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Posts Tagged ‘Intelectuais’

Seguem abaixo alguns comentários sobre artigos lidos na Revista de Cultura e Política Lua Nova, produzida no CEDEC, disponível no Scielo. (Centro de Estudos de Cultura Contemporânea)

Apresentação

Lua Nova (ISSN 0102-6445) tem por objetivo fazer a alta reflexão de temas políticos e culturais, contribuindo assim para elevar o nível intelectual do debate público. Em suas páginas, o leitor vai encontrar elaboradas incursões nos campos da teoria política (clássica e contemporânea), da teoria social, da análise institucional e da crítica cultural, além de discussões dos assuntos candentes de nosso tempo. Entre seus colaboradores típicos estão intelectuais, docentes e pesquisadores das diversas áreas das Ciências Humanas, não necessariamente vinculados a instituições acadêmicas.

Os artigos publicados em Lua Nova estão indexados:
• no Brasil, no Data Índice
• na América Latina, no Citas Latinoamericanas en Ciencias Sociales y Humanidades (CLASE ) e na Red de Revistas Científicas de América y el Caribe, España y Portugal (Redalyc)

A versão eletrônica da revista está disponível na Scielo e no portal da CAPES.  (Fonte: http://www.cedec.org.br/)

1.HALL, Peter A.; TAYLOR, Rosemary C. R.. As três versões do neo-institucionalismo. Lua Nova,  São Paulo,  n. 58,   2003 .

Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-64452003000100010&lng=pt&nrm=iso&gt;. acessos em  30  maio  2010.  doi: 10.1590/S0102-64452003000100010.

Professor de Ciência Política e pesquisador do Center for European Studies da Harvard University

Professora de Sociologia e de Saúde Pública na Tufts University e pesquisadora associada no mesmo Centro em Harvard

O artigo faz um grande apanhado sobre uma perspectiva teórica que a partir dos anos 80 tornou-se modelo chave da explicação da Ciência Política. De influência norte-americana e de onde os dois autores do artigo também são fazem um apanhado deste campo teórico partindo de uma importante premissa de meu ponto de vista muito importante que é destacando a variedade de um campo teórico que na maioria das vezes quando criticado é definido como de uma linha apenas.

Os autores assim apresentam o neo-institucionalismo em pelo menos três perspectivas que trarei sumariamente neste pequeno comentário. Trata-se do institucionalismo histórico, o institucionalismo da escolha racional e o institucionalismo sociológico. Ambos têm em comum trazer para a análise uma idéia de sistema que define certo campo de previsão das ações dos indivíduos escritos em uma dinâmica processual entre suas escolhas e o peso das instituições nestas. As perspectivas variam segundo cada corrente que são divididas pelos autores a partir de uma ênfase ‘calculadora’ e outra com uma ênfase ‘culturalista’. Ambas reduzidas à prática da ação social orientadas a fins como descritas por Weber para a ação burocrática. Deve-se considerar, portanto, que tais modelos analíticos são utilizados na análise do comportamento político em instituições como Congressos Nacionais, organizações, empresas definindo o foco de estudo da ciência política.

Acredito que a ênfase do institucionalismo histórico utilizado na historiografia pode ser proveitoso ao considerar as trajetórias das instituições como uma das variantes da explicação de suas origens e mudanças, deixando um suposto anacronismo presente no institucionalismo da escolha racional que trás um pressuposto do homem moderno como o modelo de um homem universal e a – histórico. Contudo, aplicado ao contexto de sua origem, os Estados Unidos, a explicação das ações políticas dirigidas pelo cálculo da optimização e maximização da satisfação das preferências dos atores, me parece bastante instigante. Para o caso da mudança e origem das instituições defendem que as instituições seguem por uma economia das transações.

E por último, o institucionalismo sociológico da ênfase a uma espécie de ‘culturalismo’ pelo qual, outras variáveis são aplicadas para a análise da ação política dos indivíduos, mais do que a teoria das escolhas, ou a perspectiva da trajetória das instituições, este último sugere que as instituições devem ser vistas como práticas culturais, como ritos. O que explicaria o sentido que estas conferem a ação dos indivíduos e explicam sua renovação, aproximando ‘instituições’ de ‘cultura’.

2.THERET, Bruno. As instituições entre as estruturas e as ações. Lua Nova,  São Paulo,  n. 58,   2003 .

Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-64452003000100011&lng=pt&nrm=iso&gt;. acessos em  30  maio  2010.  doi: 10.1590/S0102-64452003000100011.

Pesquisador do IRIS e do CNRS

Este artigo trata da divisão tripartite do neo-institucionalismo em três disciplinas: a ciência política, a economia e a sociologia, particularmente, no caso francês. As definições do primeiro campo a ciência política seguem o texto anterior de Hall e Taylor.

O institucionalismo na economia e tomado por Bruno a partir do caso Francês. A primeira aproximação que este faz é a do institucionalismo da escolha racional e a Nova Economia Institucional sendo o desdobramento desta última a variação da primeira na Ciência Política. Na História econômica este pensamento também é utilizado além da Cliometria.

Aproxima a economia das convenções ao institucionalismo sociológico pela ênfase no aspecto cognitivo das instituições na sua relação com os comportamentos. Recusando a idéia que as instituições existem apenas a partir da questão da eficiência. Estas duas se distanciam do institucionalismo histórico a não levarem em conta as questões de poder e de disputa bem como o peso da origem e a formação das instituições em seu papel no processo decisório.

O institucionalismo histórico, segundo o autor, em economia, estaria próximo da teoria da regulação, destacando o caráter das instituições como mediadora de conflitos, desconsiderado pelas abordagens anteriores.

Por fim o autor vai discutir os institucionalismo em sociologia. Os três institucionalismo em sociologia corresponderiam a uma crítica ao funcionalismo mais perto do institucionalismo sociológico. O segundo mais próximo de um pólo subjetivista e de virada da sociologia para a microsociologia próxima da teoria da ação racional (institucionalismo das escolhas racionais) e o ultimo o institucionalismo história mais próximo de uma sociologia cultural e histórica de perspectiva comparada. Segundo o autor a segunda perspectiva não teve muito aceite entre os sociólogos justamente pelo paradoxo que ela envolve ao constranger o próprio sentido da disciplina sociologia.

O autor fecha com a mesma questão do artigo anterior se se aproximariam estas três perspectivas com uma resposta menos positiva que a de Hall e Taylor. Segundo o autor trata-se de um ponto médio entre as três que se aproximariam na definição do que seja a própria instituição.

3.BENEVIDES, Maria Victória de Mesquita. 1964: um golpe de classe? (Sobre um livro de René Dreifuss). Lua Nova [online]. 2003, n.58 [citado  2010-05-30], pp. 255-261 .

Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-64452003000100012&lng=pt&nrm=iso&gt;. ISSN 0102-6445.  doi: 10.1590/S0102-64452003000100012.

O artigo trata de uma releitura da tese de René Dreyfuss do Golpe Militar como um golpe de classe organizado por uma elite empresarial, o exército e interesses estrangeiros contra o governo populista de João Goulart tendo como base o complexo IPES/IBAD como núcleo ativo e articulador do Golpe. O grande paradoxo deste apoio foi a relação de descrença do empresariado com os rumos que tomaram a política de desenvolvimento durante a ditadura de cariz estatizantea atestado pela fala do udenista histórico Afonso Arinos.

A autora então analisa como a perspectiva militar se aproximou de uma visão de Estado pela qual a perspectiva de Dreifuss orientada por uma visão do Estado como representante do interesse da classe dominante se mostrou um pouco saliente.

Encerra seu artigo fazendo uma apreciação da obra como um todo de bom diagnostico sobre as malhas do poder no Brasil a partir de Juscelino Kubstscheck, além de se ater a criticas pontuais com relação às notas e estruturação do texto devido a extensão do mesmo.

4.BOTELHO, André. O poder ideológico: Bobbio e os intelectuais. Lua Nova,  São Paulo,  n. 62,   2004 .

Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-64452004000200006&lng=pt&nrm=iso&gt;. acessos em  31  maio  2010.  doi: 10.1590/S0102-64452004000200006.

O artigo problematiza a noção de intelectual a partir da obra de Bobbio. Atravessa questões como qual o papel do intelectual na sociedade, se deve ele intervir em assuntos políticos. O autor recorre a autoras como Elide Rugai Bastos e Walkíria Leão Rego em muitos de seus argumentos.

Destaca o papel que os intelectuais tiveram para a constituição do mundo moderno entendendo este como autônomo de valores tradicionais, além de mostrar como há um poder especifico dos intelectuais. Segundo Bobbio, seria o poder ideológico, a partir do papel da transmissão de conhecimento, de visões de mundo, de símbolos, poder diferente do econômico e do político propriamente dito.

O autor então articula quatro premissas da relação entre cultura e política mediada pelos intelectuais segundo Bobbio. O primeiro ponto é a falta de presença dos intelectuais na política propriamente dita, entendendo que em um estado democrático a política é feita por partidos e não por revistas.

Há uma grande separação entre o entendimento dos intelectuais como uma classe iluminada e o exercício da opinião política na ordem democrática, para o que Bobbio chama atenção que em países como a Inglaterra estes intelectuais não se arrogam a tanto, como sujeitos de uma qualificação política excepcional. A diferença da caracterização de Bobbio com relação a sociologia e história dos intelectuais é a questão da ética que seria a ênfase do autor , conforme apresenta.do no texto. A grande definição de Bobbio neste texto é a cultura e a política como esferas autônomas e interdependentes. Tendo como conseqüência a não necessária politização de tudo, posição defendia por Bobbio.

O autor segue a classificação de Bobbio para os intelectuais em expertos e ideólogos a partir dos modelos weberianos de ‘ações racionais orientadas por valor’ e ‘ações racionais orientadas por um fim’. Com uma conclusão muito interessante relativa ao papel sócio-histórico dos intelectuais, fornecida para análise sobre o sentido político da ação do intelectual em uma sociedade: ‘Nesse sentido, e ainda de modo congruente às sugestões de Bobbio, é possível dizer que tanto o “trabalho do intelectual, independentemente das suas convicções, ou intenções explícitas, entra na história das lutas sociais, arranjos do poder” (Ianni, 1989, p. 77), quanto as ações políticas não são, empiricamente consideradas, “sempre genuinamente motivadas pelos princípios usados para racionalizá-las” (Skinner, 1999, p. 85). (Botelho, 2003)

O autor então faz um apanhado sobre o papel dos intelectuais no Brasil. O mais interessante são as referências  para o caso brasileiro quanto ao trabalho de Winock, Leão Rego, Brandão e Skinner que são os que particularmente mais me interessam. Além de trabalhar com as duas éticas na Política como Vocação de Weber.

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SIRINELLI, Jean-François. Os intelectuais in: RÉMOND, René. Por uma história política: Rio de Janeiro: Ed. UFRJ/Ed. FGV, 1996.

Na História política qual o papel desempenhado pelos intelectuais? Quem são os intelectuais? Quando surgiu o interesse pelo estudo do comportamento político dos intelectuais? Quais as abordagens que foram feitas sobre o assunto em Historiografia e em Ciência Política? Quais as novas propostas e desafios de pesquisa?

É com estas perguntas que o texto de Sirinelli se ocupará dentro do campo da História Política. Um importante destaque sobre o tema, dado pelo autor, é o espaço que os intelectuais ocuparam na política francesa durante o século XX. Nesse sentido, o autor leva em consideração que a coletânea da qual faz parte esta conferência,  tem como escopo de pesquisa a Política de perspectiva histórica, especialmente na França, país de origem de seus organizadores.

Sirinelli destaca então uma das primeiras iniciativas contemporâneas responsável pelo reaparecimento do tema, foi ela: uma mesa-redonda da Association Française de Science Politique, com o tema ‘Os intelectuais na sociedade francesa contemporânea’ e que resultou em alguns artigos publicados na RFSP – Revue Française de Science Politique. Nesta revista publicaram historiadores como Louis Bodin, Jean Touchard e René Rémond que destacavam a importância do estudo dos intelectuais na política. René Rémond, particularmente, salientando a necessidade de que este tema deveria ter por si só um campo de estudo.

O autor analisa o descompasso dos Estudos Históricos com relação à sociologia e a ciência política, no que diz respeito a esta temática, considerando os anos 60 e a crise na Argélia. Neste período intelectuais franceses participaram abertamente da questão. Outro dado contextual ressaltado pelo autor é o retorno da História Política que tinha ficado em campo marginal até os anos 60, mas que com o surgimento do interesse pelas duas Grandes Guerras, retornou à cena.

Mencionando os estudos de Jacques Le Goff sobre os intelectuais na Idade Média; de Bernard Guenée e as histórias modernas de Robert Mandrou; Daniel Guenée e Robert Darnton; o autor ressalta os recortes destas pesquisas no campo da História Social e Cultural, o que não satisfazia plenamente as lacunas colocadas ao tema pela História Política. Sirinelli então conclui que as causas dos intelectuais terem deixado de ser motivo de pesquisas, teria sido muito mais por uma questão de ausência de olhar do que de descrédito, mas que recentemente tem se constituído quase como um campo autônomo nos cruzamentos entre a História Cultural, a História Social e a História Política.

Outro aspecto para o qual o autor chama atenção, é o fato de que vários outros atores políticos já foram estudados pela historiografia, mas isto não se confirma no caso dos intelectuais. A pergunta que se segue é sobre os intelectuais como um sub-objeto da História. Os problemas com relação a esta posição são referendados pelo autor a partir da afirmação da subalternidade da História Política, da História do Tempo Presente no campo da História; e, nesse sentido, o tema atravessa os dois campos simultaneamente, além do que envolve o próprio pesquisador, na medida em que ele também é um intelectual. Com relação ao ostracismo da História Política, os argumentos são parecidos com o levantamento da coletânea, mas a respeito da História do Tempo Presente uma causa interessante é levantada pelo autor, trata-se de:

Daí afirmar que ele corre o risco de se queimar no fogo mal extinto dos grandes debates das últimas décadas faltava apenas um passo, dado com facilidade por aqueles que negavam ao historiador o direito de chegar até as bordas do último meio século, vasto continente deixado em repouso como um alqueive ou abandonado aos ‘jornalistas’ da ‘história imediata’. Para aqueles que o desprezavam, o historiador do contemporâneo, obrigatoriamente ligado por múltiplas fibras ao ambiente que o cercava, só podia entregar-se a jogos de memória, logo transformados em jogos de espelhos deformantes (Sirinelli, 1996, p. 234)

O destaque para a memorialística, como campo de investigação para o imediato, no caso da afirmação de Sirinelli, deu-se pela correspondência das ações do presente orientarem uma interpretação do passado e, doravante, tornar-se bastante interessante como eixo de investigação.

Dando prosseguimento a estas causas da marginalização dos intelectuais como objeto de pesquisa na História Política, Sirinelli ainda levanta outras causas como: o fato dos intelectuais se constituírem como um grupo social pequeno; à acusação de impressionismo por pertencerem ao mesmo campo que investigam; ao fato do interesse da Historiografia pelas ‘massas’, pela qual os intelectuais não participavam primeiro por ser um grupo restrito e depois por pertencer às ‘elites’.

Outros motivos além destes anteriormente levantados, apontados pelo autor, seriam a ação política dos intelectuais inscritas na curta duração, onde o mote das investigações na Historiografia canônica centrava-se nas médias e longas durações e, em segundo lugar, a questão do ‘poder’; através da pergunta sobre se realmente estes teriam influído nos acontecimentos.

Segundo o autor, esta crítica baseia-se em um mal-entendido entre a história dos intelectuais e a história das idéias políticas, assim como da história da cultura política: Sobre a História das Idéias políticas, seus estudos teriam se acantonados mais no estudo dos grandes compositores do que na história das orquestras e da recepção do público. As perguntas da História dos Intelectuais, por sua vez, são de como as idéias vem a estes intelectuais, como aparecem em determinada data, porque alguns permanecem na penumbra e outros não?

Há uma afirmação fundamental no texto de Sirinelli sobre os motivos dos intelectuais tendo ocupado um campo marginal na História. Trata-se de sustentar que a cultura política é apenas em parte elaborada pelo meio intelectual, com a qual, raras vezes ele está de acordo, afirma o autor (Sirinelli, 1996, p.237). (Nesse sentido uma tradição política compõe um grupo maior que é a cultura política, no meu caso, a cultura política democrática da Nova República). Pode-se pensar a relação entre História Intelectual e História das Culturas Políticas subordinando a primeira à última. O autor ressalta em nota, contudo, que  os domínios destas disciplinas não são estranhos entre si.

A próxima questão tratada pelo autor é sobre o renascimento do tema dos intelectuais na História Política. Segundo o autor, foi na segunda metade da década de 1970 que o tema ressurgiu. Ressurgiu tendo entre suas causas a própria história dos intelectuais e outras como o status da história política e da história recente, como anteriormente já destacado. O autor parece então associar a História Política à abordagem quantitativa, pois situa o interesse dos intelectuais a partir de perspectivas como a abordagem prosopográfica dos itinerários, considerando então o fim de uma das objeções para o estudo deste grupo, tal como por ser de um grupo reduzido. Com relação à aproximação da média duração, o que legitimaria os novos estudos seria a perspectiva de fazer uma história cíclica do engajamento dos intelectuais relativos a esta temporalidade.

Com relação à habilitação da História do tempo presente o autor afirma:

De fato chegou-se a um acordo: Clio está deontologicamente habilitada e metodologicamente equipada para medir o pulso da história de nosso tempo. Se uma história dinâmica é reconhecida pelas pistas que descortina, pelas perguntas que faz e pelas respostas que, aos poucos, consegue dar, é forçoso observar que essa história do fim do milênio forjou conceitos, verificou suas hipóteses e trouxe contribuições. (Sirinelli, 1996, p.238)

Do ponto de vista da relação do pesquisador com o objeto, Sirinelli alerta para pontos como a questão da simpatia. Argumenta que ela percorre o ofício, cabe ao pesquisador assumi-la tanto do ponto de vista positivo como negativo evidenciando-a com o objetivo de avaliá-la. O fato que marcou o anátema da História Política ao postulado Braudeliano sobre a espessura do social como matéria do Historiador em detrimento aos acontecimentos, foi superado tendo como um dos fatos o estudo dos intelectuais na guerra da Argélia ou esclarecendo as gerações de intelectuais que se sucederam na França. (Este tipo de abordagem foi profundamente marcado no Brasil, na área de Sociologia da Cultura, uma das referencias para caracterizar o período dos anos 60, de um engajamento político social dos intelectuais e sua relação com o nacionalismo é o trabalho de Marcelo Ridenti)

Assim o interesse  virou-se para o próprio aumento do grupo durante o século XX e a necessidade de responder a pergunta sobre quem foi determinado intelectual no meio dos ‘ismos’ que apareciam e seus seguidores. O autor sempre menciona a figura de Sartre como um grande líder dos intelectuais. Após responder sobre a real dimensão da ação dos intelectuais na sociedade e estabelecida esta pergunta, o autor parte para evidenciar em termos de processo o aparecimento dos objetivos e métodos desta disciplina.

Uma grande questão para a fundamentação dos objetivos e métodos da disciplina foi a pergunta quem eram os intelectuais? ‘ Um professor primário é um intelectual’? É um oficial? A partir de que posto? É um padre? E alguém que vive de renda? As perguntas partem da narração do autor sobre um ato ocorrido na Maison des Syndicats de Bourges em junho de 1934, sobre a criação do Comitê de Ação Antifacista e de Vigilância. Este problema que o autor caracterizará a partir da ‘compreensão’ e a ‘extensão’ do termo intelectual e que geraria outro problema: de que a resposta ao primeiro termo geralmente é endógena, formulada pelos próprios intelectuais.

Levando em conta os percalços de se estabelecer um critério para definição da palavra e considerando como esta sofreu mutações na sociedade francesa, o autor propõe uma definição:

Por esta última razão, é preciso, a nosso ver, defender uma definição de geometria variável, mas baseada em invariantes. Estas podem desembocar em duas acepções do intelectual, uma ampla e sócio-cultural, englobando os criadores e ‘mediadores’ culturais, a outra mais restrita, baseada na noção de engajamento. No primeiro caso estão abrangidos tanto o jornalista como o escritor, o professor secundário como o erudito. Nos degraus que levam a esse primeiro conjunto postam-se uma parte dos estudantes, criadores ou ‘mediadores culturais’ em potencial, e ainda outras categorias de ‘receptores’ em potencial, e ainda outras categorias de ‘receptores de cultura’. (…) Estes últimos podem ser reunidos em torno de uma segunda definição, mais estreita e baseada na noção de engajamento na vida da cidade como ator – mas segundo modalidades diferentes, como por exemplo, a assinatura de manifestos.  (Sirinelli, 1996, pp.242-243)

O autor conclui que o debate entre as duas definições é na verdade um falso problema, já que os dois elementos são de natureza sociocultural. E neste sentido, o historiador do político deve partir da primeira definição; segundo o autor, em determinados momentos fechar a lente no sentido fotográfico do termo. Essas definições são, contudo, balizadas pelas representações sociais do intelectual que segundo o autor, na sociedade francesa: vão da imagem religiosa dos intelectuais paladinos das grandes causas contemporâneas, até a leitura antiintelectualista de um século XX francês desestabilizado pela ação perniciosa dos intelectuais, fermentos da dissolução nacional e agentes da perversão social. (Sirinelli, 1996, p.244)

Discutido o problema das definições o autor passa a analisar as dificuldades e objeções ao estudo dos intelectuais como atores políticos. (É essa a perspectiva que relaciona suas idéias com a História Política)A categoria como mutável é agravada pela alta de um partido político dos intelectuais. O autor menciona alguns na História francesa como o PSU, o RDR como exemplos de estrutura partidária da intelligentsia. Outra objeção é abundância de documentos tendo em vista que todos intelectuais escrevem muito. Caracterizando assim a pesquisa sobre a História Política dos intelectuais passando obrigatoriamente pela pesquisa, longa e ingrata, e pela exegese de textos, e particularmente de textos impressos. (Sirinelli, 1996, p. 245)

As abordagens são apresentadas pelo autor a partir de conceitos como o de itinerário, geração e sociabilidade. Para o de itinerário objetiva-se desenhar mapas dos grandes eixos de engajamento dos intelectuais, passando pelo gênero biográfico, tanto como pela perspectiva de trajetórias cruzadas, como no caso de Sartre-Aron ou Sartre-Camus. Avaliando o que o autor se refere como os ‘despertadores’ de idéias e suas influências, possibilitada a partir de uma abordagem diacrônica. Desta maneira procura-se analisar a procedência dos intelectuais a partir de seu lugar de formação, alertando, o autor, para que o estudo de itinerários só pode ser feito a partir de interpretação levando em conta os problemas de reconstituição.

O autor faz um comentário das pesquisas de Pierre Bourdieu sobre a posição social das opiniões e dos gostos, mas alerta que as pesquisas não devem estar restritas a análise microsocial, respondendo assim, a contento, sobre o funcionamento do campo intelectual ou as condições de êxito de um determinado intelectual em seu campo. Mesmo que este tipo de análise tenha contribuído, a partir do conceito de ‘estratégias’, para articular as escolhas dos indivíduos não o colocando como mera reprodução das instituições. Ressaltando o papel dos acasos e das contingências e chamando atenção que igualmente determinantes são as sensibilidades ideológicas e cultural que tendem a transcender apenas o campo em questão.

Analisada a questão do escopo de pesquisa oferecido pelos itinerários, o autor passa a analisar a questão da sociabilidade. Esta se constitui em relação aos intelectuais no seio do ‘pequeno mundo estreito’ que dividem em torno da redação de uma revista ou do conselho editorial de uma editora, ressaltando a importância do termo ‘redes’ para captar tal fenômeno. Lá se definem também as posições antagônicas e pela análise destas, sugere o autor, é possível captar o movimento de idéias. O outro meio que o autor designa como estruturas de sociabilidade são os Manifestos. Um importante sensor para captar as opiniões em História Política.

O autor ainda indica que as estruturas de sociabilidade variam no tempo como, por exemplo, a presença dos ‘salões’ na fronteira dos dois séculos. Indicando como meio de análise as solidariedades de origem, de idade, de estudos, bem como levando em consideração os fatores de atração e amizade, a hostilidade, a ruptura, a briga e o rancor. Além deste sentido afetivo as redes também podem ser entendidas a partir de como se interpenetram estes fatores com o ideológico. Análise alguns casos de exemplo como Althusser e Lacan.

O último ponto caracterizado como perspectiva analítica, para encerrar a sessão de metodologia e objetivos da pesquisa dos intelectuais na História Política, é o conceito de gerações. Estas dizem respeito à solidariedade de idade. O exemplo utilizado pelo autor é a Revista dos Annales. Com algumas objeções a abordagem, o autor prossegue justificando seu uso a partir de duas razões: primeiro que no meio intelectual os processos de transmissão cultural são essenciais, pois, um intelectual se define sempre por referencia a uma herança, como intermediação, ou mesmo como ruptura, mas sempre em referencia a algo. A outra com relação ao papel explicativo da faixa etária teria a um fenômeno. O autor exemplifica na participação da intelectualidade no conflito da Argélia, para um posicionamento esquerda-direita neste caso.

Por fim, o autor encerra o texto detendo-se nas expectativas deste campo de estudo. Novamente chama atenção dos historiadores do tema, para o problema de se tomar o papel do intelectual como o de crítico. correndo o risco de desembocar na observação segundo a qual ‘o conceito de intelectual de direita é contraditório em sua essência’. (Bon e Burnier apud Sirinelli, 1996, p.256). O autor assinala que no pré Guerra, os intelectuais de direita eram estatisticamente e ideologicamente dominantes. A rigor, o autor defende que historicamente a participação dos intelectuais de esquerda no Estado francês foi mais recorrente do que em outros contextos, colocando um ponto interessante para a História Política. O que leva-o à questão da participação política destes intelectuais na comparação de seus movimentos de idéias e o perfil político do Estado.

O autor salienta outro mal-entendido: mais do que a posição ideológica deve ser ressaltado a localização dos intelectuais, seus movimentos e deslocamentos dentro das esferas que transitam, afirmando que:

Na verdade, na fronteira entre a história das idéias políticas, evocadas em outro capitulo, e a historia dos intelectuais, um vasto campo de pesquisa, o da aculturação dessas idéias no meio dos intelectuais, se abre ao pesquisador. E a exploração desse campo se fará pela reinserção destas idéias no seu ambiente social e cultural, e por sua recolocação em situação num contexto histórico. (…) Por que algumas ‘ideologias’ – ao mesmo tempo princípios de inteligibilidade e elementos de identidade para os intelectuais – se aclimatam no meio intelectual, adquirem vigor em certos terrenos e se enfraquecem em outros momentos? (Sirinelli, 1996, p.258)

O autor fecha com a proposta de um caminho inverso: trata-se de se perguntar como as idéias vão da intelligentsia à sociedade civil e seus sobressaltos na comunidade nacional e pela cultura política da época.

Estas duas propostas segundo o autor, com relação as influencias do intelectual na sociedade, tocam em um assunto de fundamental importância, que é o da responsabilidade do intelectual. Segundo o autor, ao contrario do que se tem como imagem, os intelectuais muitas vezes erraram. Desta forma, o critério de analise não pode girar em torno de maniqueísmo. Outro problema é o ‘sacrifício político’ indicado a tal grupo pelos seus ideais, como se fosse prerrogativa política apenas do mesmo, argumento que também legitima a confusão de que estes sintetizam as opiniões e assim propõe a solução mais correta. O autor mostra que ao contrario, na maioria das vezes, o que se tem desta perspectiva critica não é a razão, mas sim grandes porções de atividade na defesa de suas idéias. Sobre o grande problema ensejado pelo tema o autor conclui que o historiador dos intelectuais não tem que ter como objetivo nem construir um panteão e nem cavar uma fossa comum.

Conclui que o caminho seria destrinchar as relações entre ideologias dos intelectuais e a cultura política da época. Levando em conta a natureza do objeto que estaria vinculada a meta política, correspondente aos confrontos ideológicos e políticos, as disputas eleitorais sobretudo:

Entre o coro dos intelectuais e a peça cheia de ‘clamor de fúria’ que é representada na rente do palco, urdiram-se relações complexas, cuja observação toca o âmago do político e faz, portanto, dessa história dos intelectuais uma história a seguir, em todos os sentidos do termo. (Sirinelli, 1996, p.262)

Sugere para desfecho proceder a uma história intelectual em três níveis, sendo responsável por uma nova história global e da França ao analisar a correlação das idéias dos intelectuais e os programas políticos.

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Teoria da História de Azevedo do Amaral ou  formulação filosófica acerca da mudança histórica.

 

 

Falamos aqui em Teoria da História não no sentido meta-reflexivo preconizado pela perspectiva de Droysen, ou da escola alemã contemporânea com Rüsen no intuito de refletir os fundamentos e pressupostos epistemológicos do conhecimento histórico, o que em outras palavras significa dizer a tentativa de responder a pergunta o que fazem os historiadores quando fazem história? Falamos aqui em outra perspectiva, falamos no sentido de teorias históricas.

Estas “teorias” são leituras do Brasil que buscam as origens de instituições, de processos políticos e sociais, de classes, de projetos políticos e que assim constroem uma narrativa de desvios ou ajustamentos históricos, de acordo com projetos políticos de construção do Estado-nação brasileiro que intelectuais se colocaram a pensar. Neste contexto específico não explicitavam uma pesquisa histórica no sentido stricto de prática acadêmica institucionalizada, mas que refletia, não obstante, através de insights uma dada perspectiva da História do Brasil com pretensões explicitamente político-ideológicas , embora algumas levassem a cabo um argumento cientificista. O resultado são os grandes clássicos de nossa literatura, historiografia e sociologia nacional presente em uma tradição de intelectuais que vai desde literatos e ensaístas até a pesquisa disciplinarizada das ciências sociais a partir dos anos 30 conhecidos no campo do Pensamento Social Brasileiro. È nesta abordagem que se insere a leitura de Azevedo Amaral em seu livro o Estado Autoritário e a Realidade Nacional de 1931, nossa edição é a de 1981. O livro tem como objetivo a leitura da formação do processo político brasileiro a partir de um estudo de conjuntura ideologicamente programado acerca do Estado Novo – por ideologicamente programado quero dizer que o autor tem um projeto político bastante claro.

O ponto de partida para se conceber a História segundo Azevedo Amaral é a história da nação. Qualitativamente estes processos são sempre um encadeamento de experiências. (AZEVEDO AMARAL, p.21, 1981) Daí se coloca que o processo histórico em perspectiva de desenvolvimento não é nada mais que “a correção sucessiva de erros, o reajustamento de situações desarmoniosas, uma série de mutações visando sempre maior adaptação das formas estruturais da sociedade e do seu organismo político às condições traçadas pela inexorável pressão da realidade.” (AZEVEDO AMARAL, p.21, 1981). Isto posto, é possível observar o sentido de recuperação de um destino de aprimoramento das instituições políticas já dado aprioristicamente, sem, contudo não deixar de assinalar o paradoxo contido nesta percepção do processo histórico na qual a realidade e os fatos comprovam o curso já dado de antemão dando luz a um positivismo que relega o “filosofismo especulativo” liberal e que ao mesmo tempo encara tudo que não se conforma no processo como anomalia, desvio e divergência de um estado natural de coisas já dado de antemão.

 

 

 

Materialidade ou dinâmica histórica do processo político brasileiro: Dados

 

Já discorrido anteriormente a tendência dos autores autoritários de fazerem a recuperação histórica como Oliveira Vianna, de um Império Brasileiro que conduzia a centralização da nação de forma eficaz e do malogro da República Velha com sua conjuração a favor do individualismo egoísta republicano de um projeto de governo federalista, Azevedo Amaral, tem uma leitura diferente deste processo diz o autor:

 

                                                                                                                                                  “Sob certos pontos de vista, pode-se dizer mesmo que a ordem política estabelecida em 1891 veio agravar males surgidos durante o período monárquico. […] A este respeito, contudo, convém observar que a nosso ver tem havido erro, exagero e injustiça em certas críticas frequentemente repetidas à obra dos constituintes de 1891. Assim, atribui-se sempre a eles a responsabilidade pela intensificação de tendências regionalistas, que chegaram a inspirar aos mais criteriosos e patrióticos observadores sérias apreensões acerca das possibilidades de desintegração da nacionalidade. Divergindo radicalmente dessa opnião, já tivemos ensejo de mostrar que ao período imperial e particularmente ao Ato Adicional de 1834 cabem as maiores responsabilidades pelo estímulo das forças centrífugas e disruptivas da nacionalidade[…]”. (Azevedo Amaral, 1934)

 

 

 

 

 

 

 

 

Características do Projeto Político

 

Nesta esteira é que um projeto político se faz necessário ao ressaltar a necessidade de adaptação das instituições ao curso histórico através de um processo de adaptação, diz Azevedo Amaral:

 

“O Processo de adaptação a que acabamos de nos referir é necessariamente longo e penoso. Para atingir um estado relativamente satisfatório de equilíbrio entre as instituições políticas e a organização social e econômica, de um lado, e as injunções imperiosas de condições que não podem ser modificadas, de outro, os povos que revelaram as mais notáveis qualidades para o sucesso histórico tiveram de percorrer lentamente sucessivas etapas de desenvolvimento, que foram outras tantas experiências na plasmagem progressiva de uma estrutura mais consentânea com as expressões do dinamismo da coletividade.”

 

Dentro desta necessidade de criação de instituições que harmonizem o processo histórico na consciência de um povo e na construção da nação aos fatos, Azevedo Amaral já destaca de antemão o perigo de se ancorar tal projeto político à Estruturas exóticas e estilos de arquitetura sociológica e política importados de outros meios. Configura-se assim uma aversão ao estrangeiro no tocante às idéias e projetos políticos que dá suporte a um projeto nacionalista.

 

O Principio geral norteador é o problema que a despeito dos projetos políticos para a marcha do desenvolvimento nacional através de processos de adaptação em nações de formação não colonial seja efetivado a partir da perspectiva de harmonização, no caso de sociedades que tiveram seu desenvolvimento histórico atrelado a uma condição de formação colonial, estas possuem agravantes para sua execução de tal projeto. Sem se ater ao estudo do fenômeno Azevedo Amaral propõe direto o estudo do caso brasileiro.

 

Anotações citado: Citação: José Maurício de Carvalho ( Filosofia UFSJ)

 

“ É Amaral quem construiu o conceito de corporativismo usado durante o Estado Novo.

 

Ele desejou, com o corporativismo, enfraquecer o liberalismo e competir com outra vertente autoritária, o comunismo.

 

“conceber a idéia de Estado econômico autoritário para solucionar o problema da decadência político–econômica na conjuntura brasileira de então” (idem, p. 59).

 

Azevedo Amaral entendeu que o corporativismo é uma etapa natural da evolução do capitalismo. Apesar do caráter autoritário, deve-se ressaltar que o pensador preserva a livre iniciativa, mantém uma relativa liberdade de expressão e reconhece a autonomia da sociedade frente ao Estado.”

 

Assim define-se uma leitura do autor centralizado na perspectiva de Jarbas Medeiros sob a ótico do Antiliberalismo com ponto principal

 

Citação: José Maurício de Carvalho ( Filosofia UFSJ)

 

“Eis as teses centrais do corporativismo: a) conscientização das massas mediante a reforma pedagógica; b) denúncia do fracasso do liberalismo econômico; c) apresentação do corporativismo como verdadeiro antídoto do bolchevismo; e d) concepção de um Estado corporativo que atendesse às peculiaridades brasileiras.”

 

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