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Posts Tagged ‘Epistemologia’

Rabinow, Paul. 1986. “Representations are social facts: modernity and post- modernity in anthropology”. In: James Clifford & George Marcus (Ed.). Writing culture- the poetics and politics of ethnography. Los Angeles: University of California Press, pp. 234-261.

Paul Rabinow. University Of California, Berkeley

Special interests: Cultural anthropology, social thought, modernity, biotechnology, global genomics; France.

Anthropology at UC Berkeley

(fonte: http://anthropology.berkeley.edu/)

Paul rabinow

Rabinow começa seu texto citando a crítica de Rorty a empresa da epistemologia. Chamando atenção para o lugar social e histórico de produção de conhecimento dos epistemologos situados na Alemanha do Séc. XIX. Nesse sentido, a critica de Rorty fundamenta o que estaria como projeto na moderna filosofia: a certeza da busca de fundamentos para a razão. Isto faria com que a epistemologia, como a disciplina responsável pela busca das possibilidades e fundamentos da produção do conhecimento, assumisse o papel protagonista do que Rabinow se refere como um melodrama.

À frente do relativismo proposto por Rorty que, não obstante têm suas implicações, Rabinow propõe no texto uma crítica ancorando-se em pressuposto foucaultianos, além de analisar as conseqüências disto para a escrita e representação sobre o outro, trabalho mais especificamente, antropológico. Segundo Rabinow analisando esta virada no conhecimento de Descartes com relação a Aristóteles: A filosofia moderna surgiu com um sujeito conhecedor, dotado de consciência e de seus conteúdos representacionais, tornou-se o problema central para o pensamento, paradigma de todo saber.[1]

Todo um quadro é pintado em que o cerne do argumento é a produção de saber estaria no estudo sobre as possibilidades do conhecimento e sobre a relação das representações e a realidade, bem como do sujeito conhecedor. Tratar-se-ia da própria noção de ciência. Isto levou a filosofia, e aí o argumento de Rorty, somente no iluminismo como juíza da razão e de todo conhecimento possível como colocada pela obra de Kant. Todavia, essa relação da filosofia como uma teoria do conhecimento foi cimentada ao longo do sec. XX. Contudo, Rabinow chama atenção que ela não conseguia, a despeito de suas pretensões arbitrarem diretamente sobre as produções culturais, tal intento. Diz que, provavelmente, nem Einstein, nem Picasso estiveram muito preocupados com o que Husserl vinha desenvolvendo.  O autor nos diz que embora a filosofia ainda tenha departamentos de epistemologia, uma parte dela seguiu em outra direção, o autor cita os trabalhos de Wittgenstein, Heidegger e Dewey.

A inversão ocasionada segundo Rorty por esses autores era de que não se tratava de melhorar as teorias sobre a mente, sobre o conhecimento e sim jogar de outras formas, já que para esses autores o conhecimento não residiria diretamente nas representações. Conclui sua introdução com um problema que se colocou pelo que Rorty chamou de virada hermenêutica, pelo qual se não caberia mais a filosofia o papel de analisar as produções do conhecimento e sim de estabelecer conversações, para que então a filosofia? Observa-se que a critica parte para a historia da filosofia ocidental e sua lógica no sentido de desacreditá-la do ponto de vista de Rorty.

VERDADE VERSUS VERDADE E FALSIDADE

Colocada a questão da desconstrução da epistemologia por parte de Rorty, Rabinow recorre a Ian Hacking que argumenta que esse movimento a pesar de ter seu valor de separar certeza de verdade não rejeito a hipótese de rejeitar a verdade, a razão ou padrões de julgamentos. O argumento é central é dá subsídio ao modelo arqueológico de Foucault para a questão do saber e genealógico para a questão da moral em um argumento que Rabinow apresenta como simples: “O que é em geral tido como ‘verdade’ depende de um evento histórico anterior – ou seja, a emergência de uma maneira de pensar sobre a verdade e falsidade estabeleceu as condições para se considerar, a priori, se uma proposição é capaz de ser verdadeira ou falsa” [2]

Vou fazer um breve aposto para o caso da minha pesquisa situando a questão. Esses autores estavam preocupados com a desconstrução de um conceito de verdade a partir do conhecimento estabelecido pela filosofia moderna. No meu caso, já trato as proposições da sociologia do ‘contato’ como demolidas. Isso significa que a reprodução das condições, ou seja, das formas discursivas que originaram aquele saber no sentido de relativizá-las torna-se uma empresa desnecessária porque já tomo como dadas. Minha pergunta se orienta de outra forma então.

Afora esse breve aposto o autor chama atenção para um fato sutil que ao criticar a lógica o autor não esta tirando-a o caráter de construtora de verdades, o que na filosofia de Rorty seria exatamente do que se trataria. No entanto, trata-se de ressaltar que essa mesma lógica não esgota as possibilidades. Sendo ela funcionando em um domínio próprio. Isso significa dizer que nem todo o relativismo.

A questão da objetividade, por conseguinte, esta intimamente ligada às condições de possibilidades dessas verdades. Assim uma verdade é dependente de um fato histórico e não se reduz a subjetivismo, por ser social e igualmente histórica.  (Pergunta-se no caso do pensamento mitológico como se daria. Talvez a questão nem seja colocada) O que Foucault chama de regimes de verdades como componentes históricos. A critica se dirige, portanto, ao um regime de verdade universalmente válido popperiano. O autor exemplifica com o caso do desconhecimento da estatística pelos gregos o que não inviabilizaria a produção de verdades, apontado que não se trataria de relativismo, mas também não de imperialismo. (Uma pergunta o que é verdade no sentido que Paul Rabinow está colocando. (Traçar o paralelo com Lévi-Strauss.)

É assim que para a discussão Rabinow chama Foucault, pois segundo o autor para Rorty e Hacking faltam categorias com o ‘poder’ e ‘sociedade’ em suas análises sobre os pressupostos da filosofia e sua história. Falta na resposta de Rorty o como se deu essa transformação na filosofia. Resumindo em uma frase forte que também atinge a filosofia de Habermas que: “O conteúdo da conversação, a maneira de trazer à tona a liberdade de tê-la está, no entanto, além do domínio da filosofia.”

Por isso, conclui Rabinow: ‘A conversação entre indivíduos e culturas é possível dentro de contextos moldados e limitados por relações históricas, culturais, políticas e práticas sociais parcialmente discursivas que as constituem. ’ (Pensar se no caso da proposta da Teoria da História de Rüsen sobre a interculturalidade isto está disposto e como é articulada.) (E o caso de Viveiros de Castro se por hipótese o deslocamento efetivo da etnologia seria dar o estatuto de válida concreto estabelecido pelos próprios nativos.) Na definição de Rabinow o pensamento não é nada mais do que um conjunto de praticas historicamente localizável.

O problema, por fim, de tal afirmação é como esta relação ao retornar para a epistemologia é estabelecida sem cair em dicotomias do tipo infra/superestrutura, mencionando que Rorty não está sozinho no tratamento do problema. (No meu artigo aponto a proposta de Thompson que pode aqui ser mais bem trabalhada).

REPRESENTAÇÕES E SOCIEDADE

  • Rabinow não precisa bem esse conceito de representação e incomoda os ouvidos no sentido de que sempre aproximo as discussões da vertente da História Cultural. Pensar um pouco sobre isso. No entanto, tudo indica que trata-se do pensamento em loco, tal como tratado na epistemologia.

O que caso da representação como antecipado é tratado, mas detidamente por Rabinow ao indicar a representação como um atributo da filosofia moderna focada no sujeito moderno, nas representações e na ordem.  Mas o autor destaca a diferença de ênfase de Rorty e Foucault ao indicar que estava centrado à: Uma gama de disparatadas, mas inter-relacionadas práticas sociais e políticas que constituem o mundo moderno, com suas preocupações distintivas quanto à ordem e o sujeito moderno e à verdade. Ao contrário de Rorty que trata as idéias filosóficas como mudanças gratuitas numa conversação ou na filosofia[3] E um ponto central é a associação que por de trás do conceito de ideologia vem associada à própria epistemologia, pois no funda há um nível de realidade. Nesse sentido as idéias não são epifenomenos do que acontece na sociedade. Mostrando que Foucault rejeita todas essas idéia s de ideologias, como se representações não fossem reais.

O projeto Foucaltinano, por conseguinte, não tinha como pretensão a busca de verdade, mas tratava-se da busca dos efeitos de verdade historicamente dentro do discurso. O texto fica claro. E define-se por algumas estratégias, primeiro a critica de Rorty da epistemologia como um saber historicamente construído por nossa civilização, segundo as implicações do pensamento de Foucault no que tange as relações de poder subsumidas nessa construção de verdade.  Um projeto antropológico descartando a necessidade de se entender uma epistemologia do outro e sim um estudo sobre relação quando e como outros povos começaram reinvidicar a epistemologia para os próprios.  Como discursos universalizantes tornaram-se forças sociais. Deve-se evitar essencializações amerindismo não é um remédio para reformismo.

A ESCRITA DE TEXTO ETNOGRÁFICOS: A FANTASIA DA BIBLIOTECA

Rabinow nesta parte do texto vai precisar o projeto de James Clifford e sua reflexão sobre a escrita etnográfica principalmente em seu On ethnographic authority Conduzindo-o para a entrada em mais um regime de verdade, o regime de verdade pós moderno como afirmado por Rabinow. Vejamos por partes o projeto de Clifford tal como descrito por Rabinow a título ilustrativo.

Caracterização da antropologia interpretativa e a da meta-antropologia constituindo-a como objeto de análise.

DO MODERNISMO AO PÓS-MODERNISMO EM ANTROPOLOGIA

Caracterização da Antropologia intepretativista e da meta-etnografia no pós modernismo a partir de alguns pressupostos básicos apontados por Jamenson. Tal como a relação retro e antihistoricista, a textualidade e o esvaziamento dos referenciais. A esquizofrenia dos significantes que por sua vez, assumem o papel de imagens. O que Rabinow coloca é em sua a pergunta de quando estes textos viram discursos.  Ressalta com exemplo os filmes históricos e utiliza a periodização colocada por Jamenson a titulo heurístico.

Aponta finalmente que, o problema da representação dos outros, (isso faz com que a palavra representação aqui assuma um sentido diferente do esboçado na introdução do texto) Fala que a critica é bem-vinda no que respeita um não retorno a modos de representações não reflexivos, mas que, no entanto estas novas etnografias (seriam a proposta de experiências, neste caso narrativas apontadas por Marcus) como representações não devem ser desligadas das práticas sociais.

COMUNIDADES INTERPRETATIVAS, RELAÇÕES DE PODER E ÉTICA

O diagnostico é dado a partir dos trabalhos de Talal Asad e Edward Said, sobre as implicações da antropologia com o imperialismo e o colonialismo. As dimensões das relações macro-politicas foram demonstradas, mas o que Rabinow destaca são as relações micropoliticas entre o antropólogo e seus outros. E coloca neste escopo um conjunto de questões que merecem sempre serem feitas.

Dirige assim mais uma critica a Clifford, dizendo que problematizam a meta representações de nossa própria cultura (os aspectos lingüísticos e estilísticos). Nas palavras de Rabinow a preocupação central do autor é com os tropos lingüísticos da construção do texto etnográfico e não as relações com o outro. (No caso do estuda da teoria da história é interessante este debate sobre situar as micro-politicas no lugar da própria narrativa e os aspectos literários como o faz Hayden White, colega de James Clifford no Programa de Pos Graduação em History of Consciuness na University Of California). O autor atenta-se a sugestão de Jamenson do caráter histórico do surgimento dessas limitações. A saída disso é uma critica ao pos-modernista que pela critica de Jamenson nos capacita a evitar o erro da nostalgia de universalizar e ontologizar uma situação histórica.

O autor situa o campo político ironizando Clifford como não nos anos 50, de uma antropologia dos impérios e sim um campo político acadêmico, coloca o debata da produção da política cultural suscitada por Bourdieu. O autor sugere como campo de estudo da antropologia da antropologia um estudo sobre as micro-práticas da academia.

“Quando as conversas de corredores sobre as pesquisas de campo tornarem-se discursos, isto é, quando estes domínios privilegiados de alguns poucos tornarem-se objetos científicos, certamente aprenderemos bastante”.[4] Conclui a proposta e fala sobre o debate das feministas e de Strathern com a etnografia experimental afirmando que os tropos estão aí agora seus usos que fazem toda a diferença.

ÉTICA E MODERNIDADE

O autor fecha seu texto no comum da discussão sugerida na introdução acerca do problema da verdade. Assim caracteriza as posições de cada corrente na antropologia. A primeira os Antropólogos Interpretativos. O problema epistemológico que os orientam são as práticas interpretativas, tanto por parte dos antropólogos como por parte dos nativos. Tendo como objetivo ultimo a especificação cientifica da diversidade cultural.

O segundo são os críticos presos aos aspectos formais e aos tropos. O perigo político é a museologização do mundo como apontado por Weber. Pela confusão da experiência e o sentido preso a forma.

O terceiro são os sujeitos políticos que tem uma subjetividade política comunitariamente baseada. O perigo político é reificar as relações apontadas no pólo oposto.

O quarto os intelectuais críticos, cosmopolitas. Fora dos três outros o autor se enquadra nesse espectro que tem como fio condutor o que ele chama de um principio ético. Define o cosmopolitismo como um ethos de macrointerdependencias, com uma consciência perspicaz, muitas vezes imposta sobre as pessoas, das fatalidades e particularidades de lugares, sujeitos, trajetórias históricas e destinos.

Relata sua pesquisa no Marrocos e sua posição de estudar os reformadores e sua preocupação com a sujeição muito mais do que a exploração e a dominação, por fim termina com a dimensão política de Foucault colocando-se diretamente como um tributário.

Estrutura do Artigo.

Caracterização do problema, com um mapeamento dos deslocamentos ocorridos no campo filosófico. A proposta de um projeto via sugestão de Foucault para um campo específico, a própria antropologia. Por fim uma reflexão sobre sua própria pesquisa e o ponto política que se subtraí dela.


[1]Rabinow, Paul. 1986. “Representations are social facts: modernity and post- modernity in anthropology”. In: James Clifford & George Marcus (Ed.). Writing culture- the poetics and politics of ethnography. Los Angeles: University of California Press, p.73 (1999)

[2]Rabinow, 1999, p. 29, grifos do autor.

[3] Rabinow, 1999, p. 78, grifos do autor

[4]Rabinow, 1999, p.95.

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