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Posts Tagged ‘História Política’

BERSTEIN, Serge. Os Partidos in: RÉMOND, René. Por uma história política: Rio de Janeiro: Ed. UFRJ/Ed. FGV, 1996.

Qual a situação do tema de pesquisa Partidos Políticos na História Política? Qual a relação entre partido e ideologia? Qual o lugar particular e as influências do jogo político no comportamento político dos Partidos? Quais as primeiras abordagens históricas para estudos de Partidos Políticos? Trata-se de optar por uma abordagem simplista ou complexa? Quando e como surgiram os partidos políticos como forma de representação política no ocidente? O que é o pensamento político? Qual a relação dos Partidos Políticos com este? Existe uma relação causal entre acontecimento político e as necessidades políticas que orientam a ação política de determinado grupo? Qual o papel do historiador na análise da mediação de forças políticas? Qual a diferença de grupos clientelísticos e a dimensão moderna que assume o termo ‘partido’? Qual o sentido da caracterização de Duvenger sobre ‘partidos de quadros’ e os partidos de origem externa do parlamento? A emergência dos partidos políticos deve ser entendida por fenômenos contingentes ou estruturais? Qual a relação entre a adequação de idéias de um partido e uma determinada situação? O que é uma cultura política e qual o papel que esta desempenha na transmissão de valores partidários por várias gerações? Qual a justificativa e os fenômenos políticos que se fazem observáveis a partir do estudo dos partidos políticos do ponto de vista histórico? O que é um partido político? Quem o compõe? Como funciona uma organização política? Como é a composição social de um partido e sua relação com as idéias que defendem? Qual a maneira de se tratar esta questão sem cair no reducionismo? Quais os modelos de organização partidária? Há necessidade de se perguntar sobre o financiamento dos partidos políticos? Quem tem o poder dentro dos partidos políticos? Qual o núcleo duro destas formações políticas? O que permite ao historiador partir de um ponto seguro capaz de conectar as ações políticas dos eleitores que nem sempre são conscientes da base doutrinal das idéias dos partidos aos quais estão filiados?

UMA SITUAÇÃO CONTRASTADA: DESCRÉDITO E FECUNDIDADE

Berstein inicia seu texto apontando que o tema Partidos Políticos enquanto objeto de estudo na História sofria o mesmo descrédito da História Política, frente às críticas de uma História mais quantitativa ou da História Social, fornecendo a chave explicativa de todos os fenômenos, ou da visão marxista, ou mesmo da história das culturas como o estudo das motivações do homem histórico.

Nesse sentido, a História Política perdeu seu lugar recebendo crítica como destacando o modelo da história factual tomando os fatos como epifenômenos contemporâneos sem levar em conta uma maior profundeza nas investigações, tendo objetivo principal apenas a precisão da recomposição factual da vida política. Nesta perspectiva, com relação ao estudo sobre partidos políticos, tratava-se apenas de abordar a formação, o desenrolar de congressos, lutas internas e posicionamentos em relação a grandes fatos da história.

Acompanhada desta abordagem, outra perspectiva também definia o estudo dos Partidos Políticos: a dimensão ideológica. Estes estudos, segundo o autor, se baseavam na idéia de que um partido se define fundamentalmente pelos seus fins últimos, ou seja, pelo seu projeto de sociedade. Para Berstein, seria relativamente fácil compreender os limites deste tipo de abordagem, pois desconsiderar as lutas internas do jogo político que passam por mecanismo que definem o comportamento dos partidos políticos e mais, de que nem todo Partido Político, principalmente durante as origens desta organização política da sociedade, encaravam um programa ideológico solidamente definido; atuando muito mais como espaço de projeção eleitoral de indivíduos nas tramas da distribuição do poder no parlamento.

Isto clarifica uma hipótese do autor sobre a prevalência desta abordagem em partidos de esquerda que teriam base ideológica mais solidamente formulada. Afirma o autor:

Sob essa ótica, o modelo praticamente único é o partido marxista, e o exercício consiste em examinar a maneira como sua ação conduz, com maior ou menor êxito, à possibilidade de realização de seu ideal, cuja legitimidade não é posta em dúvida. Resultou daí um punhado de trabalhos dedicados aos partidos de esquerda e de extrema esquerda, em que os grupúsculos mais reduzidos (e, portanto, mais puros ideologicamente) aparecem como os mais interessantes, o Partido Comunista serve de referência, e o partido Socialista representa o campo fechado onde se confrontam tendências revolucionária e ranços reformista, enquanto as outras formações eram, na maioria das vezes, soberbamente ignorada pelos historiadores (Berstein, 1996, p. 58)

A crítica do autor a estes modelos de história-crônica e factual e história ideológica se arrefece acusada-as de simplismo e maniqueísmo e com indiferença pelo real.

Outro ponto que corroborou para o descrédito da História dos partidos foi a ignorância de um aspecto que o autor considera fundamental: Seria o cruzamento da longa duração e do acontecimento singular e que: ‘ recorre para explicar as ações dos homens, a dados múltiplos e complexos cuja combinação desemboca na ação dos partidos levando em conta o peso da tradição, o jogo das mentalidades, a cultura e o discurso, os grupos sociais e a ideologia, a psicologia social, o jogo dos mecanismos organizacionais e a importância das representações coletivas’. (Berstein, p. 58) Chamando atenção, então de que não se trata apenas de disputa pelo poder.

Analisa algumas obras fundamentais na área como a de René Rémond e, por conseguinte, concede créditos aos cientistas políticos que mudaram as perspectivas de abordagem para consideração dos partidos enquanto organizações, o papel e significado da existência dos mesmos durante sua recente história na sociedade ainda do fim do século XIX.

O PARTIDO, LUGAR DA MEDIAÇÃO POLÍTICA

O partido político é apresentado pelo autor como um mediador político. Percebe-se, pois, um mediador contemporâneo. Segundo o mesmo, não deve-se considerar o homem como originariamente um animal político. Mas esta dimensão das ações humanas surge do encontro das necessidades cotidianas à passagem de aspirações e necessidades (ressalta que não unicamente materiais) à expressão do pensamento político.  Esta relação não é dada nem necessária. Em síntese o autor afirma que nem sempre o resultado político é igual a relação de sua necessidade e a ação política mobilizada para atingir tais fins. Para tanto, dá o exemplo dos liberais de 1830 na França.

Segundo o autor: ‘Na verdade, entre um programa político e as circunstâncias que o originaram, há sempre uma distância considerável, por que passamos então do domínio do concreto para o do discurso, que comporta uma expressão de idéias e uma linguagem codificada’ (Berstein, 1996, p.61) Seria neste lapso que se encontra, por exemplo, o papel da cultura política e de uma tradição política na formação do discurso político. (Cultura – Evento e Ação) Como ficaria esta relação no estruturalismo? Define assim, o papel do historiador como fundamentalmente orientado para entender estas distâncias.

QUANDO E COMO NASCEM OS PARTIDOS POLÍTICOS? O TESTEMUNHO DE UM DETERMINADO ESTÁGIO DE DESENVOLVIMENTO DAS SOCIEDADES

O autor estabelece uma distinção fundamental do que seria um partido no sentido moderno do termo e agregações com forças políticas que aspiram ao poder e que existem há muito tempo. Berstein (1996, p.62) afirma que os primeiros não podem ser confundidos com grupos restritos que não passam de clientelas com efetivos limitados e os partidos políticos modernos, com vocação para encampar ou canalizar votos de populações numerosas como o sentido dos partidos modernos.

Penso que esta distinção dá dimensão de uma transformação complexa destas instituições que pode ser avaliadas caso a caso a partir de uma história do processo eleitoral, pensando no caso brasileiro dos Partidos da República Velha e a configuração do jogo eleitoral contemporânea. No entanto, percebe-se em tal abordagem uma perspectiva um tanto quanto funcionalista que trataria do desempenho dos partidos a partir de um ponto de vista processual pelo qual o modelo vigente representaria um estágio avançado de uma instituição ainda não complexificada como no caso dos partidos clientelísticos. Eu acredito que é necessário, portanto, tomar cuidado com este tipo de caracterização em termos analíticos.

Bernstein situa a emergência dos partidos políticos neste sentido moderno como caracterizado por ele acima, restrita à época e locais específicos, como no caso norte-americano, a partir da eleição de Jackson e no caso francês com a formação do Partido Radical em 1901 e a consolidação desta forma de representação política no Entre Guerras. No caso brasileiro, o autor não dá resposta. Mas suponho que surgiram efetivamente durante o fim da Segunda Guerra Mundial e do Estado Novo com o início da República Democrática de 45-64, partidos políticos mobilizados para o jogo eleitoral que adquiriram plataforma ideológica, pelo menos mais ou menos, participando de um jogo político democrático estabelecido, sem contar com a tentativa anterior da criação de partidos como o PCB em 1922 e da ABI (Ação Integralista Brasileira), mas para tal vale os reconhecidamente oficiais dentro de um modelo republicano democrático.

O autor então utilizasse da caracterização do nascimento dos partidos do cientista político Maurice Duverger que distingue o ‘partido de quadros’, aqueles nascidos para dar continuidade na reeleição de parlamentares que tem como mecanismo geral a criação de grupos parlamentares e a criação de comitês que canalizam a massa de eleitores com a ligação desses dois elementos e os partidos e origem externa do parlamento, que fazem da base militante representado pelos grupos de pressão como sindicatos, ‘sociedade de pensamento’, igrejas e associações a fonte essencial do poder partidário.

Assim, acrescenta que estes partidos tiveram seu nascimento mais tardiamente demonstrando a aplicação do atores reais no jogo político, diferentemente do século XIX. Entendo que no caso brasileiro o primeiro partido com essas bases poderia ser o PCB e posteriormente o PTB, por isto historiadores como Ângela de Castro Gomes enfatizar a República de 45-64 e o trabalhismo como um passo para a luta de cidadania no Brasil.

Conclui que a emergência dos partidos está intimamente ligada a:

Um determinado estado da sociedade resultante das conseqüências da revolução industrial, do avanço das idéias liberais, do desenvolvimento de burguesias e classes médias que acedem à cultura e desejam, através do regime representativo, desempenhar um pape na vida política, A reflexão sobre o ‘modelo’ de Maurice Duverger leva assim a considerar o partido político como o testemunho de um determinado estágio de desenvolvimento e de evolução das sociedades. (Berstein, 1996, p.66)

Neste sentido, pode-se pensar criticamente o quadro evolutivo proposto por Bernstein, a partir da antropologia estudando o fenômeno político com uma etnografia dos votos quando se propõe a estudar o comportamento político de populações que se encontram foram deste regime caracterizado por Bernstein ou que operam com uma lógica diferente com relação à política. Neste caso consultar os trabalhos de Goldman (2006) e Palmeira (1996, 1998, 2006)

O PARTIDO POLÍTICO, PRODUTO DAS GRANDES CRISES HISTÓRICAS

Esta tese relativa à emergência dos partidos como fruto de um determinado estágio de desenvolvimento da sociedade é sustentada pela escola dita desenvolvimentalista da ciência política norte-americana apresenta o autor. Assim o autor dá continuidade ao seu argumento dizendo que estas condições históricas não são causa necessárias para a emergência dos partidos políticos, com Palimbara e Weiner afirma que é necessário uma crise que não precisa se manifestar com um acontecimento político que justifica a emergência de organizações ‘ que diante dela, traduzam uma tendência da opinião suficientemente fundamental para durar e criar uma tradição capaz de atravessar o tempo.

No caso brasileiro seria o processo de modernização e as desigualdades regionais que criou, bem como a desigualdade social, que motivaram a criação dos partidos? No caso do trabalhismo a idéia de subdesenvolvimento e a defesa de direitos e cidadania como programa político seriam um exemplo de questões que atravessam o tempo? Esta analise segundo o autor faz com que o fenômeno partidário deixe o domínio do contingente para admitir o plano estrutural. Analisa assim caso da experiência francesa do ponto de vista estrutural.

PARTIDOS E INÉRCIA POLÍTICA

Berstein então caracteriza um fenômeno diretamente ligado a emergência de um partido político que é o que o autor qualifica como inércia política. O autor entende por este fenômeno o fato de partidos e tradições políticas perdurarem a despeito da adequação total entre suas idéias e uma determinada situação. Afirma que no momento de sua gênese isto é perfeitamente observável, no entanto, como o passar do tempo é cada vez mais fácil um partido viver no estado inércia, mobilizando  sua cultura política que é transmitida através de gerações.

Destarte, o autor conclui que:

Fenômeno histórico por definição, como acabamos de ver, o partido político está em condições de fornecer ao historiador uma considerável quantidade de informações sobre os grupos que se esforçam por reunir os homens tendo em vista uma ação comum sobre o poder ou a organização da sociedade. Informações de ordens diversas, que esclarecem singularmente, por menos que se formulem as perguntas certas, o comportamento do homem na política, e, além disso, o jogo complexo das forças que condicionam e motivam seus atos. (Berstein, 1996, p.72)

Vale observar, portanto, a emergência de uma tradição político, o que permite sua continuidade avaliando assim seu papel no jogo político atual, tanto quanto na História. O autor consegue explicar a partir destes pressupostos o declínio do Partido Comunista francês nas eleições avaliando que seu programa não correspondia mais aos anseios dos eleitores e as circunstâncias históricas que se impunham.

O PARTIDO POLÍTICO, REUNIÃO DE GERAÇÕES DIVERSAS

O próximo assunto a ser discutido é o estudo dos partidos políticos a partir da definição do que ele é de quem o compõe. O autor sugere que são homens com um objetivo político comum e que podem ser analisados a partir da perspectiva de gerações, alertando que este termo aqui assume mais seu sentido sociológico do que demográfico, ou seja, um grupo de homens que dividiram experiências parecidas e viveram em momentos e em um ambiente cultural comum. Tal abordagem parte do postulado que esta variável tem serve como um componente fundamental para explicação do comportamento político. Tal perspectiva abre o leque para a explicação de como funcionam uma organização política. Exemplifica a partir da que significou a chegada de Jacques Chirac, em 1974, à frente do movimento gaulista.

PARTIDOS POLÍTICOS E SOCIOLOGIA

Esta abordagem segundo o autor não pode ser desconsidera pelo historiador que diz respeito à imagem que o partido faz de si, de quem ele representa e a filosofia social que subsiste a sua ação. A este dado deve ser confrontada a realidade sociológica dos interesses que representa. Defende então que um partido é mais do que a definição marxista de que representa apenas interesses de classe e que no seio de um partido pertencem várias classes; uma das análises possíveis é a abordagem quantitativa para verificar a relação entre a realidade sociológica do partido e suas idéias. De maneira que o autor conclui que os dados sociológicos devem ser confrontados com outras realidades para não se cair numa caricatura.

O PESO DE UMA ORGANIZAÇÃO NA VIDA DE UM PARTIDO POLÍTICO: DOIS MODELOS

O autor destaca para este aspecto as relações históricas que dizem respeito a modelos de organização mais centralizados, ou seja, uma relação harmoniosa entre a base dos comitês de recrutamento do eleitorado e os grupos parlamentares, sendo isto ausente ou não, de acordo com a condição histórica. Ao lado desta questão se impõe o que o autor chama de o espinhoso problema que é o do financiamento dos partidos.

O PODER NO INTERIOR DOS PARTIDOS POLÍTICOS

Este problema segundo o autor colocado sobre a interrogação da democracia está intimamente ligado a organização dos partidos, anteriormente mencionada. Bernstein afirma que: ‘Se pusermos de lado formações muito particulares como os partidos fascistas, em que, por definição, o poder é o apanágio de um chefe carismático que representa a massa em nome de princípios misteriosos, que nada devem à eleição, a maioria dos partidos políticos modernos se quer democrática’. (Berstein, 1996, p.83)

Algumas teses mostram que uma oligarquia controla o poder político dentro do partido, constatada tal hipótese o autor pergunta-se se é possível afirmar que não exista democracia nos partidos políticos. Propõe que a solução para esta pergunta está no estudo do processo de tomadas de decisão. Esta se encontrando no fato de que lideres da oligarquia só podem vencer seus rivais de fato com o apoio da maioria dos militantes. E o que permite caracterizar, segundo o autor um partido de tradições democráticas.

OS PARTIDOS POLÍTICOS: FORMAÇÃO IDEOLÓGICA

O autor analisa assim o papel da ideologia na orientação das tomadas de decisões caracterizando os partidos em doutrinários ou não. Seriam doutrinários o que partissem de uma doutrina formulada claramente como bases filosóficas e em um sistema único que tive como pretensão assumir o poder para colocar seu modelo de sociedade e de homem que não seria susceptível de nenhum reordenamento. Mas Bernstein afirma que o caso do partido totalitário este que se baseia conforme uma organização doutrinal é um caso limite, geralmente, segundo o autor, a formulação ideológica partidária se apresente como uma grande família de pensamento, próximo de uma nebulosa.

Dentro deste quadro dos partidos de ideologia abertas é possível perceber um conjunto famílias políticas que o autor exemplifica como a democracia-cristã, o socialismo-democrático claramente diferente do comunismo entre outras. O autor ressalta que para a maioria dos membros a base doutrinária da ideologia do partido não é algo evidente e se manifestas a partir de uma cultura política própria, através de práticas cotidianas que à primeira vista se apresentam como relação direta. Assim é que os ritos aparecem como um campo de investigação promissor para os historiadores, remetendo a todos a que eles participam a um contexto implícito. Conclui afirmando que: Em todos os sentidos, a vulgata ideológica, tal como é expressa através da cultura política, portanto o núcleo duro da coesão das formações políticas, aquele que garante solidamente, para além dos acontecimentos conjunturais e dos acasos do cotidiano, a perenidade dos partidos. (Berstein, 1996, p. 91). Bernstein encerra seu texto com um resumo dos argumentos apresentados anteriormente afirmando que não pretendeu ser exaustivo com relação ao assunto.

ALGUMAS OUTRAS REFERÊNCIAS

GOLDMAN, M. . Como Funciona a Democracia. Uma Teoria Etnográfica da Política. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora 7Letras, 2006. 367 p.

GOMES, A. M. C. . A invenção do trabalhismo. 3. ed. Rio de Janeiro: FGV, 2005. v. 1. 319 p.

PALMEIRA, M. G. S. ; BARREIRA, C. . Política no Brasil: Visões de antropólogos. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2006. 445 p.

PALMEIRA, M. G. S. (Org.) ; BARREIRA, I. (Org.)  . Candidatos e Candidaturas: enredos de campanha eleitoral no Brasil. 1. ed. São Paulo: Annablume, 1998. v. 1. 292 p.

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Michel Winock Institute d'etudes politiques de Paris

WINOCK, Michel. As idéias políticas in: RÉMOND, René. Por uma história política: Rio de Janeiro: Ed. UFRJ/Ed. FGV, 1996.

Qual o papel das idéias no campo político dos Estados contemporâneos? Qual o lugar das idéias na sociedade? Existe um conjunto de idéias que seja o verdadeiro? Idéias são instrumentos de poder? As idéias devem estar a serviço de uma unidade ou uma pluralidade? Quando surgiu a história da idéias políticas? Surgiu para quê? Quais as obras estudadas, por que estas? Quais os tipos de abordagem? O que é uma história de pináculos? O que é uma história pelos ‘faróis’? Existe uma nova abordagem na História das idéias políticas? O que é uma história das mentalidades políticas? Qual a caracterização singular do trabalho do historiador diante da expansão do campo da história das idéias políticas?

A primeira questão trabalhada por Winock diz respeito às idéias para a análise do campo político. Situa que historicamente se constituíram duas visões excludentes entre sim. A primeira que remonta ao século das luzes em que as idéias desempenhariam um papel fundamental na direção do progresso. E uma segunda crítica que derivaria dos escritos de Marx em a Ideologia Alemã, para que as idéias não passariam de reflexo dos interesses de classe.  Segundo Winock citando Marx: ‘ Era preciso, ao contrário, partir dos homens ‘ na sua atividade real’: ‘Não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência. E Marx opunha a análise científica da realidade (a teoria) à ideologia, ou seja, a um pensamento que se engana a si próprio quanto à sua autonomia (‘a falsa consciência’, e que não passa na realidade de um sistema de justificação das relações sociais em benefício da classe dominante.[1] Estas oposições se estabeleceram no que ficou conhecido entre o idealismo filosófico e o materialismo dialético que trariam a problemática do lugar das idéias na sociedade.

Situando no contexto francês o autor mostra como o ideal de pluralismo com relação às idéias saiu vitorioso a projetos que definiam uma única visão de mundo comum. Segundo o autor: ‘No feudo marxista, a função da ideologia foi reavaliada na práxis revolucionária e na instauração de um Estado socialista. Lênin reatribuiu assim à ideologia uma virtude positiva: ela é instrumento de combate; ela se torna um instrumento de poder. (Winock, 1996, p.272)

Deste processo se instituiu uma visão de que a ‘unidade de vontade’ deve decorrer do pensamento único, e daí viria a critica ao marxismo-leninismo que aceita o papel das idéias, mas para transformá-las em propaganda a serviço de uma causa.  Isto resulta, segundo Winock, certo desdém ao pluralismo das idéias e tendeu a tornar insignificante a produção intelectual de Estados Liberais além de uma democratização das idéias que tende a nivelá-las por baixo, no sentido de atingir uma uniformidade do pensamento.

O autor procede então a uma breve história da história das idéias políticas na França citando o nome de autores como Jean-Jacques Chevallier, Albert Thibaudet, Daniel Mornet e André Lichtenberger. Para afirmar que foi André Siegfried que a transformou em uma disciplina acadêmica. O fato importante destacado pelo autor é que o estatuto de obras sobre política era atrelado a atributos literários e que houve uma transformação institucional que foi responsável por formalizar o estudo de obras sobre políticas ou de idéias políticas como o objetivo de formar uma ‘cultura política’ para estudantes de ciência políticas no caso citado da ‘ Sciences Po’.

O autor não chega a formular que os livros sobre idéias políticas eram estudados de perspectiva histórica para orientar a teoria política contemporânea, mas tal fato é implícito ao mostrar como que para Jean Jacques Chevallier era importante o estudo de grandes obras, e estas grandes obras são justamente estas que tem algum sentido para aquele período, cita fora desta relação o caso do livro de Cournot.[2]

Segundo Winock esta história das idéias tal como apresentada por Chevalier estava ligada antes de tudo a uma organização que marcava uma finalidade pedagógica: Segundo o autor: ‘Chevallier estava menos preocupado em estudar a genealogia das grandes idéias políticas, sua difusão e sua função nas diversas sociedades onde nasciam que em oferecer um capital cultural a jovens que se destinavam a servir ao Estado ou a assumir funções de direção.[3] (Winock, 1996, p.275)

Penso eu que esta primeira abordagem é o que poderíamos entender como o historicismo na história das idéias. Um movimento de recuperação das idéias em seu contexto passado com objetivo deliberado de ênfase deste no lugar do segundo movimento que se preocupa mais do que com a ‘recuperação’ das idéias tal como concebidas se preocupa mais com o que estas idéias trazem para a interpretação do presente ou de uma determinada teoria.

Este último movimento diz respeito a cientistas como os economistas, politologos, educadores ou qualquer outra área do saber que constitui a produção de teorias a partir de uma explicação histórica. Entendo por explicação histórica o recurso do passado para anunciar proposições. O movimento da História das Idéias é outro embora seja encarnado neste próprio movimento. Mas trata-se de uma ênfase na constituição, na formação das idéias em um determinado contexto. Sendo este o objetivo final.

Segundo Winock com relação à história das idéias políticas, o que ele chama desta História de pináculos – historia das grandes obras – possui pelo menos três tipos de abordagens, a primeira ele descreve como neste campo de formação de uma cultura política para análises da teoria política em que ‘ o historiador muitas vezes cede lugar ao filosofo ou ensaísta, mais afeito a esse debate intelectual face a face, do qual extrai uma visão pessoal e com freqüência atualizada dos problemas políticos.[4] (Winock, 1996, p.275)

A outra abordagem apresentada por Winock são as biografias intelectuais que segundo o autor contribuíram de forma indispensável para uma leitura atualizada de clássicos, cita, por conseguinte, exemplo de obras neste estilo na historiografia francesa.

A última abordagem citada pelo autor diz respeito à história das correntes de pensamento, elegendo temas, no lugar de um pensador, uma corrente de pensamento como o liberalismo, o conservadorismo, o comunismo entre outros. A estes modelos de histórias das idéias políticas o autor chama de história pelos ‘faróis’. Uma preocupação mais marcada em recolocar a análise das obras no contexto móvel de sua época e de verificar os efeitos destes sobre as cenas políticas’ (Winock, p. 277) É o que eu me referi como o sentido da história das idéias ligadas ao historicismo, onde poderiam colocar-se a abordagem da escola anglo-saxã dos estudos de Quentin Skinner e Pocock. A grande questão desta abordagem são seus limites de não conseguir assimilar que o historiador nunca é estranho à história que vive nesse sentido sempre há interpretação. Esta questão a qual Winock menciona está também em Gadamer e a questão da consciência histórica.

Contudo, em outro momento analisei esta questão dizendo que entre a abordagem historicista de Skinner, a história pelos ‘faróis’ como se referiu Winock e uma história mais presentista aquela que contribui para a teoria, eu entendo que a diferença são os objetivos, o que se busca deliberadamente. A primeira como já afirmou Skinner fornece uma cultura histórica para se pensar a própria teoria. A segunda se aproxima mais da teoria política quando lê o passado para objetivar, exemplificar uma tese presente.

O autor prossegue então para uma apresentação de novos temas na história das idéias políticas que não seja a história das grandes idéias, mas começa a mostrar outras ênfases como as expressões corriqueiras, as idéias prontas, os preconceitos, as crenças coletivas, os mitos, as palavras de ordem, os slogans. O que aproximaria a historia das idéias políticas com a história das opiniões políticas e a história da propaganda. (Winock, 1996, 278)

É neste eixo que se define uma renovação do corpus, estudando as idéias políticas em todos os setores da sociedade não somente nas grandes obras. Exemplifica assim alguns trabalhos como o de Jean Touchard que sucedera Jean-Jacques Chevallier no IEP. Esta renovação também teve por objetivo o estudo de autores que caíram no esquecimento além de estudas a mediação das idéias a partir dos mediadores e não só os ‘pensadores’. Segundo o autor: ‘ Dedicar-se às mediações e aos mediadores, tanto quanto aos ‘pensadores, resulta da necessidade metodológica, quando o historiador quer avaliar o trabalho das idéias na sociedade tanto quanto o reflexo dos problemas sociais no momento da expressão jornalística. O repertorio das dissertações de mestrado e de DEA, a lista dos temas de teses, defendidas ou não, mostram esse deslocamento da curiosidade do qualitativo para o quantitativo, dos grandes autores para os fabricantes do pensamento cotidiano semanal. (…) O historiador, por seu lado, não pode se deixar dissuadir por juízos de valor: o homem comum lhe interessa tanto quanto a pequena elite dos leitores de obras filosóficas’. (Winock, p. 282).

O grande diagnostico do autor esta em fixar a mudança da história das idéias políticas distanciado-se de uma historia da literatura ou uma historia da filosofia para se aproximar de uma história das mentalidades políticas, das culturas políticas, ou seja, tentar entender a circulação e a produção das idéias políticas. Fazendo uma associam ao que Foucault se referiu a uma filosofia espontânea daqueles que não filosofam.

Por fim, termina seu ensaio a propor algumas curiosidades e outras abordagens para a história das idéias. A última frase do autor também destaca o problema de uma análise historicista e ou não. Quando o autor afirma que: ‘ A finalidade da história das idéias políticas não é mais oferecer elementos quase intemporais de uma ‘cultura política’, e sim conhecer melhor os sistemas de representações das sociedades, o estudo destes sistemas tornou-se inseparável da dos aparelhos de produção e de mediação: não é apenas a idéia que age, é também o lugar de onde ela vem’. (Winock, 1996, p.285) percebe-se, pois, que a primeira fazia referencia a uma teoria política e a segunda está mais preocupada com a compreensão das lógicas de circulação das idéias políticas, de como as sociedades forjam sua ‘cultura política’. Nesse sentido ela quase que se fixa em uma sociologia das idéias políticas a meu ver. Cita então as idéias de Bourdieu a partir da noção das estratégias individuais.

Com um diagnostico da pluralidade de perspectiva Winock finaliza seu ensaio afirmando que o historiador deve-se utilizar de todas essas variantes, mas não deve deixar de ser o elemento de síntese ao inserir os resultados em uma perspectiva de longa duração. Acaba que defende a abordagem historicista ao mencionar que o historiador deve ‘estabelecer as continuidades e os inícios de mudança, inscrever os termos no universo material das coisas, a recuperação dos antecedentes, das filiações, das fusões, toda essa hidrologia das correntes de pensamento continua sendo de sua competência’. (Winock, 1996, p.290) ‘Definindo que a finalidade da História Política é dar novamente sentido ao passado e tornar, por isso mesmo, o presente mais inteligível, para a qual a história das idéias traz, pelo ajuste de seus instrumentos e a multiplicação de suas matérias, uma contribuição indispensável’.

Conclui-se, portanto, que a despeito das novidades no campo da história das idéias políticas o autor defende que o papel do historiador está assegurado no movimento de captar as mudanças e o de sempre colocar a perspectiva da longa duração.

Algumas outras referências

BRANDÃO, Gildo M. “Linhagens do Pensamento Político Brasileiro”, in. Dados – Revista de Ciências Sociais. Rio de Janeiro, Vol. 48, nº2, 2005, pp: 231-269.

FREDERICO, Celso. A sociologia da literatura de Lucien Goldmann. 19 (54): 429-46.

JASMIN, Marcelo Gantus. História dos conceitos e teoria política e social: referências preliminares. Rev. bras. Ci. Soc. [online]. 2005, vol.20, n.57, pp. 27-38.

KOSELLECK, Reinhart. Futuro Passado: contribuição à semântica dos tempos

históricos. Rio de Janeiro:Contraponto, Ed. PUC-Rio, 2006. 366p.

POCOCK, J. G. A. (2003), Linguagens do ideário político. Tradução de Fábio Fernandez. São Paulo, Edusp.

SKINNER, Quentin. (1969), “Meaning and understanding in the history of ideas”. History and Theory, 8 (1): 3-53.


[1] Conforme mostrou Winock as obras políticas eram tomadas como próximas da literatura. Assim para o estudo de idéias políticas alguns usam as propostas metodológicas para análise das idéias a partir de uma história das visões de mundo, tal como propôs o marxista estruturalista-genético Lucien Goldman. Para este autor dever-se-ia fazer uma história da cultura, ou seja, das ideologias, a fim de traduzir a visão de mundo dos autores que com correlação ao materialismo dialético expressaria em uma obra prima o ‘máximo de consciência possível’ de um grupo social. Celso Frederico afirma que: ‘O objetivo de uma sociologia da literatura é, portanto, a busca das homologias, o estudo das estruturas significativas presentes nos grupos sociais – o substrato social que confere unidade à obra literária. O projeto de Goldmann procura transpor para a literatura dois movimentos: o estudo da compreensão, isto é, da estrutura significativa imanente da obra e a explicação, a “inserção dessa estrutura, enquanto elemento constitutivo e funcional, numa estrutura imediatamente englobante [para] tornar inteligível a gênese da obra que se estuda”

[2] A História das idéias políticas de matriz anglo-saxã e de Koselleck privilegiam uma relação das idéias com o social a partir da análise do tempo de transformação dos conceitos para captar as mudanças sociais, partindo de alguns pressupostos como este que exemplifica a demora de assimilação das mudanças do mundo. A outra perspectiva, principalmente, a de Skinner leva em conta a reconstituição do passado a partir do estudo dos discursos como atos de fala, ou seja, a idéias expressam um realidade que só pode ser concebida se estudas em seu contexto, levando a possibilidade de entendimento de seus contextos de enunciação que dariam a perspectiva de seus reais sentidos.

[3] A História do pináculo apresentada por Winock para o caso francês e a formação de uma cultura política lembra a proposta de Brandão para o estudo do pensamento social brasileiro, a partir de abordagens similares a apresentada por Winock no sentido de formação de fortuna crítica a guisa de se pensar a teoria política contemporânea.

[4] Este tipo de pesquisa constituiu o que ficou caracterizado tanto para teoria política como para a teoria sociológica ao estudo a partir da categoria de nação a um campo de investigação conhecido como pensamento social brasileiro.  Recentemente Brandão, propôs uma perspectiva de como a abordagem histórica auxiliaria a teoria política em seu ‘linhagens do pensamento político brasileiro’, onde o autor faz um grande panorama das principais matrizes de idéias políticas que constituíram o pensamento político brasileiro no século passado a partir da leitura de clássicos nacionais.

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SIRINELLI, Jean-François. Os intelectuais in: RÉMOND, René. Por uma história política: Rio de Janeiro: Ed. UFRJ/Ed. FGV, 1996.

Na História política qual o papel desempenhado pelos intelectuais? Quem são os intelectuais? Quando surgiu o interesse pelo estudo do comportamento político dos intelectuais? Quais as abordagens que foram feitas sobre o assunto em Historiografia e em Ciência Política? Quais as novas propostas e desafios de pesquisa?

É com estas perguntas que o texto de Sirinelli se ocupará dentro do campo da História Política. Um importante destaque sobre o tema, dado pelo autor, é o espaço que os intelectuais ocuparam na política francesa durante o século XX. Nesse sentido, o autor leva em consideração que a coletânea da qual faz parte esta conferência,  tem como escopo de pesquisa a Política de perspectiva histórica, especialmente na França, país de origem de seus organizadores.

Sirinelli destaca então uma das primeiras iniciativas contemporâneas responsável pelo reaparecimento do tema, foi ela: uma mesa-redonda da Association Française de Science Politique, com o tema ‘Os intelectuais na sociedade francesa contemporânea’ e que resultou em alguns artigos publicados na RFSP – Revue Française de Science Politique. Nesta revista publicaram historiadores como Louis Bodin, Jean Touchard e René Rémond que destacavam a importância do estudo dos intelectuais na política. René Rémond, particularmente, salientando a necessidade de que este tema deveria ter por si só um campo de estudo.

O autor analisa o descompasso dos Estudos Históricos com relação à sociologia e a ciência política, no que diz respeito a esta temática, considerando os anos 60 e a crise na Argélia. Neste período intelectuais franceses participaram abertamente da questão. Outro dado contextual ressaltado pelo autor é o retorno da História Política que tinha ficado em campo marginal até os anos 60, mas que com o surgimento do interesse pelas duas Grandes Guerras, retornou à cena.

Mencionando os estudos de Jacques Le Goff sobre os intelectuais na Idade Média; de Bernard Guenée e as histórias modernas de Robert Mandrou; Daniel Guenée e Robert Darnton; o autor ressalta os recortes destas pesquisas no campo da História Social e Cultural, o que não satisfazia plenamente as lacunas colocadas ao tema pela História Política. Sirinelli então conclui que as causas dos intelectuais terem deixado de ser motivo de pesquisas, teria sido muito mais por uma questão de ausência de olhar do que de descrédito, mas que recentemente tem se constituído quase como um campo autônomo nos cruzamentos entre a História Cultural, a História Social e a História Política.

Outro aspecto para o qual o autor chama atenção, é o fato de que vários outros atores políticos já foram estudados pela historiografia, mas isto não se confirma no caso dos intelectuais. A pergunta que se segue é sobre os intelectuais como um sub-objeto da História. Os problemas com relação a esta posição são referendados pelo autor a partir da afirmação da subalternidade da História Política, da História do Tempo Presente no campo da História; e, nesse sentido, o tema atravessa os dois campos simultaneamente, além do que envolve o próprio pesquisador, na medida em que ele também é um intelectual. Com relação ao ostracismo da História Política, os argumentos são parecidos com o levantamento da coletânea, mas a respeito da História do Tempo Presente uma causa interessante é levantada pelo autor, trata-se de:

Daí afirmar que ele corre o risco de se queimar no fogo mal extinto dos grandes debates das últimas décadas faltava apenas um passo, dado com facilidade por aqueles que negavam ao historiador o direito de chegar até as bordas do último meio século, vasto continente deixado em repouso como um alqueive ou abandonado aos ‘jornalistas’ da ‘história imediata’. Para aqueles que o desprezavam, o historiador do contemporâneo, obrigatoriamente ligado por múltiplas fibras ao ambiente que o cercava, só podia entregar-se a jogos de memória, logo transformados em jogos de espelhos deformantes (Sirinelli, 1996, p. 234)

O destaque para a memorialística, como campo de investigação para o imediato, no caso da afirmação de Sirinelli, deu-se pela correspondência das ações do presente orientarem uma interpretação do passado e, doravante, tornar-se bastante interessante como eixo de investigação.

Dando prosseguimento a estas causas da marginalização dos intelectuais como objeto de pesquisa na História Política, Sirinelli ainda levanta outras causas como: o fato dos intelectuais se constituírem como um grupo social pequeno; à acusação de impressionismo por pertencerem ao mesmo campo que investigam; ao fato do interesse da Historiografia pelas ‘massas’, pela qual os intelectuais não participavam primeiro por ser um grupo restrito e depois por pertencer às ‘elites’.

Outros motivos além destes anteriormente levantados, apontados pelo autor, seriam a ação política dos intelectuais inscritas na curta duração, onde o mote das investigações na Historiografia canônica centrava-se nas médias e longas durações e, em segundo lugar, a questão do ‘poder’; através da pergunta sobre se realmente estes teriam influído nos acontecimentos.

Segundo o autor, esta crítica baseia-se em um mal-entendido entre a história dos intelectuais e a história das idéias políticas, assim como da história da cultura política: Sobre a História das Idéias políticas, seus estudos teriam se acantonados mais no estudo dos grandes compositores do que na história das orquestras e da recepção do público. As perguntas da História dos Intelectuais, por sua vez, são de como as idéias vem a estes intelectuais, como aparecem em determinada data, porque alguns permanecem na penumbra e outros não?

Há uma afirmação fundamental no texto de Sirinelli sobre os motivos dos intelectuais tendo ocupado um campo marginal na História. Trata-se de sustentar que a cultura política é apenas em parte elaborada pelo meio intelectual, com a qual, raras vezes ele está de acordo, afirma o autor (Sirinelli, 1996, p.237). (Nesse sentido uma tradição política compõe um grupo maior que é a cultura política, no meu caso, a cultura política democrática da Nova República). Pode-se pensar a relação entre História Intelectual e História das Culturas Políticas subordinando a primeira à última. O autor ressalta em nota, contudo, que  os domínios destas disciplinas não são estranhos entre si.

A próxima questão tratada pelo autor é sobre o renascimento do tema dos intelectuais na História Política. Segundo o autor, foi na segunda metade da década de 1970 que o tema ressurgiu. Ressurgiu tendo entre suas causas a própria história dos intelectuais e outras como o status da história política e da história recente, como anteriormente já destacado. O autor parece então associar a História Política à abordagem quantitativa, pois situa o interesse dos intelectuais a partir de perspectivas como a abordagem prosopográfica dos itinerários, considerando então o fim de uma das objeções para o estudo deste grupo, tal como por ser de um grupo reduzido. Com relação à aproximação da média duração, o que legitimaria os novos estudos seria a perspectiva de fazer uma história cíclica do engajamento dos intelectuais relativos a esta temporalidade.

Com relação à habilitação da História do tempo presente o autor afirma:

De fato chegou-se a um acordo: Clio está deontologicamente habilitada e metodologicamente equipada para medir o pulso da história de nosso tempo. Se uma história dinâmica é reconhecida pelas pistas que descortina, pelas perguntas que faz e pelas respostas que, aos poucos, consegue dar, é forçoso observar que essa história do fim do milênio forjou conceitos, verificou suas hipóteses e trouxe contribuições. (Sirinelli, 1996, p.238)

Do ponto de vista da relação do pesquisador com o objeto, Sirinelli alerta para pontos como a questão da simpatia. Argumenta que ela percorre o ofício, cabe ao pesquisador assumi-la tanto do ponto de vista positivo como negativo evidenciando-a com o objetivo de avaliá-la. O fato que marcou o anátema da História Política ao postulado Braudeliano sobre a espessura do social como matéria do Historiador em detrimento aos acontecimentos, foi superado tendo como um dos fatos o estudo dos intelectuais na guerra da Argélia ou esclarecendo as gerações de intelectuais que se sucederam na França. (Este tipo de abordagem foi profundamente marcado no Brasil, na área de Sociologia da Cultura, uma das referencias para caracterizar o período dos anos 60, de um engajamento político social dos intelectuais e sua relação com o nacionalismo é o trabalho de Marcelo Ridenti)

Assim o interesse  virou-se para o próprio aumento do grupo durante o século XX e a necessidade de responder a pergunta sobre quem foi determinado intelectual no meio dos ‘ismos’ que apareciam e seus seguidores. O autor sempre menciona a figura de Sartre como um grande líder dos intelectuais. Após responder sobre a real dimensão da ação dos intelectuais na sociedade e estabelecida esta pergunta, o autor parte para evidenciar em termos de processo o aparecimento dos objetivos e métodos desta disciplina.

Uma grande questão para a fundamentação dos objetivos e métodos da disciplina foi a pergunta quem eram os intelectuais? ‘ Um professor primário é um intelectual’? É um oficial? A partir de que posto? É um padre? E alguém que vive de renda? As perguntas partem da narração do autor sobre um ato ocorrido na Maison des Syndicats de Bourges em junho de 1934, sobre a criação do Comitê de Ação Antifacista e de Vigilância. Este problema que o autor caracterizará a partir da ‘compreensão’ e a ‘extensão’ do termo intelectual e que geraria outro problema: de que a resposta ao primeiro termo geralmente é endógena, formulada pelos próprios intelectuais.

Levando em conta os percalços de se estabelecer um critério para definição da palavra e considerando como esta sofreu mutações na sociedade francesa, o autor propõe uma definição:

Por esta última razão, é preciso, a nosso ver, defender uma definição de geometria variável, mas baseada em invariantes. Estas podem desembocar em duas acepções do intelectual, uma ampla e sócio-cultural, englobando os criadores e ‘mediadores’ culturais, a outra mais restrita, baseada na noção de engajamento. No primeiro caso estão abrangidos tanto o jornalista como o escritor, o professor secundário como o erudito. Nos degraus que levam a esse primeiro conjunto postam-se uma parte dos estudantes, criadores ou ‘mediadores culturais’ em potencial, e ainda outras categorias de ‘receptores’ em potencial, e ainda outras categorias de ‘receptores de cultura’. (…) Estes últimos podem ser reunidos em torno de uma segunda definição, mais estreita e baseada na noção de engajamento na vida da cidade como ator – mas segundo modalidades diferentes, como por exemplo, a assinatura de manifestos.  (Sirinelli, 1996, pp.242-243)

O autor conclui que o debate entre as duas definições é na verdade um falso problema, já que os dois elementos são de natureza sociocultural. E neste sentido, o historiador do político deve partir da primeira definição; segundo o autor, em determinados momentos fechar a lente no sentido fotográfico do termo. Essas definições são, contudo, balizadas pelas representações sociais do intelectual que segundo o autor, na sociedade francesa: vão da imagem religiosa dos intelectuais paladinos das grandes causas contemporâneas, até a leitura antiintelectualista de um século XX francês desestabilizado pela ação perniciosa dos intelectuais, fermentos da dissolução nacional e agentes da perversão social. (Sirinelli, 1996, p.244)

Discutido o problema das definições o autor passa a analisar as dificuldades e objeções ao estudo dos intelectuais como atores políticos. (É essa a perspectiva que relaciona suas idéias com a História Política)A categoria como mutável é agravada pela alta de um partido político dos intelectuais. O autor menciona alguns na História francesa como o PSU, o RDR como exemplos de estrutura partidária da intelligentsia. Outra objeção é abundância de documentos tendo em vista que todos intelectuais escrevem muito. Caracterizando assim a pesquisa sobre a História Política dos intelectuais passando obrigatoriamente pela pesquisa, longa e ingrata, e pela exegese de textos, e particularmente de textos impressos. (Sirinelli, 1996, p. 245)

As abordagens são apresentadas pelo autor a partir de conceitos como o de itinerário, geração e sociabilidade. Para o de itinerário objetiva-se desenhar mapas dos grandes eixos de engajamento dos intelectuais, passando pelo gênero biográfico, tanto como pela perspectiva de trajetórias cruzadas, como no caso de Sartre-Aron ou Sartre-Camus. Avaliando o que o autor se refere como os ‘despertadores’ de idéias e suas influências, possibilitada a partir de uma abordagem diacrônica. Desta maneira procura-se analisar a procedência dos intelectuais a partir de seu lugar de formação, alertando, o autor, para que o estudo de itinerários só pode ser feito a partir de interpretação levando em conta os problemas de reconstituição.

O autor faz um comentário das pesquisas de Pierre Bourdieu sobre a posição social das opiniões e dos gostos, mas alerta que as pesquisas não devem estar restritas a análise microsocial, respondendo assim, a contento, sobre o funcionamento do campo intelectual ou as condições de êxito de um determinado intelectual em seu campo. Mesmo que este tipo de análise tenha contribuído, a partir do conceito de ‘estratégias’, para articular as escolhas dos indivíduos não o colocando como mera reprodução das instituições. Ressaltando o papel dos acasos e das contingências e chamando atenção que igualmente determinantes são as sensibilidades ideológicas e cultural que tendem a transcender apenas o campo em questão.

Analisada a questão do escopo de pesquisa oferecido pelos itinerários, o autor passa a analisar a questão da sociabilidade. Esta se constitui em relação aos intelectuais no seio do ‘pequeno mundo estreito’ que dividem em torno da redação de uma revista ou do conselho editorial de uma editora, ressaltando a importância do termo ‘redes’ para captar tal fenômeno. Lá se definem também as posições antagônicas e pela análise destas, sugere o autor, é possível captar o movimento de idéias. O outro meio que o autor designa como estruturas de sociabilidade são os Manifestos. Um importante sensor para captar as opiniões em História Política.

O autor ainda indica que as estruturas de sociabilidade variam no tempo como, por exemplo, a presença dos ‘salões’ na fronteira dos dois séculos. Indicando como meio de análise as solidariedades de origem, de idade, de estudos, bem como levando em consideração os fatores de atração e amizade, a hostilidade, a ruptura, a briga e o rancor. Além deste sentido afetivo as redes também podem ser entendidas a partir de como se interpenetram estes fatores com o ideológico. Análise alguns casos de exemplo como Althusser e Lacan.

O último ponto caracterizado como perspectiva analítica, para encerrar a sessão de metodologia e objetivos da pesquisa dos intelectuais na História Política, é o conceito de gerações. Estas dizem respeito à solidariedade de idade. O exemplo utilizado pelo autor é a Revista dos Annales. Com algumas objeções a abordagem, o autor prossegue justificando seu uso a partir de duas razões: primeiro que no meio intelectual os processos de transmissão cultural são essenciais, pois, um intelectual se define sempre por referencia a uma herança, como intermediação, ou mesmo como ruptura, mas sempre em referencia a algo. A outra com relação ao papel explicativo da faixa etária teria a um fenômeno. O autor exemplifica na participação da intelectualidade no conflito da Argélia, para um posicionamento esquerda-direita neste caso.

Por fim, o autor encerra o texto detendo-se nas expectativas deste campo de estudo. Novamente chama atenção dos historiadores do tema, para o problema de se tomar o papel do intelectual como o de crítico. correndo o risco de desembocar na observação segundo a qual ‘o conceito de intelectual de direita é contraditório em sua essência’. (Bon e Burnier apud Sirinelli, 1996, p.256). O autor assinala que no pré Guerra, os intelectuais de direita eram estatisticamente e ideologicamente dominantes. A rigor, o autor defende que historicamente a participação dos intelectuais de esquerda no Estado francês foi mais recorrente do que em outros contextos, colocando um ponto interessante para a História Política. O que leva-o à questão da participação política destes intelectuais na comparação de seus movimentos de idéias e o perfil político do Estado.

O autor salienta outro mal-entendido: mais do que a posição ideológica deve ser ressaltado a localização dos intelectuais, seus movimentos e deslocamentos dentro das esferas que transitam, afirmando que:

Na verdade, na fronteira entre a história das idéias políticas, evocadas em outro capitulo, e a historia dos intelectuais, um vasto campo de pesquisa, o da aculturação dessas idéias no meio dos intelectuais, se abre ao pesquisador. E a exploração desse campo se fará pela reinserção destas idéias no seu ambiente social e cultural, e por sua recolocação em situação num contexto histórico. (…) Por que algumas ‘ideologias’ – ao mesmo tempo princípios de inteligibilidade e elementos de identidade para os intelectuais – se aclimatam no meio intelectual, adquirem vigor em certos terrenos e se enfraquecem em outros momentos? (Sirinelli, 1996, p.258)

O autor fecha com a proposta de um caminho inverso: trata-se de se perguntar como as idéias vão da intelligentsia à sociedade civil e seus sobressaltos na comunidade nacional e pela cultura política da época.

Estas duas propostas segundo o autor, com relação as influencias do intelectual na sociedade, tocam em um assunto de fundamental importância, que é o da responsabilidade do intelectual. Segundo o autor, ao contrario do que se tem como imagem, os intelectuais muitas vezes erraram. Desta forma, o critério de analise não pode girar em torno de maniqueísmo. Outro problema é o ‘sacrifício político’ indicado a tal grupo pelos seus ideais, como se fosse prerrogativa política apenas do mesmo, argumento que também legitima a confusão de que estes sintetizam as opiniões e assim propõe a solução mais correta. O autor mostra que ao contrario, na maioria das vezes, o que se tem desta perspectiva critica não é a razão, mas sim grandes porções de atividade na defesa de suas idéias. Sobre o grande problema ensejado pelo tema o autor conclui que o historiador dos intelectuais não tem que ter como objetivo nem construir um panteão e nem cavar uma fossa comum.

Conclui que o caminho seria destrinchar as relações entre ideologias dos intelectuais e a cultura política da época. Levando em conta a natureza do objeto que estaria vinculada a meta política, correspondente aos confrontos ideológicos e políticos, as disputas eleitorais sobretudo:

Entre o coro dos intelectuais e a peça cheia de ‘clamor de fúria’ que é representada na rente do palco, urdiram-se relações complexas, cuja observação toca o âmago do político e faz, portanto, dessa história dos intelectuais uma história a seguir, em todos os sentidos do termo. (Sirinelli, 1996, p.262)

Sugere para desfecho proceder a uma história intelectual em três níveis, sendo responsável por uma nova história global e da França ao analisar a correlação das idéias dos intelectuais e os programas políticos.

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RÉMOND, René. As Eleições in: RÉMOND, René. Por uma história política: Rio de Janeiro: Ed. UFRJ/Ed. FGV, 1996.

Qual a importância do estudo das Eleições no campo da História Política? Quais foram os primeiros estudos? Quais as principais problemáticas tratadas? Quais as novas possibilidades de abordagem na historiografia política?

A relação da História com as Eleições, o papel dos historiadores no estudo sobre o fato eleitoral, como se estabeleceu este campo na França a partir da instituição da República, as principais obras, os principais temas, são algumas questões que René Remónd se pretende a refletir neste texto. Em suas palavras: ‘(…) avaliar a contribuição da dimensão histórica ao estudo das eleições e à compreensão dos comportamentos eleitorais.’ (Rémond, 1996, p.37)

Para tanto, a primeira discussão apresentada pelo autor é relativa a seus pressupostos quanto ao que diz respeito ao que seria o historiador. Segundo o autor historiador seria aquele que pertence manifestamente à corporação dos historiadores, fazendo jus as suas instituições, pelo diplomas que obtiveram, mas que mesmo a demasiada importância das distinções corporativas, na revisão apresentada sobre a relação entre os estudos sobre eleições e a História, o autor seria injusto se restringisse a apresentação de obras apenas a especialistas comprovados.

A partir desta consideração, o autor mostra que o primeiro tema que chamou atenção de trabalhos históricos sobre eleições na França, foi a análise dos resultados dos sufrágios universais para avaliar a composição de forças no poder. Neste caso o livro citado é de François Goguel sobre partidos políticos na Terceira República cujas relações de força foram analisadas entre dois grandes blocos, o da Ordem e o do Movimento.

O autor procede, então, uma análise da antiguidade e continuidade do fenômeno eleitoral para avaliar o que foi que causou o interesse dos historiadores para o fenômeno. O primeiro ponto chamado atenção pelo autor foi o papel decisivo que as eleições tinham no regime a partir do reconhecimento da opinião pública como a responsável pela legitimação do poder. Além disto, o fenômeno seria responsável por uma periodização da vida política na medida em que analisado de acordo com a existência ou não dos pleitos.

Deste interesse geral, doravante veio análises mais especializadas, onde o principal tema fora: ‘acompanhar de perto a cronologia das consultas eleitorais, por sufrágio restrito e universal, discriminando seus resultados na distribuição das cadeiras na Câmara dos Deputados ou no corpo legislativo, e calculando as conseqüências sobre a relação de forças e a estabilidade das instituições.’ (Rémond, 1996, p.39)

Nesse sentido, os estudos ainda estavam voltados às eleições e sua relação com o poder instituído; como estas se relacionavam com o funcionamento do poder? Assim os estudos se centravam, sobretudo, nas conseqüências, o que elas modificavam depois no equilíbrio de forças no poder, são exemplos de problemas: ‘A relação entre maioria e oposição, a composição dos governos e até mesmo, ocasionalmente, o funcionamento das instituições ou a duração dos regimes. (Rémond, 1996, p.40)

Segundo o autor, esta perspectiva foi alterada na medida em que entraram em cena as eleições como um objeto revelador do ‘espírito’ da opinião publica. Um interesse pelo o que ela representava em termos de correntes e tendências tanto quanto o que resultava das eleições. Cita então o trabalho de André Siegried, sobre a divisão geográfica das opiniões na França a partir da análise das eleições, o que se chamou então de ‘temperamento político regional’. Nesta esteira segue-se o trabalho de Seignobos a partir de uma análise detalhada da distribuição da direita e da esquerda por região. Ao que o autor caracterizou que a historia das consultas eleitorais que daí em diante passou a confundir-se com o que se caracterizou como a geografia eleitoral. Assim a análise das eleições tinha como centro a estabilidade, esta na perspectiva de mudanças com o objetivo de investigar as causas profundas destas permanências que constituíram um grande desafio para aqueles historiadores.

Caracterizado este primeiro momento o autor passa a falar de uma nova geração de Historiadores: A geração dos anos 50 na França, que foi caracterizada por Rémond pelo estudo do Estado focado a partir da análise de Departamentos; além de não se restringir apenas a dimensão política, buscando encontrar nas estruturas sociais e econômicas a chave da evolução política. Entretanto, mesmo deixando o fenômeno político com centro da explicação, este grupo teve como mérito a ampliação dos estudos a partir da produção de dados setorizados. Descendo a análise, às vezes, aos níveis municipais que seriam então uma novidade na época. Afirma Rémond que buscavam uma relação entre comportamentos eleitorais e outro tipos de atores. Percebe-se, pois, já uma intenção de identificar as circunstâncias do voto.

O autor prossegue sua apresentação mostrando, um deslocamento desta perspectiva que coloca de novo no centro da discussão a amplitude do fenômeno eleitoral que não estaria reduzido a explicação por meio de uma causa única. Concluindo que: ‘As mesmas causas geram, segundo as regiões analisadas, efeitos contrários, enquanto, uma mesma orientação política pode muito bem aparecer, em duas regiões distintas, como conseqüência de atores opostos. De todas as correlações consideradas e observadas, a mais estável continua sendo entre as opiniões políticas e crenças religiosas: se ela não é explicativa, ao menos tem uma virtude vaticinadora (Rémond, 1996, p.43) Uma consideração importante de Rémond sobre a explicação dos comportamentos políticos, verificada a partir da análise das eleições por esta perspectiva de estudo dos Departamentos, é que a explicação deve ser procurada no passado, no passado mais remoto. A pergunta que se então é: ‘A maioria desses trabalhos – será porque se inscrevem no quadro geográfico de departamentos onde o peso do eleitorado rural é superior ao das cidades? – se dedica à permanência dos comportamentos políticos e à estabilidade dos votos. (Rémond, 1996, p.43)

Assim o autor começa a mapear as mudanças a partir dos anos 60, argumentando que esta perspectiva departamental perde o fôlego à medida que cresce em número de pesquisas, devido ao ceticismo quanto à possibilidade de explicação dos comportamentos políticos e que coincide neste momento o eclipse da História política como um todo e o nome de Seignobos desaparece de cena, segundo o autor, um índice indicativo do declínio da História Política.

Depois deste declínio, o retorno da história política vem acompanhado do peso do método quantitativo a partir da depuração e análise de grandes amostras, considerando o papel do político como decisivo em muitos outros domínios. A justificativa do método quatitativo pelo autor estaria quando pergunta-se sobre que fenômeno se presta melhor a uma abordagem estatística e envolve mais indivíduos que a prática eleitoral? (Rémond,1996, p.45)

Deste modo, além destes avanços no que diz respeito ao método amparado em análises estatísticas, o estudo das Eleições pela História, passou ainda a contar com a discussão de outras disciplinas, o interesse pela longa duração, sem perder de seu ponto de vista os procedimentos, a perspectiva e a problemática orientada historicamente. Segundo o autor esta ultima fase ainda não se encerrou restando o entendimento de algumas outras possibilidades de análise. O programa de pesquisa assim descrito por Rémond estaria em refazer a História das Eleições aplicando às eleições do passado os métodos, conceitos e critérios elaborados pela ciência política em suas consultas contemporâneas.

O autor finaliza seu texto, desenvolvendo algumas sugestões diretamente ligadas à história política tentando trazer ao eixo de reflexão dos historiadores, as conseqüências da eleição, o fenômeno eleitoral em si, sugerindo o estudo das eleições para senadores, justificado por ser índice de um lócus de grande intriga da classe política. Ressalta que outro aspecto a ser incluído ao estudo da História das Eleições também seria as campanhas eleitorais. Segundo Rémond: ‘A campanha eleitoral é parte integrante da eleição, é seu primeiro ato. Não apenas a manifestação das preocupações dos eleitores ou a explicação dos programas dos candidatos e dos temas dos partidos é a entrada em operação de estratégias, a interação entre os cálculos dos políticos e os movimentos de opinião. Sobretudo, ela modifica cada dia as intenções e talvez as relações de forças. (Rémond, p.49)

Conceitos políticos: eleições, comportamentos eleitorais, opinião pública, sufrágio universal, legitimação do poder, maioria, oposição, composição dos governos, campanha eleitoral.

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René Rémond

RÉMOND, René. Uma História Presente in: RÉMOND, René. Por uma história política: Rio de Janeiro: Ed. UFRJ/Ed. FGV, 1996.

Qual a importância da História Política? Mais especificamente qual a importância que este campo de investigação oferece na contemporaneidade? Quais os principais questionamentos, objetos, métodos da História Política?

O texto de René Rémond reflete sobre o retorno da História Política como um campo profícuo de investigação, levando em consideração os ataques que a mesma sofreu durante o Pós-Guerra por parte da História Social e Econômica, que alegavam a superficialidade da mesma. O autor parte do pressuposto que a História tem como objeto precípuo as mudanças que afetam a sociedade, e que tem por missão propor explicações para elas, não escapando ela própria à mudança. (Rémond, [1988], 1996, p.13) Assim o autor propõe uma história da história dentro de limites, pois esta mesma carrega o rastro das transformações da sociedade para evidenciar a importância da História Política e justificar seu retorno como um campo legítimo do conhecimento historiográfico.

O autor adota uma perspectiva sobre o que significa a emergência de um tema, objeto ou de uma teoria explicativa. Segundo o autor, as descobertas ou modas intelectuais se dão a partir da conjunção de diversos fatores: Tanto sobre o impulso de uma personalidade excepcional, como a partir da irradiação de uma obra mestra ou ainda a convergência destes e outros vários fatores convergentes.  Penso que estas são as formas de manifestação do fenômeno que estariam ligadas, sobretudo, a uma relação dialética entre a própria comunidade científica e a sociedade. Em outras palavras ao que René Rémond se reportou ao fazer a relação entre a história da disciplina e as transformações da sociedade logo acima.

Com efeito, Rémond mostra que a operação de uma moda e uma descoberta implica, muitas vezes, no esquecimento de outro ramo; mesmo salientando que nunca é possível livrar-se efetivamente da herança anterior. Para o caso apresentado pelo autor: ‘Era, pois, provavelmente inevitável que o desenvolvimento da história econômica ou social se fizesse às custas do declínio da história dos fatos políticos, daí em diante lançada num descrédito aparentemente definitivo. (Rémond, [1988], 1996, p.14)

Um fato importante ressaltado pelo autor é que para avaliar as causas, as possibilidades e a significação deste retorno da história política, os autores da coletânea, de qual este texto é o de abertura, utilizaram a perspectiva temporal. Define então um pressuposto epistemológico, ou seja, uma perspectiva para o conhecimento histórico: Trata-se da explicação dessas oscilações dada pela relação entre a realidade observada (Arquivo, passado via testemunho) e o olhar que observa (Teoria, presente via problemáticas).

O que é História Política definida anteriormente, mas que ainda guarda ressonâncias com as pesquisas atuais: É a História do Estado, do poder e das disputas por sua conquista ou conservação, das instituições em que ele se concentrava, das revoluções que o transformavam.

Um dos pontos ressaltados pelo autor para proeminência da História política durante o início da Historiografia moderna, talvez, seria a facilidade de acesso às fontes. Essas informações eram dadas deliberadamente por parte do Estado que deixava vestígios escritos e vasta documentação. Uma das perguntas do historiador, no entanto, é perguntar o por quê? Outra explicação é para o tipo de brilho que o Estado emanava naquela ocasião.

Logo após falar sobre a proeminência que a História Política teve no início da Historiografia, o autor começa a relatar as críticas que o campo passou a sofrer. Estas criticas se situavam, segundo o autor, em uma verdadeira controvérsia sobre a natureza das verdadeiras realidades sociais. Surge assim a perspectiva das longas durações, que deendia que o acontecimento ou os acidentes de conjuntura, ênfase da História Política, não comportavam o âmago da realidade. Daí vem uma questão que atravessa todas as ciências sociais: O individualismo metodológico ou o holismo metodológico. Pois, nas palavras de Rémond:

Seus pressupostos eram que os comportamentos coletivos tinham mais importância para o curso da história que as iniciativas individuais, que os fenômenos registrados numa longa duração eram mais significativos e mais decisivos que os movimentos de fraca amplitude, e que as realidades do trabalho, da produção, das trocas, o estado das técnicas, as mudanças da tecnologia e as relações sociais daí resultantes tinham mais conseqüências, e, portanto, deviam reter maior atenção dos observadores, que os regimes políticos ou as mudanças na identidade dos detentores de um poder cujas decisões, segundo se entendia, só faziam traduzir o estado das forças sociais, ou refletir realidades anteriores às escolhas políticas. (Rémond, (1988), 1996, p.16)

Acompanhado desta crítica, seguiu-se outra com relação à dimensão científica, à perspectiva biográfica e à cronologia dado que o acontecimento tem a ver com a ação dos indivíduos. Além de uma reflexão sobre os verdadeiros atores da história, seus personagens, os governantes ou as multidões e coletivos? Alguns exemplos sobre estas teorias para explicação da sociedade e da ação dos indivíduos, o autor salienta o peso que alguns autores como Marx e Freud tiveram no início do Século XX. Estes autores mostraram que as ações dos indivíduos seriam moldadas por interesses de classe e que a luta de classes seriam o verdadeiro motor da história. Para Freud, colocando em plena luz o papel do inconsciente atribuindo a libido, às pulsões sexuais, grande parte de responsabilidade pelos comportamentos individuais ocultou a ambição e o apetite de poder próprios do político.

René Rémond afirma que as críticas no contexto social tinham a ver com o advento da democracia política e social e do socialismo que voltavam à história para as massas. O autor, então, assim caracteriza as sociedades contemporâneas como relação à política:

Nas sociedades contemporâneas, a política organiza-se em torno do Estado e estrutura-se em função dele: o poder do Estado representa o grau supremo da organização política; é também o principal objeto de competições. Ora, a noção de Estado esta há meio século exposta ao fogo de uma critica que não se contentou como a critica liberal, em denunciar a ameaça que ele podia fazer pesar sobre as liberdades essenciais, mas que lutou contra sua própria realidade, contestando que ela existisse por si mesma. Rompendo com a tradição herdada do direito romano, que erigia o Estado em árbitro soberano acima dos interesses particulares, e contrariando o ensino de teologia, que o tratava como defensor imparcial do bem comum, os críticos modernos proclamam que ele não é nem soberano nem imparcial: é sempre açambarcado e não tem independência efetiva nem existência efetiva. O Estado jamais passa de instrumento da classe dominante; as iniciativas dos poderes públicos, as decisões dos governos são apenas a expressão da relação de forças. Ater-se ao estudo do Estado como se ele encontrasse em si mesmo o seu principio e a sua razão de ser é, portanto, deter-se na aparência das coisas. Em vez de contemplar o reflexo, retomemos à fonte iluminosa: ou seja, vamos de uma vez à raiz das decisões, às estratégias dos grupos de pressão. Eis por que os historiadores e sociólogos se desviaram da observação do Estado. Alain Touraine chegou a dizer com razão que há 30 anos se lançou uma interdição na historiografia e nas ciências sociais ao estudo do Estado. (Rémond, (1988), 1996, p. 20-21)

Destarte, o autor encerra sua apresentação sobre as críticas à História Política para iniciar sua reflexão sobre o (re)surgimento da História Política a partir dos anos 60 ou 70. Perguntando-se se trata de uma moda ou de um aprofundamento do objeto de conhecimento histórico. Afirma o autor que estas transformações são da mesma ordem quando diz respeito à realidade e à percepção que se interelacionam. (Rémond, p. 22) Assim para o retorno do político, demonstra-se que os efeitos da Guerra não são explicados somente por causas econômicas ou momentos de crises quando uma ideologia reservada à, por exemplo, nacionalizar as empresas, como um fenômeno político, tem conseqüências incalculáveis à economia. Outro fato fundamental para o retorno do interesse sobre o político apontado pelo autor foi a ampliação do Estado e, por conseguinte, dos fatos políticos. Deu-se também a crítica da ação política como simples decalque de interesses profissionais, salientando as causas múltiplas que envolvem o fenômeno.

Outros aspectos abordados pelo autor foi o aumento do papel da opinião pública e contestando uma teoria da despolitização, justificada pelo desenvolvimento do jornalismo político próximo da ciência política e o aparecimento do gênero de livro político. Contudo, o autor também menciona o problema do excesso, como o perigo de agora tudo passar a ser político e o ‘Maio de 1968’ como um grande responsável pela recondução do político para o primeiro plano da reflexão.

Dada conjuntura externa René Rémond concentra-se então na tentativa de compreender os fatores internos. Destaca grandes nomes da historiografia política francesa como Charles Seignobos, André Siegfried: O primeiro com suas contribuições nos estudos sobre a diversidade dos ‘temperamentos políticos’ e a antiguidade de seu enraizamento; e, para o segundo, a ‘geografia eleitoral’. Mais contemporaneamente o trabalho de Jean-Jacques Chevallier com e sua abordagem sobre o renascimento das idéias políticas, das instituições, correntes de pensamento e personalidades.

Ainda sobre relativo à historiografia o autor reflete sobre a relação do político como campo de investigação e as contribuições de outras disciplinas.  Um dos exemplos foi a aproximação com a matemática por parte dos historiadores para o processamento de dados estatísticos e a historia quatitativa. Com relação à ciência política um dos temas importantes tratados por ela e que os historiadores se atentaram foi a abstenção, o oposto a participação política. Relativo as instituições freancesas responsáveis por este renascimento do político estariam a VI seção da Ècole Pratique des Hautes Études em Sciences Sociales e A Fondation Nationale des Sciences Politiques.

O político como um importante fenômeno da realidade social estaria atestado por sua generalidade, mesmo considerando o alistamento Militar, o pagamento de impostos, a originalidade da prática eleitoral é ainda o que continua inteiramente livre. (Atentar-se que este caso é para a História Francesa, levando em consideração que no Brasil o voto é obrigatório como previsto pela Constituição de 1988)

Em resposta ao político como um fenômeno breve o autor estabelece uma tipologia com relação a uma temporalidade próprio dos objetos de estudo da História Política como, por exemplo, os dias, para os Golpes de Estado, dias de revolução, decisões ministeriais como a curta duração, uma duração média que teria como exemplo a história dos partidos e, por fim a longa duração com o estudo sobre as ideologias políticas. A definição única segundo o autor é derivada de uma definição estreita do político, se ele não estiver vinculado a outras dimensões da vida coletiva e dos outros aspectos individuais.

O autor concluiu que: ‘Abraçando os grandes números, trabalhando na duração, apoderando-se dos fenômenos mais globais, procurando nas profundezas, da memória coletiva, ou do insconscirnte, as raízes das convicções e as origens dos comportamentos políticos, a história política descreveu uma revolução completa. Como acreditar que seu renascimento possa ser apenas um veranico de maio? (Rémond, (1988), 1996, p. 36)

Conceitos políticos: Política, Estado, poder, democracia, socialismo, massas, governantes, governados, sociedade, ação política, opinião pública, sistemas partidários, abstenção, participação política, fatos políticos, processo eleitoral, comportamento político.

Vertentes da História política: história conceitual do político; culturas políticas; trajetórias e biografias; história das idéias políticas; linguagens políticas; história das palavras e dos conceitos; representações e imaginário político.

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