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Posts Tagged ‘História das idéias políticas’

Michel Winock Institute d'etudes politiques de Paris

WINOCK, Michel. As idéias políticas in: RÉMOND, René. Por uma história política: Rio de Janeiro: Ed. UFRJ/Ed. FGV, 1996.

Qual o papel das idéias no campo político dos Estados contemporâneos? Qual o lugar das idéias na sociedade? Existe um conjunto de idéias que seja o verdadeiro? Idéias são instrumentos de poder? As idéias devem estar a serviço de uma unidade ou uma pluralidade? Quando surgiu a história da idéias políticas? Surgiu para quê? Quais as obras estudadas, por que estas? Quais os tipos de abordagem? O que é uma história de pináculos? O que é uma história pelos ‘faróis’? Existe uma nova abordagem na História das idéias políticas? O que é uma história das mentalidades políticas? Qual a caracterização singular do trabalho do historiador diante da expansão do campo da história das idéias políticas?

A primeira questão trabalhada por Winock diz respeito às idéias para a análise do campo político. Situa que historicamente se constituíram duas visões excludentes entre sim. A primeira que remonta ao século das luzes em que as idéias desempenhariam um papel fundamental na direção do progresso. E uma segunda crítica que derivaria dos escritos de Marx em a Ideologia Alemã, para que as idéias não passariam de reflexo dos interesses de classe.  Segundo Winock citando Marx: ‘ Era preciso, ao contrário, partir dos homens ‘ na sua atividade real’: ‘Não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência. E Marx opunha a análise científica da realidade (a teoria) à ideologia, ou seja, a um pensamento que se engana a si próprio quanto à sua autonomia (‘a falsa consciência’, e que não passa na realidade de um sistema de justificação das relações sociais em benefício da classe dominante.[1] Estas oposições se estabeleceram no que ficou conhecido entre o idealismo filosófico e o materialismo dialético que trariam a problemática do lugar das idéias na sociedade.

Situando no contexto francês o autor mostra como o ideal de pluralismo com relação às idéias saiu vitorioso a projetos que definiam uma única visão de mundo comum. Segundo o autor: ‘No feudo marxista, a função da ideologia foi reavaliada na práxis revolucionária e na instauração de um Estado socialista. Lênin reatribuiu assim à ideologia uma virtude positiva: ela é instrumento de combate; ela se torna um instrumento de poder. (Winock, 1996, p.272)

Deste processo se instituiu uma visão de que a ‘unidade de vontade’ deve decorrer do pensamento único, e daí viria a critica ao marxismo-leninismo que aceita o papel das idéias, mas para transformá-las em propaganda a serviço de uma causa.  Isto resulta, segundo Winock, certo desdém ao pluralismo das idéias e tendeu a tornar insignificante a produção intelectual de Estados Liberais além de uma democratização das idéias que tende a nivelá-las por baixo, no sentido de atingir uma uniformidade do pensamento.

O autor procede então a uma breve história da história das idéias políticas na França citando o nome de autores como Jean-Jacques Chevallier, Albert Thibaudet, Daniel Mornet e André Lichtenberger. Para afirmar que foi André Siegfried que a transformou em uma disciplina acadêmica. O fato importante destacado pelo autor é que o estatuto de obras sobre política era atrelado a atributos literários e que houve uma transformação institucional que foi responsável por formalizar o estudo de obras sobre políticas ou de idéias políticas como o objetivo de formar uma ‘cultura política’ para estudantes de ciência políticas no caso citado da ‘ Sciences Po’.

O autor não chega a formular que os livros sobre idéias políticas eram estudados de perspectiva histórica para orientar a teoria política contemporânea, mas tal fato é implícito ao mostrar como que para Jean Jacques Chevallier era importante o estudo de grandes obras, e estas grandes obras são justamente estas que tem algum sentido para aquele período, cita fora desta relação o caso do livro de Cournot.[2]

Segundo Winock esta história das idéias tal como apresentada por Chevalier estava ligada antes de tudo a uma organização que marcava uma finalidade pedagógica: Segundo o autor: ‘Chevallier estava menos preocupado em estudar a genealogia das grandes idéias políticas, sua difusão e sua função nas diversas sociedades onde nasciam que em oferecer um capital cultural a jovens que se destinavam a servir ao Estado ou a assumir funções de direção.[3] (Winock, 1996, p.275)

Penso eu que esta primeira abordagem é o que poderíamos entender como o historicismo na história das idéias. Um movimento de recuperação das idéias em seu contexto passado com objetivo deliberado de ênfase deste no lugar do segundo movimento que se preocupa mais do que com a ‘recuperação’ das idéias tal como concebidas se preocupa mais com o que estas idéias trazem para a interpretação do presente ou de uma determinada teoria.

Este último movimento diz respeito a cientistas como os economistas, politologos, educadores ou qualquer outra área do saber que constitui a produção de teorias a partir de uma explicação histórica. Entendo por explicação histórica o recurso do passado para anunciar proposições. O movimento da História das Idéias é outro embora seja encarnado neste próprio movimento. Mas trata-se de uma ênfase na constituição, na formação das idéias em um determinado contexto. Sendo este o objetivo final.

Segundo Winock com relação à história das idéias políticas, o que ele chama desta História de pináculos – historia das grandes obras – possui pelo menos três tipos de abordagens, a primeira ele descreve como neste campo de formação de uma cultura política para análises da teoria política em que ‘ o historiador muitas vezes cede lugar ao filosofo ou ensaísta, mais afeito a esse debate intelectual face a face, do qual extrai uma visão pessoal e com freqüência atualizada dos problemas políticos.[4] (Winock, 1996, p.275)

A outra abordagem apresentada por Winock são as biografias intelectuais que segundo o autor contribuíram de forma indispensável para uma leitura atualizada de clássicos, cita, por conseguinte, exemplo de obras neste estilo na historiografia francesa.

A última abordagem citada pelo autor diz respeito à história das correntes de pensamento, elegendo temas, no lugar de um pensador, uma corrente de pensamento como o liberalismo, o conservadorismo, o comunismo entre outros. A estes modelos de histórias das idéias políticas o autor chama de história pelos ‘faróis’. Uma preocupação mais marcada em recolocar a análise das obras no contexto móvel de sua época e de verificar os efeitos destes sobre as cenas políticas’ (Winock, p. 277) É o que eu me referi como o sentido da história das idéias ligadas ao historicismo, onde poderiam colocar-se a abordagem da escola anglo-saxã dos estudos de Quentin Skinner e Pocock. A grande questão desta abordagem são seus limites de não conseguir assimilar que o historiador nunca é estranho à história que vive nesse sentido sempre há interpretação. Esta questão a qual Winock menciona está também em Gadamer e a questão da consciência histórica.

Contudo, em outro momento analisei esta questão dizendo que entre a abordagem historicista de Skinner, a história pelos ‘faróis’ como se referiu Winock e uma história mais presentista aquela que contribui para a teoria, eu entendo que a diferença são os objetivos, o que se busca deliberadamente. A primeira como já afirmou Skinner fornece uma cultura histórica para se pensar a própria teoria. A segunda se aproxima mais da teoria política quando lê o passado para objetivar, exemplificar uma tese presente.

O autor prossegue então para uma apresentação de novos temas na história das idéias políticas que não seja a história das grandes idéias, mas começa a mostrar outras ênfases como as expressões corriqueiras, as idéias prontas, os preconceitos, as crenças coletivas, os mitos, as palavras de ordem, os slogans. O que aproximaria a historia das idéias políticas com a história das opiniões políticas e a história da propaganda. (Winock, 1996, 278)

É neste eixo que se define uma renovação do corpus, estudando as idéias políticas em todos os setores da sociedade não somente nas grandes obras. Exemplifica assim alguns trabalhos como o de Jean Touchard que sucedera Jean-Jacques Chevallier no IEP. Esta renovação também teve por objetivo o estudo de autores que caíram no esquecimento além de estudas a mediação das idéias a partir dos mediadores e não só os ‘pensadores’. Segundo o autor: ‘ Dedicar-se às mediações e aos mediadores, tanto quanto aos ‘pensadores, resulta da necessidade metodológica, quando o historiador quer avaliar o trabalho das idéias na sociedade tanto quanto o reflexo dos problemas sociais no momento da expressão jornalística. O repertorio das dissertações de mestrado e de DEA, a lista dos temas de teses, defendidas ou não, mostram esse deslocamento da curiosidade do qualitativo para o quantitativo, dos grandes autores para os fabricantes do pensamento cotidiano semanal. (…) O historiador, por seu lado, não pode se deixar dissuadir por juízos de valor: o homem comum lhe interessa tanto quanto a pequena elite dos leitores de obras filosóficas’. (Winock, p. 282).

O grande diagnostico do autor esta em fixar a mudança da história das idéias políticas distanciado-se de uma historia da literatura ou uma historia da filosofia para se aproximar de uma história das mentalidades políticas, das culturas políticas, ou seja, tentar entender a circulação e a produção das idéias políticas. Fazendo uma associam ao que Foucault se referiu a uma filosofia espontânea daqueles que não filosofam.

Por fim, termina seu ensaio a propor algumas curiosidades e outras abordagens para a história das idéias. A última frase do autor também destaca o problema de uma análise historicista e ou não. Quando o autor afirma que: ‘ A finalidade da história das idéias políticas não é mais oferecer elementos quase intemporais de uma ‘cultura política’, e sim conhecer melhor os sistemas de representações das sociedades, o estudo destes sistemas tornou-se inseparável da dos aparelhos de produção e de mediação: não é apenas a idéia que age, é também o lugar de onde ela vem’. (Winock, 1996, p.285) percebe-se, pois, que a primeira fazia referencia a uma teoria política e a segunda está mais preocupada com a compreensão das lógicas de circulação das idéias políticas, de como as sociedades forjam sua ‘cultura política’. Nesse sentido ela quase que se fixa em uma sociologia das idéias políticas a meu ver. Cita então as idéias de Bourdieu a partir da noção das estratégias individuais.

Com um diagnostico da pluralidade de perspectiva Winock finaliza seu ensaio afirmando que o historiador deve-se utilizar de todas essas variantes, mas não deve deixar de ser o elemento de síntese ao inserir os resultados em uma perspectiva de longa duração. Acaba que defende a abordagem historicista ao mencionar que o historiador deve ‘estabelecer as continuidades e os inícios de mudança, inscrever os termos no universo material das coisas, a recuperação dos antecedentes, das filiações, das fusões, toda essa hidrologia das correntes de pensamento continua sendo de sua competência’. (Winock, 1996, p.290) ‘Definindo que a finalidade da História Política é dar novamente sentido ao passado e tornar, por isso mesmo, o presente mais inteligível, para a qual a história das idéias traz, pelo ajuste de seus instrumentos e a multiplicação de suas matérias, uma contribuição indispensável’.

Conclui-se, portanto, que a despeito das novidades no campo da história das idéias políticas o autor defende que o papel do historiador está assegurado no movimento de captar as mudanças e o de sempre colocar a perspectiva da longa duração.

Algumas outras referências

BRANDÃO, Gildo M. “Linhagens do Pensamento Político Brasileiro”, in. Dados – Revista de Ciências Sociais. Rio de Janeiro, Vol. 48, nº2, 2005, pp: 231-269.

FREDERICO, Celso. A sociologia da literatura de Lucien Goldmann. 19 (54): 429-46.

JASMIN, Marcelo Gantus. História dos conceitos e teoria política e social: referências preliminares. Rev. bras. Ci. Soc. [online]. 2005, vol.20, n.57, pp. 27-38.

KOSELLECK, Reinhart. Futuro Passado: contribuição à semântica dos tempos

históricos. Rio de Janeiro:Contraponto, Ed. PUC-Rio, 2006. 366p.

POCOCK, J. G. A. (2003), Linguagens do ideário político. Tradução de Fábio Fernandez. São Paulo, Edusp.

SKINNER, Quentin. (1969), “Meaning and understanding in the history of ideas”. History and Theory, 8 (1): 3-53.


[1] Conforme mostrou Winock as obras políticas eram tomadas como próximas da literatura. Assim para o estudo de idéias políticas alguns usam as propostas metodológicas para análise das idéias a partir de uma história das visões de mundo, tal como propôs o marxista estruturalista-genético Lucien Goldman. Para este autor dever-se-ia fazer uma história da cultura, ou seja, das ideologias, a fim de traduzir a visão de mundo dos autores que com correlação ao materialismo dialético expressaria em uma obra prima o ‘máximo de consciência possível’ de um grupo social. Celso Frederico afirma que: ‘O objetivo de uma sociologia da literatura é, portanto, a busca das homologias, o estudo das estruturas significativas presentes nos grupos sociais – o substrato social que confere unidade à obra literária. O projeto de Goldmann procura transpor para a literatura dois movimentos: o estudo da compreensão, isto é, da estrutura significativa imanente da obra e a explicação, a “inserção dessa estrutura, enquanto elemento constitutivo e funcional, numa estrutura imediatamente englobante [para] tornar inteligível a gênese da obra que se estuda”

[2] A História das idéias políticas de matriz anglo-saxã e de Koselleck privilegiam uma relação das idéias com o social a partir da análise do tempo de transformação dos conceitos para captar as mudanças sociais, partindo de alguns pressupostos como este que exemplifica a demora de assimilação das mudanças do mundo. A outra perspectiva, principalmente, a de Skinner leva em conta a reconstituição do passado a partir do estudo dos discursos como atos de fala, ou seja, a idéias expressam um realidade que só pode ser concebida se estudas em seu contexto, levando a possibilidade de entendimento de seus contextos de enunciação que dariam a perspectiva de seus reais sentidos.

[3] A História do pináculo apresentada por Winock para o caso francês e a formação de uma cultura política lembra a proposta de Brandão para o estudo do pensamento social brasileiro, a partir de abordagens similares a apresentada por Winock no sentido de formação de fortuna crítica a guisa de se pensar a teoria política contemporânea.

[4] Este tipo de pesquisa constituiu o que ficou caracterizado tanto para teoria política como para a teoria sociológica ao estudo a partir da categoria de nação a um campo de investigação conhecido como pensamento social brasileiro.  Recentemente Brandão, propôs uma perspectiva de como a abordagem histórica auxiliaria a teoria política em seu ‘linhagens do pensamento político brasileiro’, onde o autor faz um grande panorama das principais matrizes de idéias políticas que constituíram o pensamento político brasileiro no século passado a partir da leitura de clássicos nacionais.

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SIRINELLI, Jean-François. Os intelectuais in: RÉMOND, René. Por uma história política: Rio de Janeiro: Ed. UFRJ/Ed. FGV, 1996.

Na História política qual o papel desempenhado pelos intelectuais? Quem são os intelectuais? Quando surgiu o interesse pelo estudo do comportamento político dos intelectuais? Quais as abordagens que foram feitas sobre o assunto em Historiografia e em Ciência Política? Quais as novas propostas e desafios de pesquisa?

É com estas perguntas que o texto de Sirinelli se ocupará dentro do campo da História Política. Um importante destaque sobre o tema, dado pelo autor, é o espaço que os intelectuais ocuparam na política francesa durante o século XX. Nesse sentido, o autor leva em consideração que a coletânea da qual faz parte esta conferência,  tem como escopo de pesquisa a Política de perspectiva histórica, especialmente na França, país de origem de seus organizadores.

Sirinelli destaca então uma das primeiras iniciativas contemporâneas responsável pelo reaparecimento do tema, foi ela: uma mesa-redonda da Association Française de Science Politique, com o tema ‘Os intelectuais na sociedade francesa contemporânea’ e que resultou em alguns artigos publicados na RFSP – Revue Française de Science Politique. Nesta revista publicaram historiadores como Louis Bodin, Jean Touchard e René Rémond que destacavam a importância do estudo dos intelectuais na política. René Rémond, particularmente, salientando a necessidade de que este tema deveria ter por si só um campo de estudo.

O autor analisa o descompasso dos Estudos Históricos com relação à sociologia e a ciência política, no que diz respeito a esta temática, considerando os anos 60 e a crise na Argélia. Neste período intelectuais franceses participaram abertamente da questão. Outro dado contextual ressaltado pelo autor é o retorno da História Política que tinha ficado em campo marginal até os anos 60, mas que com o surgimento do interesse pelas duas Grandes Guerras, retornou à cena.

Mencionando os estudos de Jacques Le Goff sobre os intelectuais na Idade Média; de Bernard Guenée e as histórias modernas de Robert Mandrou; Daniel Guenée e Robert Darnton; o autor ressalta os recortes destas pesquisas no campo da História Social e Cultural, o que não satisfazia plenamente as lacunas colocadas ao tema pela História Política. Sirinelli então conclui que as causas dos intelectuais terem deixado de ser motivo de pesquisas, teria sido muito mais por uma questão de ausência de olhar do que de descrédito, mas que recentemente tem se constituído quase como um campo autônomo nos cruzamentos entre a História Cultural, a História Social e a História Política.

Outro aspecto para o qual o autor chama atenção, é o fato de que vários outros atores políticos já foram estudados pela historiografia, mas isto não se confirma no caso dos intelectuais. A pergunta que se segue é sobre os intelectuais como um sub-objeto da História. Os problemas com relação a esta posição são referendados pelo autor a partir da afirmação da subalternidade da História Política, da História do Tempo Presente no campo da História; e, nesse sentido, o tema atravessa os dois campos simultaneamente, além do que envolve o próprio pesquisador, na medida em que ele também é um intelectual. Com relação ao ostracismo da História Política, os argumentos são parecidos com o levantamento da coletânea, mas a respeito da História do Tempo Presente uma causa interessante é levantada pelo autor, trata-se de:

Daí afirmar que ele corre o risco de se queimar no fogo mal extinto dos grandes debates das últimas décadas faltava apenas um passo, dado com facilidade por aqueles que negavam ao historiador o direito de chegar até as bordas do último meio século, vasto continente deixado em repouso como um alqueive ou abandonado aos ‘jornalistas’ da ‘história imediata’. Para aqueles que o desprezavam, o historiador do contemporâneo, obrigatoriamente ligado por múltiplas fibras ao ambiente que o cercava, só podia entregar-se a jogos de memória, logo transformados em jogos de espelhos deformantes (Sirinelli, 1996, p. 234)

O destaque para a memorialística, como campo de investigação para o imediato, no caso da afirmação de Sirinelli, deu-se pela correspondência das ações do presente orientarem uma interpretação do passado e, doravante, tornar-se bastante interessante como eixo de investigação.

Dando prosseguimento a estas causas da marginalização dos intelectuais como objeto de pesquisa na História Política, Sirinelli ainda levanta outras causas como: o fato dos intelectuais se constituírem como um grupo social pequeno; à acusação de impressionismo por pertencerem ao mesmo campo que investigam; ao fato do interesse da Historiografia pelas ‘massas’, pela qual os intelectuais não participavam primeiro por ser um grupo restrito e depois por pertencer às ‘elites’.

Outros motivos além destes anteriormente levantados, apontados pelo autor, seriam a ação política dos intelectuais inscritas na curta duração, onde o mote das investigações na Historiografia canônica centrava-se nas médias e longas durações e, em segundo lugar, a questão do ‘poder’; através da pergunta sobre se realmente estes teriam influído nos acontecimentos.

Segundo o autor, esta crítica baseia-se em um mal-entendido entre a história dos intelectuais e a história das idéias políticas, assim como da história da cultura política: Sobre a História das Idéias políticas, seus estudos teriam se acantonados mais no estudo dos grandes compositores do que na história das orquestras e da recepção do público. As perguntas da História dos Intelectuais, por sua vez, são de como as idéias vem a estes intelectuais, como aparecem em determinada data, porque alguns permanecem na penumbra e outros não?

Há uma afirmação fundamental no texto de Sirinelli sobre os motivos dos intelectuais tendo ocupado um campo marginal na História. Trata-se de sustentar que a cultura política é apenas em parte elaborada pelo meio intelectual, com a qual, raras vezes ele está de acordo, afirma o autor (Sirinelli, 1996, p.237). (Nesse sentido uma tradição política compõe um grupo maior que é a cultura política, no meu caso, a cultura política democrática da Nova República). Pode-se pensar a relação entre História Intelectual e História das Culturas Políticas subordinando a primeira à última. O autor ressalta em nota, contudo, que  os domínios destas disciplinas não são estranhos entre si.

A próxima questão tratada pelo autor é sobre o renascimento do tema dos intelectuais na História Política. Segundo o autor, foi na segunda metade da década de 1970 que o tema ressurgiu. Ressurgiu tendo entre suas causas a própria história dos intelectuais e outras como o status da história política e da história recente, como anteriormente já destacado. O autor parece então associar a História Política à abordagem quantitativa, pois situa o interesse dos intelectuais a partir de perspectivas como a abordagem prosopográfica dos itinerários, considerando então o fim de uma das objeções para o estudo deste grupo, tal como por ser de um grupo reduzido. Com relação à aproximação da média duração, o que legitimaria os novos estudos seria a perspectiva de fazer uma história cíclica do engajamento dos intelectuais relativos a esta temporalidade.

Com relação à habilitação da História do tempo presente o autor afirma:

De fato chegou-se a um acordo: Clio está deontologicamente habilitada e metodologicamente equipada para medir o pulso da história de nosso tempo. Se uma história dinâmica é reconhecida pelas pistas que descortina, pelas perguntas que faz e pelas respostas que, aos poucos, consegue dar, é forçoso observar que essa história do fim do milênio forjou conceitos, verificou suas hipóteses e trouxe contribuições. (Sirinelli, 1996, p.238)

Do ponto de vista da relação do pesquisador com o objeto, Sirinelli alerta para pontos como a questão da simpatia. Argumenta que ela percorre o ofício, cabe ao pesquisador assumi-la tanto do ponto de vista positivo como negativo evidenciando-a com o objetivo de avaliá-la. O fato que marcou o anátema da História Política ao postulado Braudeliano sobre a espessura do social como matéria do Historiador em detrimento aos acontecimentos, foi superado tendo como um dos fatos o estudo dos intelectuais na guerra da Argélia ou esclarecendo as gerações de intelectuais que se sucederam na França. (Este tipo de abordagem foi profundamente marcado no Brasil, na área de Sociologia da Cultura, uma das referencias para caracterizar o período dos anos 60, de um engajamento político social dos intelectuais e sua relação com o nacionalismo é o trabalho de Marcelo Ridenti)

Assim o interesse  virou-se para o próprio aumento do grupo durante o século XX e a necessidade de responder a pergunta sobre quem foi determinado intelectual no meio dos ‘ismos’ que apareciam e seus seguidores. O autor sempre menciona a figura de Sartre como um grande líder dos intelectuais. Após responder sobre a real dimensão da ação dos intelectuais na sociedade e estabelecida esta pergunta, o autor parte para evidenciar em termos de processo o aparecimento dos objetivos e métodos desta disciplina.

Uma grande questão para a fundamentação dos objetivos e métodos da disciplina foi a pergunta quem eram os intelectuais? ‘ Um professor primário é um intelectual’? É um oficial? A partir de que posto? É um padre? E alguém que vive de renda? As perguntas partem da narração do autor sobre um ato ocorrido na Maison des Syndicats de Bourges em junho de 1934, sobre a criação do Comitê de Ação Antifacista e de Vigilância. Este problema que o autor caracterizará a partir da ‘compreensão’ e a ‘extensão’ do termo intelectual e que geraria outro problema: de que a resposta ao primeiro termo geralmente é endógena, formulada pelos próprios intelectuais.

Levando em conta os percalços de se estabelecer um critério para definição da palavra e considerando como esta sofreu mutações na sociedade francesa, o autor propõe uma definição:

Por esta última razão, é preciso, a nosso ver, defender uma definição de geometria variável, mas baseada em invariantes. Estas podem desembocar em duas acepções do intelectual, uma ampla e sócio-cultural, englobando os criadores e ‘mediadores’ culturais, a outra mais restrita, baseada na noção de engajamento. No primeiro caso estão abrangidos tanto o jornalista como o escritor, o professor secundário como o erudito. Nos degraus que levam a esse primeiro conjunto postam-se uma parte dos estudantes, criadores ou ‘mediadores culturais’ em potencial, e ainda outras categorias de ‘receptores’ em potencial, e ainda outras categorias de ‘receptores de cultura’. (…) Estes últimos podem ser reunidos em torno de uma segunda definição, mais estreita e baseada na noção de engajamento na vida da cidade como ator – mas segundo modalidades diferentes, como por exemplo, a assinatura de manifestos.  (Sirinelli, 1996, pp.242-243)

O autor conclui que o debate entre as duas definições é na verdade um falso problema, já que os dois elementos são de natureza sociocultural. E neste sentido, o historiador do político deve partir da primeira definição; segundo o autor, em determinados momentos fechar a lente no sentido fotográfico do termo. Essas definições são, contudo, balizadas pelas representações sociais do intelectual que segundo o autor, na sociedade francesa: vão da imagem religiosa dos intelectuais paladinos das grandes causas contemporâneas, até a leitura antiintelectualista de um século XX francês desestabilizado pela ação perniciosa dos intelectuais, fermentos da dissolução nacional e agentes da perversão social. (Sirinelli, 1996, p.244)

Discutido o problema das definições o autor passa a analisar as dificuldades e objeções ao estudo dos intelectuais como atores políticos. (É essa a perspectiva que relaciona suas idéias com a História Política)A categoria como mutável é agravada pela alta de um partido político dos intelectuais. O autor menciona alguns na História francesa como o PSU, o RDR como exemplos de estrutura partidária da intelligentsia. Outra objeção é abundância de documentos tendo em vista que todos intelectuais escrevem muito. Caracterizando assim a pesquisa sobre a História Política dos intelectuais passando obrigatoriamente pela pesquisa, longa e ingrata, e pela exegese de textos, e particularmente de textos impressos. (Sirinelli, 1996, p. 245)

As abordagens são apresentadas pelo autor a partir de conceitos como o de itinerário, geração e sociabilidade. Para o de itinerário objetiva-se desenhar mapas dos grandes eixos de engajamento dos intelectuais, passando pelo gênero biográfico, tanto como pela perspectiva de trajetórias cruzadas, como no caso de Sartre-Aron ou Sartre-Camus. Avaliando o que o autor se refere como os ‘despertadores’ de idéias e suas influências, possibilitada a partir de uma abordagem diacrônica. Desta maneira procura-se analisar a procedência dos intelectuais a partir de seu lugar de formação, alertando, o autor, para que o estudo de itinerários só pode ser feito a partir de interpretação levando em conta os problemas de reconstituição.

O autor faz um comentário das pesquisas de Pierre Bourdieu sobre a posição social das opiniões e dos gostos, mas alerta que as pesquisas não devem estar restritas a análise microsocial, respondendo assim, a contento, sobre o funcionamento do campo intelectual ou as condições de êxito de um determinado intelectual em seu campo. Mesmo que este tipo de análise tenha contribuído, a partir do conceito de ‘estratégias’, para articular as escolhas dos indivíduos não o colocando como mera reprodução das instituições. Ressaltando o papel dos acasos e das contingências e chamando atenção que igualmente determinantes são as sensibilidades ideológicas e cultural que tendem a transcender apenas o campo em questão.

Analisada a questão do escopo de pesquisa oferecido pelos itinerários, o autor passa a analisar a questão da sociabilidade. Esta se constitui em relação aos intelectuais no seio do ‘pequeno mundo estreito’ que dividem em torno da redação de uma revista ou do conselho editorial de uma editora, ressaltando a importância do termo ‘redes’ para captar tal fenômeno. Lá se definem também as posições antagônicas e pela análise destas, sugere o autor, é possível captar o movimento de idéias. O outro meio que o autor designa como estruturas de sociabilidade são os Manifestos. Um importante sensor para captar as opiniões em História Política.

O autor ainda indica que as estruturas de sociabilidade variam no tempo como, por exemplo, a presença dos ‘salões’ na fronteira dos dois séculos. Indicando como meio de análise as solidariedades de origem, de idade, de estudos, bem como levando em consideração os fatores de atração e amizade, a hostilidade, a ruptura, a briga e o rancor. Além deste sentido afetivo as redes também podem ser entendidas a partir de como se interpenetram estes fatores com o ideológico. Análise alguns casos de exemplo como Althusser e Lacan.

O último ponto caracterizado como perspectiva analítica, para encerrar a sessão de metodologia e objetivos da pesquisa dos intelectuais na História Política, é o conceito de gerações. Estas dizem respeito à solidariedade de idade. O exemplo utilizado pelo autor é a Revista dos Annales. Com algumas objeções a abordagem, o autor prossegue justificando seu uso a partir de duas razões: primeiro que no meio intelectual os processos de transmissão cultural são essenciais, pois, um intelectual se define sempre por referencia a uma herança, como intermediação, ou mesmo como ruptura, mas sempre em referencia a algo. A outra com relação ao papel explicativo da faixa etária teria a um fenômeno. O autor exemplifica na participação da intelectualidade no conflito da Argélia, para um posicionamento esquerda-direita neste caso.

Por fim, o autor encerra o texto detendo-se nas expectativas deste campo de estudo. Novamente chama atenção dos historiadores do tema, para o problema de se tomar o papel do intelectual como o de crítico. correndo o risco de desembocar na observação segundo a qual ‘o conceito de intelectual de direita é contraditório em sua essência’. (Bon e Burnier apud Sirinelli, 1996, p.256). O autor assinala que no pré Guerra, os intelectuais de direita eram estatisticamente e ideologicamente dominantes. A rigor, o autor defende que historicamente a participação dos intelectuais de esquerda no Estado francês foi mais recorrente do que em outros contextos, colocando um ponto interessante para a História Política. O que leva-o à questão da participação política destes intelectuais na comparação de seus movimentos de idéias e o perfil político do Estado.

O autor salienta outro mal-entendido: mais do que a posição ideológica deve ser ressaltado a localização dos intelectuais, seus movimentos e deslocamentos dentro das esferas que transitam, afirmando que:

Na verdade, na fronteira entre a história das idéias políticas, evocadas em outro capitulo, e a historia dos intelectuais, um vasto campo de pesquisa, o da aculturação dessas idéias no meio dos intelectuais, se abre ao pesquisador. E a exploração desse campo se fará pela reinserção destas idéias no seu ambiente social e cultural, e por sua recolocação em situação num contexto histórico. (…) Por que algumas ‘ideologias’ – ao mesmo tempo princípios de inteligibilidade e elementos de identidade para os intelectuais – se aclimatam no meio intelectual, adquirem vigor em certos terrenos e se enfraquecem em outros momentos? (Sirinelli, 1996, p.258)

O autor fecha com a proposta de um caminho inverso: trata-se de se perguntar como as idéias vão da intelligentsia à sociedade civil e seus sobressaltos na comunidade nacional e pela cultura política da época.

Estas duas propostas segundo o autor, com relação as influencias do intelectual na sociedade, tocam em um assunto de fundamental importância, que é o da responsabilidade do intelectual. Segundo o autor, ao contrario do que se tem como imagem, os intelectuais muitas vezes erraram. Desta forma, o critério de analise não pode girar em torno de maniqueísmo. Outro problema é o ‘sacrifício político’ indicado a tal grupo pelos seus ideais, como se fosse prerrogativa política apenas do mesmo, argumento que também legitima a confusão de que estes sintetizam as opiniões e assim propõe a solução mais correta. O autor mostra que ao contrario, na maioria das vezes, o que se tem desta perspectiva critica não é a razão, mas sim grandes porções de atividade na defesa de suas idéias. Sobre o grande problema ensejado pelo tema o autor conclui que o historiador dos intelectuais não tem que ter como objetivo nem construir um panteão e nem cavar uma fossa comum.

Conclui que o caminho seria destrinchar as relações entre ideologias dos intelectuais e a cultura política da época. Levando em conta a natureza do objeto que estaria vinculada a meta política, correspondente aos confrontos ideológicos e políticos, as disputas eleitorais sobretudo:

Entre o coro dos intelectuais e a peça cheia de ‘clamor de fúria’ que é representada na rente do palco, urdiram-se relações complexas, cuja observação toca o âmago do político e faz, portanto, dessa história dos intelectuais uma história a seguir, em todos os sentidos do termo. (Sirinelli, 1996, p.262)

Sugere para desfecho proceder a uma história intelectual em três níveis, sendo responsável por uma nova história global e da França ao analisar a correlação das idéias dos intelectuais e os programas políticos.

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