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1 –   Mito e Ciência

 

O primeiro tema abordado por Lévi-Strauss em Mito e Significado é sobre a relação entre mito e a ciência. Uma das características do texto é o fato de sua fala retomar partes de sua biografia como ilustrações de suas considerações. É assim que, já no começo do livro, o autor cita sua relação positiva para com a ciência; ao mencionar sua leitura cotidiana da revista Scientific American e, como veremos, também, no final de seu livro (quando trata da relação entre mito e música) menciona outra passagem da sua biografia: a vontade de ter sido músico desde novo. Este livro é fruto das palestras Massey reunidas no livro ‘Mito e Significado’ e que foram transmitidas no programa Ideas, da Rádio CBC, em dezembro de 1977.

O arranjo do texto segue o posicionamento de Lévi-Strauss acerca do pensamento científico. Sua reflexão sobre este tema teria suscitado controvérsias que imputaram a ele uma duvidosa predileção ao pensamento mítico, quando destacou a necessidade de retorno a este ao compará-lo com pensamento científico. Esta relação distanciada, não para o autor, entre a ciência e o mito seria resultado de um movimento operado no pensamento científico com o objetivo de afirmá-lo como forma de conhecimento. Esta relação resultou para o campo de pesquisa sobre mitos, no problema de ter que enfrentar, a partir de então, a pecha de que o objeto não teria qualquer significado relevante. Desta forma o autor objetivou mostrar o contrário, no sentido de afirmar que o mito, como outra linguagem, também seria pleno de significado. Caracterizando melhor esta fratura, o autor afirma que o depreciamento da mitologia, por parte do pensamento científico, foi operado durante os séculos XVII e XVIII, quando a matemática e o pensamento abstrato tomaram forma na mão de alguns filósofos como a linguagem mais apropriada para tratar da realidade em detrimento de explicações que recorressem aos dados sensoriais, como no caso do pensamento mítico.

A argumentação do autor passa primeiramente pela caracterização do pensamento mítico, salientando a sua diferença com relação ao pensamento científico. Para Lévi-Strauss, o mito parte do mundo dos sentidos: ‘o mundo que se vê, que se saboreia’. Este forma de apreender a realidade foi a que a ciência teria tornado um tanto quanto obsoleta. Tal posicionamento se firmaria na premissa de que: “o mundo sensorial é um mundo ilusório, ao passo que o mundo real seria um mundo de propriedades matemáticas que só podem ser descobertas pelo intelecto e que estão em contradição total com o testemunho dos sentidos.” (Lévi-Strauss, 1978, p.15) Neste percurso Lévi-Strauss aponta uma oposição já antiga no pensamento filosófico entre idealismo e empirismo.

Dando continuidade a sua argumentação sobre a relação do mito e da ciência, Lévi-Strauss recorre, mais uma vez a biografia, desta vez para dar o exemplo de como este aprendeu a ler desde cedo. Isto para introduzir na palestra a apresentação do seu método estrutural. Este método é a base para demonstrar a constituição de significado nos mitos que analisou. Desde a tenra idade Lévi-Strauss afirma sua relação com um tipo de pensamento estrutural. Neste contexto, o autor define o estruturalismo da seguinte maneira, trata-se da: “busca de invariantes ou de elementos invariantes entre diferenças superficiais.” (Lévi-Strauss, 1978, p.12) Lévi-Strauss é bastante claro ao afirmar que o método estruturalista não constitui uma novidade e que se procede da mesma forma nas ciências naturais. Nesse sentido, os modelos não correspondem à realidade, contudo exprimem de maneira reduzida elementos que são possíveis observar em muitos outros campos. No caso das ciências da natureza isto é mais recorrente. O autor exemplifica tal fato a partir do código genético concluindo que:

Longe de mim a idéia de tentar reduzir a Cultura, como dizemos no nosso calão antropológico, à Natureza; contudo, aquilo que observamos ao nível da cultura são fenômenos do mesmo tipo, se considerados a partir de um ponto de vista formal (não quero de forma alguma dizer em substância). Podemos, pelo menos, analisar ao nível da mente o mesmo problema que observamos na Natureza, embora, evidentemente, o cultural seja muito mais complicado e exija um maior número de variáveis. (Lévi-Strauss, 1978, p.14)

Na busca destas invariantes, Lévi-Strauss ressalta seu trabalho com relação às regras de casamento e, posteriormente, no mesmo sentido, no caso da análise de mitos. Este tipo de abordagem tende a levar incautos a associarem o estruturalismo ao formalismo. No entanto, este texto de Lévi-Strauss é bastante ilustrativo no sentido contrário, quando o mesmo vai tratar da relação do significado com a forma e o conteúdo, defendendo que este está também diretamente conectado ao conteúdo. O que isto que dizer? Lembrando de seu texto sobre as teses de Propp, o autor possibilita o entendimento do erro de quem confunde o estruturalismo com formalismo. Trata-se, sobretudo, de achar que se deve deduzir o significado do conteúdo a partir da forma sendo este o objetivo final da análise. Para o autor este procedimento é equivocado, pois, e aí recorremos a uma afirmação de Mauro Almeida comentando a obra de Lévi-Strauss:

A identidade não é dita de objetos ou de substâncias. Ela relaciona-se a propriedades relacionais. A definição de Weyl para simetria é a de algo que podemos fazer a uma coisa (uma transformação), conservando algo. Descrever a identidade de um objeto é então equivalente a descrever suas simetrias, isto é, o grupo de transformações a que pertence. (Almeida, 1999)

Esta questão também faz referência ao significado. Em Mito e Significado Lévi-Strauss afirma que o significado é a capacidade de traduzir e esta tradução só é obtida mediante regras que a possibilitem. Para Lévi-Strauss, você não pode substituir qualquer palavra por outra. Estas regras, portanto, existem tanto para as formas, como quanto para o conteúdo. Os dois com significados interligados, não devendo dar primazia a um para deduzir o significado do outro. Ou seja, as regras estão tanto para as formas como para o conteúdo, o que comunica não é apenas a forma, mas também o próprio conteúdo, ambos passíveis de significado. É bom lembrar que esta discussão está no seio da análise estrutural dos mitos, ou seja, no procedimento de criar modelos para estruturas narrativas e que, quando o autor fala de forma, se refere aos estudiosos que partem da análise morfológica do mito para ter uma compreensão do mesmo, como defendido até então pela escola formalista russa, posição que Lévi-Strauss questiona veementemente.

Esta busca de invariantes, tanto no nível do conteúdo como no da forma, caracterizam o método estruturalista. Lévi-Strauss chama atenção para o lugar das regras e como estas permitem a constituição dos significados, sendo uma característica intrínseca das coisas. O simbólico aproxima-se, portanto, do nível da análise sintática na gramática das línguas naturais. A busca das relações entre os termos no mito são de mesma estirpe. Estas regras, afirma o autor, se olharmos para a humanidade, ela poderia ser caracterizada por sempre inserir esta espécie de ordem. Estaria aí a origem do simbólico, o que permite produzir sentido. Esta ordem não é dada na natureza do pensamento, mas pela cultura, sendo totalmente arbitrária. Disto o autor defende que:

Se isto representa uma necessidade básica de ordem na esfera da mente humana e se a mente humana, no fim de contas, não passa de uma parte do universo, então quiçá a necessidade exista porque há algum tipo de ordem no universo e o universo não é um caos. (Lévi-Strauss, 1978, p.16)

Lévi Strauss assim retoma sua discussão sobre a separação entre o pensamento mítico, tributário dos dados dos sentidos – que o autor chama de lógica do concreto – em oposição ao pensamento científico, para concluir que há uma necessidade da ciência retomar o próprio pensamento mítico como parte integrante de seu programa. Este posicionamento, alerta o autor, pode ser julgado como cientismo ou crença no progresso da ciência. Lévi-Strauss deixa bem claro que não se trata disso – de se chegar a uma verdade finita – já que isto tem a ver com a própria feitura do trabalho cientifico, constituído sempre a partir do aparecimento de novas perguntas à medida que encontramos respostas para os problemas. Nesse sentido, a ciência nunca chegaria a todas respostas.

 

2-      Pensamento não-moderno

 

Levi-Strauss na segunda parte tratará das diferenças entre o pensamento dos povos civilizados e os dos “primitivos”. A primeira ressalva do autor é para que este últimos não devem ser tomados como primitivos, pecha de uma visão evolucionista que toma como primazia a cultura européia em detrimento das outras. Retomando que esta teoria por muito tempo dominou as teorias na antropologia. Prefere referir-se a eles como povos sem escrita, e a partir desta qualidade definiu o escopo da antropologia que há algum tempo vem ultrapassando esse limite.

Ao definir seu objeto, Lévi-Strauss então segue para o que falam sobre do ponto de vista científico. Na antropologia pelo menos duas visões para o autor se destacaram na caracterização do pensamento “primitivo”: primeiro a dos funcionalistas que reduziam o pensamento primitivo a necessidades primárias como a subsistência, as pulsões sexuais entre outros. Estas teorias tentavam ilustrar o que guiaria primordialmente o pensamento desses povos. O segundo modo de definição do pensamento desses povos é tomá-lo como fundamentalmente diferente do nosso. Ancorado na perspectiva de Levy-Bhrul, esta teoria afirma o pensamento “primitivo” como um pensamento místico e totalmente dependente da emoção. Logo incapazes de um pensamento guiado pela razão. Desta forma Lévi-Strauss mostra que as duas teorias se fundam em projeções utilitárias ou afetivas.

Lévi-Strauss tentou desmontar essas projeções apontando o caráter desinteressado e intelectual do pensamento desses povos, características até então apenas atribuídas aos modernos. Nesse sentido, seu objetivo foi mostrar nesses povos a possibilidade de interesse intelectual, tal como “filósofos”, ou seja, se guiarem por desinteresse atribuindo razão ao pensamento “científico”. O autor afirma:

O que tentei mostrar, por exemplo, em Totémisme ou La Pensée Sauvage, é que esses povos que consideramos estarem totalmente dominados pela necessidade de não morrerem de fome, de se manter em num nível mínimo de subsistência, em condições materiais muito duras, são perfeitamente capazes de pensamento desinteressado; ou seja, são movidos por uma necessidade ou um desejo de compreender o mundo que os envolve, a sua natureza e a sociedade em que vivem. Por outro lado, para atingir este objetivo, agem por meios intelectuais, exatamente como faz um filósofo ou até, em certa medida, como pode fazer e fará um cientista. Esta é a minha hipótese de base. (Lévi-Strauss, 1978, p.19)

 

Ou seja, está implícito na base do método estrutural demonstrar a constituição de significados, para tanto deve-se ter um noção implícita de que todo ser humano é capaz produzi-lo, estender o que se entende como cultura a todos os povos. Mas nesta discussão Lévi-Strauss acrescenta para outros povos, a possibilidade que o uso da razão oferece na atitude de se interessar por questões para a resolução de problemas, para a criação, na produção de idéias; tirando desses povos a característica de sujeitos passivos da realidade em que vivem. Ilusão criada sobre eles, pelo fato de quando estão em nosso meio, demonstrarem certas incapacidades, resultando na projeção automática por parte dos ocidentais de suas capacidades intelectuais.

Contudo, ao trazer as semelhanças entre os pensamentos, Lévi-Strauss não deixa de marcar as diferenças características destes dois. Ressalta que, um e outro, são superiores e inferiores em diferentes aspectos. O pensamento mítico considera a totalidade para entender os fatos, ao passo que o pensamento científico consiste em avançar etapa por etapa. Citando Descartes afirma que o pensamento científico divide as dificuldades em quantas partes necessárias for para o entendimento do problema.

Para ilustrar a importância de um maior diálogo dos modernos com esse tipo de pensamento o autor ilustra afirmando que:

Devemos notar, no entanto, que, como pensadores científicos, usamos uma quantidade muito limitada do nosso poder mental. Utilizamos o que é necessário para a nossa profissão, para os nossos negócios ou para a situação particular em que nos encontramos envolvidos na altura. Portanto, se uma pessoa mergulha, durante vinte anos ou mais, na investigação do modo como operam os sistemas de parentes, casamentos, mitos, utiliza essa porção do seu poder mental. Mas não podemos exigir que toda a gente esteja interessada precisamente nas mesmas coisas; daí que cada um de nós utilize uma certa porção do seu poder mental para satisfazer as necessidades ou alcançar as coisas que o interessam.

Com isto, apesar de pensamentos distintos, a mente humana é uma em todos os lugares e com a mesma capacidade, a despeito da ênfase que cada povo dá às suas dúvidas. Nesse debate poderia surgir a pergunta da busca de uma uniformidade do pensamento em todas partes do globo. Lévi-Strauss insiste que a diferença é salutar e é o que permite as novas descobertas. Nesse sentido, em meio ao debate da época sobre a globalização, o autor se mostra cético a uma tendência uniformizante, argumentando que quanto mais uniformes as culturas, mais as fraturas tendem a se evidenciar.

Para exemplificar uma relação inversa sobre como o pensamento científico ajuda a entender o próprio mito, Lévi-Strauss então fala sobre um mito do Canadá: a raia e o vento sul. Neste mito se estabelece a periodicidade do vento. O autor indica que não se deve tomar a história como a criação de uma mente em delírio, já que evidentemente não acontecera. Seu crédito está na possibilidade da pergunta de por que a raia e por que o vento sul? Para narrar a história, Lévi-Strauss descreve minuciosamente o significado da raia. Concluindo a possibilidade de ser usada para contar a história, seu modo e comportamento como dados tirados da experiência daqueles que a usam para narrar a história. Mas há mais, como Lévi-Strauss estava preocupado em caracterizar a relação do pensamento mítico com o pensamento científico, ele busca um mito que utiliza um conceito que foi aparecer na ciência apenas na cibernética, que são as oposições binárias – sim e não:

Assim, de um ponto de vista lógico, há uma afinidade entre um animal como a raia e o tipo de problema que o mito tenta resolver. De um ponto de vista científico, a história não é verdadeira, mas nós somente pudemos entender esta propriedade do mito num tempo em que a cibernética e os computadores apareceram no mundo científico, dando- nos o conhecimento das operações binárias, que já tinham sido postas em prática de uma maneira bastante diferente, com objetos ou seres concretos, pelo pensamento mítico. Assim, na realidade não existe uma espécie de divórcio entre mitologia e ciência. Só o estado contemporâneo do pensamento científico é que nos habilita a compreender o que há neste mito, perante o qual permanecíamos completamente cegos antes de a idéia das operações binárias se tornar um conceito familiar para todos. (Lévi-Strauss, 1978, p. 25)

 

O autor sugere que não esta tentando colocar em pé de igualdade o conhecimento produzido pelos dois tipos de pensamento, mas seu principal argumento é de que não há o fosso colocado pela ciência do século XVII entre a mente e a realidade, e a junção entre o pensamento mítico, o primeiro partindo das experiências sensíveis, e o pensamento científico, que expressa suas relações a partir de idéias abstratas. Segundo o autor, as duas são parte de uma única ordem: a simbólica.

 

3-      Análise estrutural em ato

 

A terceira empresa de Lévi-Strauss neste livro é a analise de um mito strictu sensu. A maneira como faz sua pergunta já direciona o tipo de abordagem que buscará. O ponto de partida é um mito relatado por um Padre no Peru em 1631. A menção a este mito foi feita por outros mitógrafos, no entanto, não do ponto de vista de Lévi-Strauss. Aparecem dois temas, os lábios rachados e os gêmeos. Para o estruturalismo então importará descrever estes dois signos como invariantes que conduzem um significado dentro de diferentes sistemas. O que isto quer dizer? Considerando o papel dos gêmeos para a mitologia americana como já ressaltado pelo autor, Lévi-Strauss vai buscar por que um e outro comunicam algo e por que? Nesse sentido, o significado dos dois termos só será encontrado na relação que estes operadores simbólicos têm no sistema inteiro. A despeito da função que desempenham no mito a que pertencem. Vejamos melhor esta afirmação, a pergunta então é: “Parece-me que o cerne do problema consiste em descobrir por quê os gêmeos? Por quê os de lábios rachados? E por quê associar gêmeos e lábios rachados? (Lévi-Strauss, 1978, p.27)

Como afirmado anteriormente, na resolução do problema Lévi-Strauss vai procurar as relações entre estes operadores em mitos diferentes, ou seja, responde um mito norte-americano com um mito sul-americano. O autor menciona as objeções que se fazem a este procedimento, quando alguns autores afirmam que um mito só pode ser entendido com referência a cultura que este faz referência. Em respostas a tais objeções o autor afirma que os mitos devem ser tomados como pertencentes a um todo e que, por exemplo, um significado que não é encontrado em um mito específico aparece em outro pleno de significado. Este tipo de resposta fundamenta a análise das transformações. A resposta para a possibilidade de comparação se estabelece na defesa de que estas culturas estavam em permanente contato e que estes mitos aparecem não só em dois lugares, mas repetidamente em uma zona contínua. O mito tal como encontrado na América do Sul, conta a seguinte história:

Ora, entre os Tupinambás, os antigos índios da costa do Brasil ao tempo da descoberta, como também entre os índios do Peru, há um mito que fala de uma mulher que um indivíduo pobre conseguiu seduzir de uma maneira tortuosa. A versão mais conhecida, registrada pelo monge francês André Thevet no século X V I, explicava que a mulher seduzida deu à luz gêmeos, um deles nascido do pai legítimo, e o outro do sedutor, que é o Burlão. A mulher ia encontrar- se com o deus que seria o seu marido, mas no caminho intervém o burlão e lhe faz crer que ele é o deus; então ela concebe do burlão. Quando, mais tarde, encontra aquele que deveria ser o legítimo marido, concebe também dele, e depois dá à luz gêmeos. E, uma vez que estes falsos gêmeos têm diferentes pais, possuem características antitéticas: um é corajoso e o outro covarde; um dá bens aos índios, enquanto o outro, pelo contrário, é responsável por uma série de desgraças. ( Lévi-Strauss, 1978, p.28)

 

Nota-se, portanto, uma explicação negativa para o nascimento de Gêmeos, já para a América do Norte, o mito assume a seguinte feição:

Acontece que na América do Norte encontramos também exatamente o mesmo mito, especialmente no Noroeste dos Estados Unidos e no Canadá. Todavia, em comparação com as versões sulamericanas, as provenientes da área do Canadá apresentam duas diferenças importantes. Por exemplo , entre os Kootenay , que vivem nas Montanhas Rochosas, há apenas uma fecundação o, a qual tem como consequência o nascimento de gêmeos, que mais tarde se tornam, um, a Lua e, o outro, o Sol. E entre outros índios da Colômbia britânica – os índios Thompson e os Okanagan – há duas irmãs que são enganadas aparentemente por dois indivíduos diferentes, dando cada uma à luz um filho; não são realmente gêmeos, porque nasceram de mães diferentes. Mas, dado que nasceram precisamente de circunstâncias semelhantes, pelo menos dum ponto de vista psicológico e moral, são em certo sentido semelhantes a gêmeos.

 

Segundo Lévi-Strauss o mito tem seu prosseguimento ao afirma que os gêmeos, ou os que se entendem por gêmeos como no caso Kootenay, tem em outros mitos aventuras diferentes cada um. Até chegar a uma trama em que a mãe deu para não repetir o erro passado cuida de sua filha que é abordada por uma lebre no meio do caminho. Lévi-Strauss faz a associação da Lebre como pertecente à família dos leporinos que têm os lábios rachados. Ou seja, são duplos em potencial, neste caso, gêmeos em potencial. Estaria aí estabelecida a relação. O autor conclui que:

O realmente importante é que em toda a mitologia americana, e também na mitologia do mundo inteiro, há deidades ou personagens sobrenaturais que desempenham o papel de intermediários entre os poderes de cima e a Humanidade em baixo. Podem ser representa das de diferentes maneiras: há, por exemplo, personagens do tipo de um Messias e gêmeos de caráter celeste. Pode-se ver que o papel da lebre na mitologia algonkiana se encontra precisamente entre o Messias – ou seja o intermediário  único – e os gêmeos de caráter celeste. A lebre não é um par de gêmeos, mas um par de gêmeos incipiente. Embora seja um indivíduo completo, tem um lábio rachado e está a meio caminho de se tornar em gêmeos.

Isto explica a razão porque nesta mitologia a lebre, enquanto deus, possui um caráter ambíguo – o que tem preocupado os comentadores e antropólogos. Às vezes é uma deidade muito sábia que tem a seu cargo a ordem do universo, outras aparece como um palhaço ridículo que vai de contratempo em contratempo . E este fato também se poderá entender melhor se se explicar a escolha da lebre por parte dos Índios Algonkianos por ser um indivíduo entre as duas condições: a) uma deidade singular benéfica para a Humanidade; e b) gêmeos, um dos quais é bom, e o outro mau. Não estando ainda totalmente dividida em duas metades, não sendo ainda gêmeos, as duas características opostas podem permanecerem fundidas numa única e mesma pessoa. (Lévi-Strauss, 1978, p. 33)

 

O importante é ressaltar a forma da análise, a busca de invariantes em diferentes mitos para a compreensão de como um signo, por exemplo, os gêmeos e os lábios rachados assumem diferentes significados com relação às culturas que estão inseridos. Estes diferentes significados não impendem a análise estrutural acompanhe a forma como são manejados internamente nos mitos. O significado é obtido no todo, o que permitiria perceber sua significação local também.

 

4 – A quarta parte diz respeito a relação entre o Mito  a História, são, portanto, considerações que passaram os limites de um fichamento e não vou publicá-las por enquanto.

 

5 – Mito e Música

 

Por fim, Lévi-Strauss encerra sua discussão sobre Mito e Significado pensando a relação entre o mito e a música. Esta relação é sugerida a partir do tema abordado em outras obras suas como em “O Cru e o Cozido” e na parte final de “O Homem Nu”. O argumento do autor passa pela relação entre estas duas formas derivadas da linguagem. A relação entre mito e música era considerada como uma relação arbitrária até então pelos estudiosos e do ponto de vista do autor não é. Assim o que sustentaria seu argumento seriam duas aproximações inicias – de similaridade e de contigüidade – sendo a primeira a chamar à atenção do autor.

Todavia, esta relação proposta pelo autor está circunscrita, a meu ver, na própria base do método estruturalista que subsume os fenômenos culturais a uma teoria lingüística, que assinala a relação entre pensamento a linguagem.  Nesse sentido, a relação entre os signos sendo arbitrária como na constituição das línguas, só passível de significados quando em relação, seria o que concederia uma lógica interna a outras linguagens e suas particularidades, bem como sua capacidade de comunicar a partir da constituição de significados. Não seria, portanto, diferente no caso da música. Esta projeção, por sua vez, é oriunda de uma relação interna estável que permite a compreensão desses códigos à maneira do processamento de um computador na execução de programas; considerando a linguagem computacional, como, por exemplo, a Java. Tais linguagens seguem certas leis de estruturação das línguas naturais. Deste modo a música, também seria outro código.

Para ilustrar melhor estas semelhanças, sobretudo a questão da similaridade quanto à forma de compreensão do significado entre o mito e a música, o autor nos fornece alguns exemplos para a compreensão do significado de um mito. O ponto crucial é a forma de leitura do mesmo como destacado em outra conferência já aqui comentada, o autor afirma que:

Esta é a razão porque devemos estar conscientes de que se tentarmos ler um mito da mesma maneira que lemos uma novela ou um artigo de jornal, ou seja, linha por linha, da esquerda para a direita, não poderemos chegar a entender o mito, porque temos de o apreender como uma totalidade e descobrir que o significado básico do mito não está ligado à sequência de acontecimentos que narra, mas antes, se assim se pode dizer, a grupos de acontecimentos, ainda que tais acontecimentos ocorram em momentos diferentes da história. (Lévi-Strauss, 1978, p.42)

 

O exemplo então mostra o papel que a totalidade exerce na compreensão das partes à maneira da partitura musical. A partir desde aspecto, Lévi-Strauss coloca a pergunta sobre a possibilidade de se apreender esta totalidade, e, nesse sentido, surge o segundo aspecto, que permitiu o mesmo afirmar a aproximação do mito e a música – a contigüidade.

Lévi-Strauss usa a historiografia para mostrar como a partir do desaparecimento do pensamento mítico, durante o período do renascimento, que apareceram as novelas e as grandes peças musicais. Quando Levi-Strauss está falando de música ele sobre a música clássica, que depende do todo para a compreensão das partes, e não da musica pop que muitas vezes o sentido de cada parte é autoreferenciado, sem buscar um contexto geral. Nas palavras do autor: “mas a música tal como surgiu na civilização ocidental, nos primeiros quartéis do século XVII , com Frescobaldi, e nos primeiros anos do século XVIII , com Bach, música que atingiu o seu máximo desenvolvimento com Mozart, Beethoven e Wagner, nos séculos XVII e XIX”. ( Lévi-Strauss, 1978, p.43)

A partir da apresentação de um tema de Wagner, Lévi-Strauss demonstra mais uma vez como sua metodologia possibilita a análise de transformações. São várias músicas que se não forem escutadas em conjunto não permitem a compreensão do todo. Este é o aspecto de contigüidade que ambas linguagem possuem e que permitem a similaridade de método entre a análise do mito e a compreensão da música. (Lévi-Strauss, 1978, p. 46) O autor fala do tema da Fuga, como um tema mitológico exemplificando com Bach. Percebe-se que para fazer tal paralelismo tem que se ter o domínio das estruturas musicais para compará-las à estruturas de alguns mitos.

Também se poderia mostrar que há mitos, ou grupos de mitos, que são construídos como uma sonata, uma sinfonia, um rondó ou uma tocata, ou qualquer outra forma que a música, na realidade, não inventou, mas que foi inconscientemente buscar à estrutura do mito. Deparei- me então um mito cuja estrutura compreendia perfeitamente, mas o qual não encontrava uma forma musical que correspondesse à estrutura mitológica. Chamei então o meu amigo, o compositor René Leibowitz, e expliquei- lhe o meu problema. Descrevi- lhe a estrutura do mito: ao começo duas histórias completamente diferentes, sem relação aparente uma com a outra, mas que progressivamente se misturam e confundem, até que no fim acabam por formar um só tema. Como se chamaria uma peça musical com a mesma estrutura?

Foi assim que seu amigo, respondeu-lhe que não havia nenhuma peça musical com tal estrutura, mas duas semanas depois apareceu com a peça composta de acordo com a estrutura do mito que o autor havia indicado.

 

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