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Posts Tagged ‘História da Historiografia’

René Rémond

RÉMOND, René. Uma História Presente in: RÉMOND, René. Por uma história política: Rio de Janeiro: Ed. UFRJ/Ed. FGV, 1996.

Qual a importância da História Política? Mais especificamente qual a importância que este campo de investigação oferece na contemporaneidade? Quais os principais questionamentos, objetos, métodos da História Política?

O texto de René Rémond reflete sobre o retorno da História Política como um campo profícuo de investigação, levando em consideração os ataques que a mesma sofreu durante o Pós-Guerra por parte da História Social e Econômica, que alegavam a superficialidade da mesma. O autor parte do pressuposto que a História tem como objeto precípuo as mudanças que afetam a sociedade, e que tem por missão propor explicações para elas, não escapando ela própria à mudança. (Rémond, [1988], 1996, p.13) Assim o autor propõe uma história da história dentro de limites, pois esta mesma carrega o rastro das transformações da sociedade para evidenciar a importância da História Política e justificar seu retorno como um campo legítimo do conhecimento historiográfico.

O autor adota uma perspectiva sobre o que significa a emergência de um tema, objeto ou de uma teoria explicativa. Segundo o autor, as descobertas ou modas intelectuais se dão a partir da conjunção de diversos fatores: Tanto sobre o impulso de uma personalidade excepcional, como a partir da irradiação de uma obra mestra ou ainda a convergência destes e outros vários fatores convergentes.  Penso que estas são as formas de manifestação do fenômeno que estariam ligadas, sobretudo, a uma relação dialética entre a própria comunidade científica e a sociedade. Em outras palavras ao que René Rémond se reportou ao fazer a relação entre a história da disciplina e as transformações da sociedade logo acima.

Com efeito, Rémond mostra que a operação de uma moda e uma descoberta implica, muitas vezes, no esquecimento de outro ramo; mesmo salientando que nunca é possível livrar-se efetivamente da herança anterior. Para o caso apresentado pelo autor: ‘Era, pois, provavelmente inevitável que o desenvolvimento da história econômica ou social se fizesse às custas do declínio da história dos fatos políticos, daí em diante lançada num descrédito aparentemente definitivo. (Rémond, [1988], 1996, p.14)

Um fato importante ressaltado pelo autor é que para avaliar as causas, as possibilidades e a significação deste retorno da história política, os autores da coletânea, de qual este texto é o de abertura, utilizaram a perspectiva temporal. Define então um pressuposto epistemológico, ou seja, uma perspectiva para o conhecimento histórico: Trata-se da explicação dessas oscilações dada pela relação entre a realidade observada (Arquivo, passado via testemunho) e o olhar que observa (Teoria, presente via problemáticas).

O que é História Política definida anteriormente, mas que ainda guarda ressonâncias com as pesquisas atuais: É a História do Estado, do poder e das disputas por sua conquista ou conservação, das instituições em que ele se concentrava, das revoluções que o transformavam.

Um dos pontos ressaltados pelo autor para proeminência da História política durante o início da Historiografia moderna, talvez, seria a facilidade de acesso às fontes. Essas informações eram dadas deliberadamente por parte do Estado que deixava vestígios escritos e vasta documentação. Uma das perguntas do historiador, no entanto, é perguntar o por quê? Outra explicação é para o tipo de brilho que o Estado emanava naquela ocasião.

Logo após falar sobre a proeminência que a História Política teve no início da Historiografia, o autor começa a relatar as críticas que o campo passou a sofrer. Estas criticas se situavam, segundo o autor, em uma verdadeira controvérsia sobre a natureza das verdadeiras realidades sociais. Surge assim a perspectiva das longas durações, que deendia que o acontecimento ou os acidentes de conjuntura, ênfase da História Política, não comportavam o âmago da realidade. Daí vem uma questão que atravessa todas as ciências sociais: O individualismo metodológico ou o holismo metodológico. Pois, nas palavras de Rémond:

Seus pressupostos eram que os comportamentos coletivos tinham mais importância para o curso da história que as iniciativas individuais, que os fenômenos registrados numa longa duração eram mais significativos e mais decisivos que os movimentos de fraca amplitude, e que as realidades do trabalho, da produção, das trocas, o estado das técnicas, as mudanças da tecnologia e as relações sociais daí resultantes tinham mais conseqüências, e, portanto, deviam reter maior atenção dos observadores, que os regimes políticos ou as mudanças na identidade dos detentores de um poder cujas decisões, segundo se entendia, só faziam traduzir o estado das forças sociais, ou refletir realidades anteriores às escolhas políticas. (Rémond, (1988), 1996, p.16)

Acompanhado desta crítica, seguiu-se outra com relação à dimensão científica, à perspectiva biográfica e à cronologia dado que o acontecimento tem a ver com a ação dos indivíduos. Além de uma reflexão sobre os verdadeiros atores da história, seus personagens, os governantes ou as multidões e coletivos? Alguns exemplos sobre estas teorias para explicação da sociedade e da ação dos indivíduos, o autor salienta o peso que alguns autores como Marx e Freud tiveram no início do Século XX. Estes autores mostraram que as ações dos indivíduos seriam moldadas por interesses de classe e que a luta de classes seriam o verdadeiro motor da história. Para Freud, colocando em plena luz o papel do inconsciente atribuindo a libido, às pulsões sexuais, grande parte de responsabilidade pelos comportamentos individuais ocultou a ambição e o apetite de poder próprios do político.

René Rémond afirma que as críticas no contexto social tinham a ver com o advento da democracia política e social e do socialismo que voltavam à história para as massas. O autor, então, assim caracteriza as sociedades contemporâneas como relação à política:

Nas sociedades contemporâneas, a política organiza-se em torno do Estado e estrutura-se em função dele: o poder do Estado representa o grau supremo da organização política; é também o principal objeto de competições. Ora, a noção de Estado esta há meio século exposta ao fogo de uma critica que não se contentou como a critica liberal, em denunciar a ameaça que ele podia fazer pesar sobre as liberdades essenciais, mas que lutou contra sua própria realidade, contestando que ela existisse por si mesma. Rompendo com a tradição herdada do direito romano, que erigia o Estado em árbitro soberano acima dos interesses particulares, e contrariando o ensino de teologia, que o tratava como defensor imparcial do bem comum, os críticos modernos proclamam que ele não é nem soberano nem imparcial: é sempre açambarcado e não tem independência efetiva nem existência efetiva. O Estado jamais passa de instrumento da classe dominante; as iniciativas dos poderes públicos, as decisões dos governos são apenas a expressão da relação de forças. Ater-se ao estudo do Estado como se ele encontrasse em si mesmo o seu principio e a sua razão de ser é, portanto, deter-se na aparência das coisas. Em vez de contemplar o reflexo, retomemos à fonte iluminosa: ou seja, vamos de uma vez à raiz das decisões, às estratégias dos grupos de pressão. Eis por que os historiadores e sociólogos se desviaram da observação do Estado. Alain Touraine chegou a dizer com razão que há 30 anos se lançou uma interdição na historiografia e nas ciências sociais ao estudo do Estado. (Rémond, (1988), 1996, p. 20-21)

Destarte, o autor encerra sua apresentação sobre as críticas à História Política para iniciar sua reflexão sobre o (re)surgimento da História Política a partir dos anos 60 ou 70. Perguntando-se se trata de uma moda ou de um aprofundamento do objeto de conhecimento histórico. Afirma o autor que estas transformações são da mesma ordem quando diz respeito à realidade e à percepção que se interelacionam. (Rémond, p. 22) Assim para o retorno do político, demonstra-se que os efeitos da Guerra não são explicados somente por causas econômicas ou momentos de crises quando uma ideologia reservada à, por exemplo, nacionalizar as empresas, como um fenômeno político, tem conseqüências incalculáveis à economia. Outro fato fundamental para o retorno do interesse sobre o político apontado pelo autor foi a ampliação do Estado e, por conseguinte, dos fatos políticos. Deu-se também a crítica da ação política como simples decalque de interesses profissionais, salientando as causas múltiplas que envolvem o fenômeno.

Outros aspectos abordados pelo autor foi o aumento do papel da opinião pública e contestando uma teoria da despolitização, justificada pelo desenvolvimento do jornalismo político próximo da ciência política e o aparecimento do gênero de livro político. Contudo, o autor também menciona o problema do excesso, como o perigo de agora tudo passar a ser político e o ‘Maio de 1968’ como um grande responsável pela recondução do político para o primeiro plano da reflexão.

Dada conjuntura externa René Rémond concentra-se então na tentativa de compreender os fatores internos. Destaca grandes nomes da historiografia política francesa como Charles Seignobos, André Siegfried: O primeiro com suas contribuições nos estudos sobre a diversidade dos ‘temperamentos políticos’ e a antiguidade de seu enraizamento; e, para o segundo, a ‘geografia eleitoral’. Mais contemporaneamente o trabalho de Jean-Jacques Chevallier com e sua abordagem sobre o renascimento das idéias políticas, das instituições, correntes de pensamento e personalidades.

Ainda sobre relativo à historiografia o autor reflete sobre a relação do político como campo de investigação e as contribuições de outras disciplinas.  Um dos exemplos foi a aproximação com a matemática por parte dos historiadores para o processamento de dados estatísticos e a historia quatitativa. Com relação à ciência política um dos temas importantes tratados por ela e que os historiadores se atentaram foi a abstenção, o oposto a participação política. Relativo as instituições freancesas responsáveis por este renascimento do político estariam a VI seção da Ècole Pratique des Hautes Études em Sciences Sociales e A Fondation Nationale des Sciences Politiques.

O político como um importante fenômeno da realidade social estaria atestado por sua generalidade, mesmo considerando o alistamento Militar, o pagamento de impostos, a originalidade da prática eleitoral é ainda o que continua inteiramente livre. (Atentar-se que este caso é para a História Francesa, levando em consideração que no Brasil o voto é obrigatório como previsto pela Constituição de 1988)

Em resposta ao político como um fenômeno breve o autor estabelece uma tipologia com relação a uma temporalidade próprio dos objetos de estudo da História Política como, por exemplo, os dias, para os Golpes de Estado, dias de revolução, decisões ministeriais como a curta duração, uma duração média que teria como exemplo a história dos partidos e, por fim a longa duração com o estudo sobre as ideologias políticas. A definição única segundo o autor é derivada de uma definição estreita do político, se ele não estiver vinculado a outras dimensões da vida coletiva e dos outros aspectos individuais.

O autor concluiu que: ‘Abraçando os grandes números, trabalhando na duração, apoderando-se dos fenômenos mais globais, procurando nas profundezas, da memória coletiva, ou do insconscirnte, as raízes das convicções e as origens dos comportamentos políticos, a história política descreveu uma revolução completa. Como acreditar que seu renascimento possa ser apenas um veranico de maio? (Rémond, (1988), 1996, p. 36)

Conceitos políticos: Política, Estado, poder, democracia, socialismo, massas, governantes, governados, sociedade, ação política, opinião pública, sistemas partidários, abstenção, participação política, fatos políticos, processo eleitoral, comportamento político.

Vertentes da História política: história conceitual do político; culturas políticas; trajetórias e biografias; história das idéias políticas; linguagens políticas; história das palavras e dos conceitos; representações e imaginário político.

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