em suas análises sobre os pressupostos da filosofia e sua história. Falta na resposta de Rorty o como se deu essa transformação na filosofia. Resumindo em uma frase forte que também atinge a filosofia de Habermas que: “O conteúdo da conversação, a maneira de trazer à tona a liberdade de tê-la está, no entanto, além do domínio da filosofia.”

Por isso, conclui Rabinow: ‘A conversação entre indivíduos e culturas é possível dentro de contextos moldados e limitados por relações históricas, culturais, políticas e práticas sociais parcialmente discursivas que as constituem. ’ (Pensar se no caso da proposta da Teoria da História de Rüsen sobre a interculturalidade isto está disposto e como é articulada.) (E o caso de Viveiros de Castro se por hipótese o deslocamento efetivo da etnologia seria dar o estatuto de válida concreto estabelecido pelos próprios nativos.) Na definição de Rabinow o pensamento não é nada mais do que um conjunto de praticas historicamente localizável.

O problema, por fim, de tal afirmação é como esta relação ao retornar para a epistemologia é estabelecida sem cair em dicotomias do tipo infra/superestrutura, mencionando que Rorty não está sozinho no tratamento do problema. (No meu artigo aponto a proposta de Thompson que pode aqui ser mais bem trabalhada).

REPRESENTAÇÕES E SOCIEDADE

  • Rabinow não precisa bem esse conceito de representação e incomoda os ouvidos no sentido de que sempre aproximo as discussões da vertente da História Cultural. Pensar um pouco sobre isso. No entanto, tudo indica que trata-se do pensamento em loco, tal como tratado na epistemologia.

O que caso da representação como antecipado é tratado, mas detidamente por Rabinow ao indicar a representação como um atributo da filosofia moderna focada no sujeito moderno, nas representações e na ordem.  Mas o autor destaca a diferença de ênfase de Rorty e Foucault ao indicar que estava centrado à: Uma gama de disparatadas, mas inter-relacionadas práticas sociais e políticas que constituem o mundo moderno, com suas preocupações distintivas quanto à ordem e o sujeito moderno e à verdade. Ao contrário de Rorty que trata as idéias filosóficas como mudanças gratuitas numa conversação ou na filosofia[3] E um ponto central é a associação que por de trás do conceito de ideologia vem associada à própria epistemologia, pois no funda há um nível de realidade. Nesse sentido as idéias não são epifenomenos do que acontece na sociedade. Mostrando que Foucault rejeita todas essas idéia s de ideologias, como se representações não fossem reais.

O projeto Foucaltinano, por conseguinte, não tinha como pretensão a busca de verdade, mas tratava-se da busca dos efeitos de verdade historicamente dentro do discurso. O texto fica claro. E define-se por algumas estratégias, primeiro a critica de Rorty da epistemologia como um saber historicamente construído por nossa civilização, segundo as implicações do pensamento de Foucault no que tange as relações de poder subsumidas nessa construção de verdade.  Um projeto antropológico descartando a necessidade de se entender uma epistemologia do outro e sim um estudo sobre relação quando e como outros povos começaram reinvidicar a epistemologia para os próprios.  Como discursos universalizantes tornaram-se forças sociais. Deve-se evitar essencializações amerindismo não é um remédio para reformismo.

A ESCRITA DE TEXTO ETNOGRÁFICOS: A FANTASIA DA BIBLIOTECA

Rabinow nesta parte do texto vai precisar o projeto de James Clifford e sua reflexão sobre a escrita etnográfica principalmente em seu On ethnographic authority Conduzindo-o para a entrada em mais um regime de verdade, o regime de verdade pós moderno como afirmado por Rabinow. Vejamos por partes o projeto de Clifford tal como descrito por Rabinow a título ilustrativo.

Caracterização da antropologia interpretativa e a da meta-antropologia constituindo-a como objeto de análise.

DO MODERNISMO AO PÓS-MODERNISMO EM ANTROPOLOGIA

Caracterização da Antropologia intepretativista e da meta-etnografia no pós modernismo a partir de alguns pressupostos básicos apontados por Jamenson. Tal como a relação retro e antihistoricista, a textualidade e o esvaziamento dos referenciais. A esquizofrenia dos significantes que por sua vez, assumem o papel de imagens. O que Rabinow coloca é em sua a pergunta de quando estes textos viram discursos.  Ressalta com exemplo os filmes históricos e utiliza a periodização colocada por Jamenson a titulo heurístico.

Aponta finalmente que, o problema da representação dos outros, (isso faz com que a palavra representação aqui assuma um sentido diferente do esboçado na introdução do texto) Fala que a critica é bem-vinda no que respeita um não retorno a modos de representações não reflexivos, mas que, no entanto estas novas etnografias (seriam a proposta de experiências, neste caso narrativas apontadas por Marcus) como representações não devem ser desligadas das práticas sociais.

COMUNIDADES INTERPRETATIVAS, RELAÇÕES DE PODER E ÉTICA

O diagnostico é dado a partir dos trabalhos de Talal Asad e Edward Said, sobre as implicações da antropologia com o imperialismo e o colonialismo. As dimensões das relações macro-politicas foram demonstradas, mas o que Rabinow destaca são as relações micropoliticas entre o antropólogo e seus outros. E coloca neste escopo um conjunto de questões que merecem sempre serem feitas.

Dirige assim mais uma critica a Clifford, dizendo que problematizam a meta representações de nossa própria cultura (os aspectos lingüísticos e estilísticos). Nas palavras de Rabinow a preocupação central do autor é com os tropos lingüísticos da construção do texto etnográfico e não as relações com o outro. (No caso do estuda da teoria da história é interessante este debate sobre situar as micro-politicas no lugar da própria narrativa e os aspectos literários como o faz Hayden White, colega de James Clifford no Programa de Pos Graduação em History of Consciuness na University Of California). O autor atenta-se a sugestão de Jamenson do caráter histórico do surgimento dessas limitações. A saída disso é uma critica ao pos-modernista que pela critica de Jamenson nos capacita a evitar o erro da nostalgia de universalizar e ontologizar uma situação histórica.

O autor situa o campo político ironizando Clifford como não nos anos 50, de uma antropologia dos impérios e sim um campo político acadêmico, coloca o debata da produção da política cultural suscitada por Bourdieu. O autor sugere como campo de estudo da antropologia da antropologia um estudo sobre as micro-práticas da academia.

“Quando as conversas de corredores sobre as pesquisas de campo tornarem-se discursos, isto é, quando estes domínios privilegiados de alguns poucos tornarem-se objetos científicos, certamente aprenderemos bastante”.[4] Conclui a proposta e fala sobre o debate das feministas e de Strathern com a etnografia experimental afirmando que os tropos estão aí agora seus usos que fazem toda a diferença.

ÉTICA E MODERNIDADE

O autor fecha seu texto no comum da discussão sugerida na introdução acerca do problema da verdade. Assim caracteriza as posições de cada corrente na antropologia. A primeira os Antropólogos Interpretativos. O problema epistemológico que os orientam são as práticas interpretativas, tanto por parte dos antropólogos como por parte dos nativos. Tendo como objetivo ultimo a especificação cientifica da diversidade cultural.

O segundo são os críticos presos aos aspectos formais e aos tropos. O perigo político é a museologização do mundo como apontado por Weber. Pela confusão da experiência e o sentido preso a forma.

O terceiro são os sujeitos políticos que tem uma subjetividade política comunitariamente baseada. O perigo político é reificar as relações apontadas no pólo oposto.

O quarto os intelectuais críticos, cosmopolitas. Fora dos três outros o autor se enquadra nesse espectro que tem como fio condutor o que ele chama de um principio ético. Define o cosmopolitismo como um ethos de macrointerdependencias, com uma consciência perspicaz, muitas vezes imposta sobre as pessoas, das fatalidades e particularidades de lugares, sujeitos, trajetórias históricas e destinos.

Relata sua pesquisa no Marrocos e sua posição de estudar os reformadores e sua preocupação com a sujeição muito mais do que a exploração e a dominação, por fim termina com a dimensão política de Foucault colocando-se diretamente como um tributário.

Estrutura do Artigo.

Caracterização do problema, com um mapeamento dos deslocamentos ocorridos no campo filosófico. A proposta de um projeto via sugestão de Foucault para um campo específico, a própria antropologia. Por fim uma reflexão sobre sua própria pesquisa e o ponto política que se subtraí dela.


[1]Rabinow, Paul. 1986. “Representations are social facts: modernity and post- modernity in anthropology”. In: James Clifford & George Marcus (Ed.). Writing culture- the poetics and politics of ethnography. Los Angeles: University of California Press, p.73 (1999)

[2]Rabinow, 1999, p. 29, grifos do autor.

[3] Rabinow, 1999, p. 78, grifos do autor

[4]Rabinow, 1999, p.95.

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