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Posts Tagged ‘Etnografia’

Clifford, James. 1988. “On ethnographic authority”. In: The predicament of culture- twentieth century ethnography, literature and art. New York: Harvard University Press,514ZKF3EKWL._SS500_-750995

James Clifford começa seu texto com frontispícios de livro de etnógrafos desde o Séc. XVIII até Malinowski no início do século XX para problematizar o lugar do etnógrafo nas descrições que fazem de outros povos. No primeiro caso sobre os ‘selvagens’ ameríndios e, no segundo, com Malinowski sobre os Trobriandeses do leste do pacífico retratando o Kula – ritual de troca central da vida social na melanésia.

Desta feita sobressai uma crítica, esta no sentido reflexivo, do lugar da etnografia moderna em comparação com as outras precedentes, pela qual na primeira a mediação com a experiência etnográfica se dá pelos livros, e na segunda, se destaca o ‘realismo’ e autoridade sobre o relato implícito, construídos a partir de fotos, como no caso do Kula trazendo à escrita etnográfica o que Clifford classifica como: O modo predominante da autoridade do moderno trabalho de campo assinalado por um “You are there… because I was there” (Clifford, 1983, p.22)

O autor no texto propõe uma não exaustiva analise da formação e da ‘quebra’ da autoridade etnográfica nos trabalhos que partem da observação participante, não esgotando todas as tradições dando ênfase apenas a escola francesa, inglesa e americana, de modo que fica os exemplos guiados por tradições anti-positivistas como a oferecida por Wilhelm Dilthey a partir da diferenciação de uma epistemologia de interpretação. Em detrimento ao movimento explicativo preconizado pelas descrições próximas do modelo sugerido pelas ciências naturais que o autor avisa não ser analisada.

O contexto dado para o ‘predicament’ é o de redistribuição do poder colonial ocorrido a partir da década de 50 e os ecos das teorias da cultura radicais dos anos 70 e 80. Em suma, a partir da ascensão de movimentos políticos, um processo de globalização, o discurso antropológico é mobilizado não apenas a partir de uma ideologia ocidental, mas passa a ter que lidar com diferentes autores no debate em um movimento apontado em literatura por Mikhail Bakhtin de ‘heteroglossia’. A ambigüidade de um discurso multivocal coloca para a etnografia o problema da representação do outro e da diversidade cultural, pois a diferença aparece como um efeito de um sincretismo inventado, afirma o autor.

Nas linhas seguintes, analisa-se o trabalho de Edward Said e a questão do orientalismo apontando como foi construído um saber do ocidente sobre o oriente e a crença na positividade deste a despeito de um fundo ‘real’ participativo e que expresse as diferenças do ponto de vista do próprio oriente para subsidiar a crítica que diz que: “These studies suggest that while ethnographic writing cannot entirely, escape the reductionist use of dichotomies and essences, it can at least struggle self-consciously to avoid portraying abstract, a historical ‘others’.” (Clifford, 1983, p.23). Portanto, tem-se a relação intima entre a produção de conhecimento cientifico e a legitimidade da empresa colonial com relação a estes povos configurada por uma relação especifica entre método cientifico e modos de dominação colonial que desconsideram as relações de dominação historicamente construídas.

Outro ponto a ser ressaltado pelo autor na produção das etnografias é a capacidade do método constituir-se com uma experiência e a dificuldade de tradução destas. E surge daí uma critica à crença na possibilidade de tradução ideal como o mito da etnografia moderna. No sentido de não considerar, as contingências, limitações que o próprio campo oferece.
Segundo o autor, os estilos de descrição cultural não estão reduzidos a disciplina antropologia e assumiu diversas formas historicamente modificadas. Mais uma vez ressalta que o entendimento da etnografia como ciência não deve ser desligado das implicações politica-epistemologicas debatidas sobre a representação e escrita sobre os ‘outros’.
A esta parte introdutória do tema o autor precisa a pergunta que se faz e a partir de onde irá procurar suas respostas. Se a etnografia produz interpretações culturais a partir de intensas experiências de pesquisa, como esta experiência é transformada em um texto de autoridade? Como precisamente o encontro das culturas atinge uma relação de poder circunscrita em uma versão adequada ou não de um ‘outro mundo’ produzida por um autor individual?

O autor sugere a hipótese que do começo ao fim o complexo de transformações se dá pela passagem da tradução da experiência na forma textual. Assim uma complexa experiência individual é anunciada por um autor, tal como o caso de Samoa de Margareth Mead, dos Nuer de Evans-Pritchard, We, the tikopia de Raymond Firth entre outros. Assim a investigação se pauta pela discussão da construção histórica do discurso de autoridade inscrito na prática da observação participante ao longo do Sec. XX.

Keywords: observação participante, heteroglossia, ahistoricidade, autoridade, textualidade
Dúvidas: Procurar saber do frontispício do Laufalt e do texto do Michel de Certeau como sugerido na nota de rodapé pelo autor.

Para tanto, o autor estabelece uma cronologia a partir da qual no começo do Séc. XIX, o etnógrafo não gozava do status de melhor intérprete da vida nativa, concorrendo ainda com o relato dos viajantes, especialmente, os missionários e funcionários públicos dos impérios. É importante esse ressalte, porque para o caso brasileiro quando se trata de estudar as representações dos indígenas pela coroa portuguesa; as principais fontes são justamente de missionários como, Padre Antônio Vieira, Padre Anchieta, Manoel da Nóbrega, bem como dos viajantes, neste caso, o próprio Pedro Álvares Cabral e os governantes que aqui a coroa colocou.
A problematização para o caso norte-americano da construção da etnografia se deu a partir dos trabalhos Frank Hamilton Cushing e Margareth Mead. O autor ressalta uma forma particular de autoridade criada (a) uma autoridade cientificamente validada e caudatária de uma experiência única e individual. Apontando, por conseguinte, uma critica de Malinowski com relação a um funcionário do império britânico e sua falta de pericia cientifica para o caso dos Trobriandeses que o mesmo estudava. Disto Clifford conclui que, a partir da metade do sec. XX, o sucesso do trabalho de campo surgiu como uma nova fusão de uma teoria geral e a pesquisa empírica, ou da analise cultural a partir da descrição etnográfica.

Ressalto aqui a constituição de um quadro da formação da autoridade etnográfica a partir do estabelecimento da experiência de campo. Comparam-se trabalhos sobre os trobiendeses a partir de missionários e a própria regra geral que se estabelecerá, segundo o autor, a partir do trabalho de Margareth Mead, Malinowski e Radcliff-Brown. O autor destaca o argumento destes etnógrafos como produção do conhecimento por partes dos seus precursores como sendo sem base de hipóteses cientificas e falta de neutralidade.
Entre os relatos dos viajantes, o autor menciona a forma de pesquisa colocada na Inglaterra no começo do Séc. XX e o papel de Tylor na proposição de maiores critérios na coleta de dados para o estabelecimento da analise antropológica. Contudo, somente com Malinowski que a pesquisa de campo foi realmente estabelecida, sendo o próprio antropólogo que irá a campo coletar os dados. Assim, Clifford menciona a distancia entre os antropólogos como formuladores de grandes teorias da humanidade e o trabalho de descrição-tradução efetuado pela etnografia. “Malinowski gives us the image of the ‘new anthropologist’ – squatting by the campfire; looking, listening, and questioning; recording and interpreting Trobiand life.” (Clifford, 1983, p.28)

Algumas técnicas no texto de Malinowski são analisadas por Clifford como apontadas por Stocking, tais como: utilização de formas narrativas para a construção do texto, voz ativa no ‘presente etnográfico’, dramatizações da participação do autor na vida dos Trobriandeses, técnicas que colocam a experiência do autor como a experiência do leitor como se ele estivesse lá. Estes seriam os critérios de excelência na pesquisa de campo etnográfico, a produção de uma narrativa simultaneamente sobre a vida de um povo e o do trabalho de campo como critério científico que dá validade a observação participante. De modo que se anuncia uma poderosa metodologia cientifica bem como um novo gênero literário a própria etnografia baseada na observação participante.

São seis os pontos ressaltados pelo autor que caracterizam diretamente este estilo: Primeiro o convívio com os nativos, segundo a questão do conhecimento da língua nativa, com uma provocação de Lowie para o argumento de Mead, quando afirma que traduzir o romance de Proust não equivale a ter conhecimento sobre os franceses. Terceiro, no poder da observação, os fatos etnográficos como objetivos passiveis de serem gravados, tais como comportamentos, rituais. Concluindo que depois de Malinowski há predileção à interpretação dos dados feita pelo etnógrafo em detrimento a observação interessada das autoridades. Quarto a capacidade de generalização oferecida pelo conhecimento teórico; para o caso de Rivers o método genealógico; e, no caso de Radcliffe-Brown, o conhecimento das estruturas sociais e que possibilitaria a comparação. Em quinto, o procedimento metodológico funcionalista de partes assumindo a função do todo, como no caso de se estudar um ritual especifico na explicação das instituições econômicas – Kula.
Sexto, o todo representado de maneira sincrônica. Descartando a leitura de grandes processos no tempo que a metodologia inviabilizaria. Malinowski e Radcliff-Brown reprovam a abordagem diacrônica fazendo criticas ao método difusionista da ‘historia conjectural’.

Keywords: ‘presente etnográfico’, observação participante, funcionalismo, metonímia, sincronia, diacronia.
Dica: Observar a constituição de uma metodologia de pesquisa e a crítica ao estabelecimento do critério ‘cientifico’ como possibilidade de verdade única. Meta-etnografia e crítica aos pressupostos da disciplina.

Depois de situar estes seis pontos caracterizando a metodologia da observação participante, o autor passa a analisar o trabalho de Evans Pritchard como uma espécie de milagre devido as circunstancias em que foi feito. E a critica de Evans-Pritchard ao estilo casual e fortuito da coleta de dados de Malinowski no sentido de que os dados só são conectados a teoria e que isto diferiria seu trabalho, com relação ao autor, na medida em que toma este fato conscientemente.
Segundo Clifford, a observação participante é paradoxal, uma relação entre o dentro e o fora, no sentido em que é reformulada em termos hermenêuticos como uma dialética de experiência e da interpretação. De uma tradição que remonta de Wilhelm Dilthey a Max Weber e na antropologia a Clifford Geertz da análise do símbolo ao significado. Aponta que o trabalho de tradução e de interpretação dos dados foi relegado para segundo plano na relação entre a experiência e a interpretação, no caso da observação participante e a consideração da autoridade etnográfica. Pois o trabalho de campo é centrado na experiência e aponta que as condições de produção do texto é quase nunca revelada.

A separação da experiência e da interpretação é central no argumento de Clifford, pois nela residiria a construção da autoridade etnográfica. O autor precisa o conceito de experiência a partir da noção de verstehen de Wilhelm Dilthey e chama atenção para diferença deste no caso da antropologia. Outra opção para o entendimento da experiência como procedimento metodológico é a proposta de conhecimento conjectural proposta por Carlo Ginzburg.
A grande contradição nesse conceito de experiência, no caso da antropologia, segundo Clifford, seria colocada pelo fato de que é esta experiência que garante a autoridade etnográfica: Segundo o autor: “Experience evoques a participatory presence, a sensitive contact with the world to be understood, a rapport with its people, a concreteness of perception. I also suggests a cumulative, deepening knowledge (“ her tem years’ experience of New Guinea’). The senses work together to authorize an ethnographer’s real but ineffable feel or flair for “his” or “her” people. It is worth nothing, however, that this “Word”, when conceived as an experiential creation, is subjective, not dialogical or subjective. The ethnographer accumulates personal knowledge of the Field (the possessive form my people has until recently been familiarity used in anthropological circles, but the phrase in effect signifies “my experience”) Clifford, 1983, p.37)

Keywords: experiência, interpretação, autoridade etnográfica, subjetividade
Dica: Observar a fundamentação de Dilthey com relação à experiência, o método oferecido por Carlo Ginzburg e a relação com a ambigüidade da palavra experiência.

A crítica a esta relação com a experiência se dá, primeiramente, a partir da antropologia interpretativista que parte da pergunta de como o objeto “cultural” é inventado e tratado como significativos além de remontar a metodologia ao caráter hermenêutico da interpretação das culturas como um texto a maneira da filologia. A idéia vem de Paul Ricouer (1973) e depois sistematizada em antropologia por Geertz (1973). Textualização é o pré-requisito para a interpretação ao que Dilthey chama de “expressões fixadas”
O autor passa para uma definição clássica de discurso segundo Beneviste e aponta a critica de Ricoeur que afirma que a interpretação já esta fora do campo comunicativo e pretende uma relação desse discurso com uma realidade exterior. Por isso, quando um discurso se torna um texto ele fica autônomo fazendo com que a interpretação deixe de ser uma interlocução. Não depende das intenções do autor ou da presença do falante. Assim as implicações para a etnografia são ressaltadas como a experiência virando narrativa, significados ocorridos, os dados viram textos e não estão inseridos nos contextos discursivos.

Ainda segundo o autor, a tradução da experiência de pesquisa em corpo textual separado das ocasiões discursivas tem importantes conseqüências para a autoridade etnográfica. Assim o contexto discursivo é esvaziado pelo etnógrafo a partir de uma generalização que assume o ‘ponto de vista nativo’ como no caso: ‘dos nuer’, ‘dos dogon’… A ênfase na construção coerente da narrativa e o processo de produção dessas são decantados para o texto final, assim, diário de campo, a conversa com os informantes, as contradições são suprimidas a fim de dar ao texto a forma de um todo coerente.
Keyboard: texto, cultura, autoridade, dados de campo, produção final, Geertz
Aparece, por fim, a critica ao deslocamento efetuado pela antropologia interpretativa com relação à autoridade etnográfica precedente a partir da reflexão sobre a construção do texto. No entanto, este esgotamento não basta por si só e é criticado a partir de uma politização das interpretações como posição colocada por Talal Asad (1973). A partir de Bakthin toma-se a linguagem deixando de ser uma pratica neutra e sim com acentos e realces.

Apresenta-se o modelo discursivo de escrita etnográfica, que leva em conta o contexto da fala e as situações de interlocução como parte da pesquisa. Com a afirmação de Fravet-Saada (1977) de que o evento de interlocução sempre coloca o etnógrafo em uma posição no campo de relações intersubjetivas. O autor cita também as propostas de Bwyer (1977) e Capranzano (1980) sobre a etnografia como um processo de dialogo entre os interlocutores que ativamente negociam uma visão de mundo sobre a realidade. A aproximação do discurso etnográfico do realismo.

Keywords – politização das interpretações, ‘encontro etnográfico’, texto, discurso,

Duvidas: A etnografia segundo Talal Asad, a proposta do dialogismo, o efeito discursivo e uma nova etnografia.

O autor chama atenção para o fato de que dizer que a etnografia é composta de discursos por diferentes componentes ialogicamente relatados não é o mesmo que dizer que esta forma texto poderia ser um diálogo literal. A proposta de um terceiro participante por Capranzano, um terceiro fictício como mediador do encontro entre dois indivíduos. E Rosaldo colocando a questão do interstício de seu trabalho sobre a verdadeira autoria das notas de campo.

James Clifford

o. . . Alone together
James Clifford

Professor, History of Consciousness Department,
University of California, Santa Cruz
Santa Cruz, CA 95064. USA
jcliff@ucsc.edu

1969-77 Ph.D. Harvard University, History
1967-68 M.A. Stanford University
1965-66 London School of Economics and Political Science
1963-67 A.B. Haverford College
(fonte: http://people.ucsc.edu/~jcliff/contents.html)

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Writting Against Culture” publicado em “Recapturing Anthropology: Working in the Present, ed. Richard Fox. Santa Fe, NM: School of American Research” de Lila Abu-Lughod.

Lila Abu-Lughod é Professora na Columbia University. Seu trabalho publicado em 1986: “Veiled Sentiments: Honor and Poetry in a Bedouin Society. Berkeley: University of California Press.” conferiu-lhe o título de Phd. em Antropologia pela Harvard University. Entrou para a lista dos 21 melhores livros dos estudos conhecidos como “Middle East Studies”, cuja figura de peso é Edward Said com seu clássico Orientalism. Seu campo foi em uma comunidade Beduína no Egito, onde trabalhou com os temas emoção, poesia e ideologia de gênero sob uma perspectiva de crítica ao conceito de cultura. Seus interesses maiores são políticas feministas no mundo Árabe e pós-colonialismo.

Writting against culture estabelece um dialogo direto com Writing Culture (Clifford and Marcus 1986). Relata o papel de grupos tratados sem grande ênfase pelo livro – feministas e “halfies”*. Problematizando um dilema fundamental presente na Antropologia Cultural: a distinção entre o “eu” e o “outro”. Halfies como tratados no texto são pessoas cuja identidade cultural ou nacional é múltipla em virtude de fatores como migração, educação estrangeira ou filiações. Segundo nota da autora este termo foi tomado emprestado de Kirin Narayan. A autora explora como a prática antropológica de algumas feministas e halfies ajudaram a fazer enxergar na dicotomia da distinção do “eu” e “outro”, presente no conceito de cultura, as relações de poder neles presentes. Daí ser necessário escrever contra a “cultura”. O argumento da autora é de que o conceito antropológico de “cultura” tende a reforçar separações (“eu” e “outro”) que, inevitavelmente, desembocam em construções de relações hierárquicas. Desta forma a autora propõe, tomando como tática humanista, uma estratégia textual que visa reduzir os efeitos desta divisão hierárquica através de estratégias, dando enfase a uma em especial, pela qual a autora se refere como “etnografias do particular” – ethnographies of the particular.

O primeiro ponto a ser tomado vem de considerações de Marilyn Strathern (1985, 1987a). Esses pontos referem-se a uma relação de ingratidão entre a antropologia e o feminismo, e isto após pontuar a relação de diferença com o “outro”; ambas constituindo os seus “eus” em relação ao “outro”- tanto a teoria feminista na qual o “outro” é visto como opressor, quanto a antropologia que não o considera como tal. Se nas escolas feministas, o que vale também é “marcar a diferença”, nessa marcação de diferença o “outro” aparecesse como opressor, ao contrário do que acontece na prática antropológica, este “outro” não é visto como um opressor. Continuando as implicações das relações entre o “eu” e “outro”, implícitas no conceito de cultura como tratado pelos antropólogos, Abu-Lughod chama atenção para o fato de que a disciplina antropológica foi construída na oposição ocidente e não-ocidente, e de que isso resulta no seguinte fato: quem é tratado como o “Outro” é o não-ocidente e o ocidente como o “eu”. Assim, quando do encontro etnográfico, essas vozes (ocidente e não-ocidente) são dispostas nestas configurações que implicam relações de dominação por parte deste “eu” sobre o “outro”. Tal relação delineia um caso concreto, diametralmente oposto ao colocado por Marilyn Strathern com relação à posição das feministas e a antropologia, onde o “outro” aparece como opressor.

Há de se somar a este problema, a questão da representação. O exemplo usado pela autora é o da crise da Teoria Feminista. Quem é a mulher? A representação preconizada inicialmente estava ligada à mulher norte-americana, branca, de classe média. Esses movimentos passaram a ser questionados pelo “padrão” colocado do que era ser mulher, por lésbicas, negras, etc. A resolução teórica foi a de deslocar a categoria “mulher”, para “mulheres” e gênero preocupando-se com a não-essencialiazação e naturalização dessas representações como acontecia anteriormente quando os referentes eram fixos. Desta crise a teoria feminista ofereceu para a antropologia dois pontos importantes, segundo a autora: “First, the self is always a construction, never a natural or found entity, even if it has that appearance. Second, the process of creating a self through opposition to an other always entails the violence of repressing or ignoring other forms of difference. (ABU-LUGHOD, p. 140, 1991.). Essas questões perpassam a problematização da noção de cultura com representante da distinção entre o “eu” e o “outro” e as relações de poder aí envolvidas. Logra-se uma importante constatação na prática etnográfica, feministas e Halfies – segundo Abu-Lughod-, estão numa situação de bloqueio da habilidade de assumirem confortavelmente a posição de “eu” na antropologia. Este fato abre o flanco da discussão para três outras questões que a autora considera como crucial: a posição, audiência e o poder inerente nas distinções do “eu” e “outro” antropológicos.
A rigor, a autora sugere a crítica na relação de poder que o antropólogo tem sobre seus informantes, no que diz respeito à construção textual, a idéia é “levar o outro a falar”, fazendo um texto dialógico ou polivocal, o que a autora coloca como uma descolonização em nível textual.

O problema do conceito de cultura

Segundo Abu-Lughod, sendo o conceito de cultura a principal ferramenta de se construir o “outro” , e como um discurso profissional elaborado pelos antropólogos busca elaborar e explicar a diferença cultural, consequentemente a antropologia constrói, produz e mantém esta mesma diferença a partir deste conceito. Isto através das implicações da separação entre os grupos, ainda produzida com um ar auto-evidente. O que se sabe, segundo a autora, é que esta diferença é construída, não é natural, essencializada. Ocorreu com o conceito de cultura na História da Antropologia, o que houve com o conceito de raça e etnia anteriormente, diferenças dadas como naturais, e não como historicamente produzidas nas relações entre os grupos. No entanto, como diz a autora o maior avanço sofrido neste conceito em relação aos precedentes é o fato de ter removido a diferença entre o real e o natural e inato. A cultura é aprendida e pode ser mudada. A grande questão colocada e que assume uma significação fulcral para teoria pós-colonial é o fato de a despeito do intento anti-essenssialista obtido mediante a relativização do conceito, o conceito ainda retém a capacidade de congelar a diferença e, consequentemente, oferece os problemas discutidos anteriormente. O exemplo utilizado pela autora é bastante clarificador da questão: Said mostra em Orientalism como o discurso do Orientalismo foi construído através da distinção entre ocidente e oriente, e como no séc. XIX, a diferença cultural, e não raça, ao dar ênfase em aspectos culturais, tais como religião e língua, foram os principais conceitos utilizados para entender diferenças econômicas, de governo, caráter e tudo o mais. O interessante é pensar que a mesma noção de cultura tomada como essencializada, justifica o aparecimento de Gandhi, o grande líder espiritual da Índia, comparando o materialismo e a violência do ocidente, e os mulçumanos comparando um grande apego na fé em detrimento à imoralidade e corrupção do ocidente. Ambos os fatos, como escritos no texto de Abu-Lughod, tomam os termos essencialistas como os da Escola Orientalista: “the preserve the rigid sense of difference based on culture (1991: 144)”

Outro ponto colocado como problemático no conceito de cultura segundo a autora, é sua relação com a etnografia. Este recaí em uma ênfase no fator coerência. Para colocar o problema Abu-Lughod cita Clifford com a seguinte colocação: ” the discipline of fieldwork-based anthropology, in constituting its authority, constructs ans reconstructs coherent cultural others and interpreting selves (Apud Clifford 1998b:112)” e ” diverse experience and facts are selected, gathered, detached from their original temporal occasions, and given enduring value in a new arrangement (Apud Clifford 1988a:231)”. Como então ficaria a etnografia se se compromete como mostrado nesse emaranhado de problemas referentes à representação discursiva, oriunda de um conceito central para a análise da realidade social de determinados grupos? Utilizando o conceito de cultura como principal ferramenta analítico-explicativa, ou os que queiram interpretativas, com vista a dirimir a problemática hierárquica implícita na produção deste conhecimento sobre o outro? Tendo todos esses problemas em mente, é que a autora vai, a seguir, propor “três maneiras de se escrever contra cultura”.

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